Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, março 17, 2012

A calcinha da mamãe... (guacira maciel)

Outro dos sublimes, embora constrangedor, momentos que passei como mãe, refere-se a um fato ocorrido quando minha filhota, Renata, tinha uns três aninhos.


Ela, eu e meu ex-marido (pai dos meus dois filhos) fomos à missa das 18.00h do domingo, na Igreja da Piedade, em Salvador. Chegamos cedo com intenção de encontrar lugar para sentar, o que talvez tenha sido um erro, pois era muito cedo ainda e as pessoas demoravam a chegar, principalmente o ator principal: o padre. O tempo parecia não passar e Renata começou a dar mostras de irritação devido ao calor, o perfume das flores e das pessoas, enfim todo o ambiete. Nessas ocasiões, como toda experiente mãe, levava sua boneca preferida para distraí-la numa emergência, mas naquele contexto minha brilhante ideia não surtiu muito efeito.


Aquilo estava quase me levando ao desespero, quando, finalmente, o padre apareceu, dando início à tão esperada cerimônia. Tudo parecia ocorrer quase normal; eu, rezava mais para que tudo terminasse logo do que para ter minhas demandas atendidas pelo Pai, por causa do cansaço que ela dava mostras de estar sentindo. O pai dela, que sempre tivera pouca paciência, me culpava pela infeliz ideia de ter levado uma criança tão pequena para "exibir, num local tão pouco apropriado". Mas, enfim, levantou-se e foi procurar alguma coisa que a distraisse, trazendo um saquinho de pipoca, que conseguiu fazer isso por algum tempo. Porém, logo começou a chorar e eu tentei acalmá-la chamando sua atençao para a desprezada boneca. Nesse ponto, ela parou de chorar, levantando a roupinha da pobre e, numa altura que me pareceu bem maior do que realmente deve ter sido, falou:


_ Olha, mamãe, a calcinha dela é igual à sua..
E me olhou com um sorriso luminoso. Eu torci para que o chão abrisse e me engolisse, ao perceber os disfarçados sorrisos das pessoas mais próximas, e quanto mais eu baixava a roupinha da inocente boneca, mais ela ria, parecendo perceber o meu constrangimento e repetia:


_ Nâo é, mamãe, igual à sua calcinha? Olha, mamãe, olha...

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