Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, março 23, 2012

Aborto X Direitos Humanos (guacira maciel)

A evolução da ciência nos encaminha a uma complexidade tão abrangente sobre todas as questões, que se tornou quase impossível ter certeza sobre o que quer que seja; por outro lado o debate e as discussões conceituais, como premissa, e a perda de identidade do próprio conceito, uma vez que, embora ele extrapole fronteiras semânticas e ofereça desdobramentos que podem atingir os aspectos sociais das questões, como uma produção da linguagem não parece atingir a complexidade dos sentimentos nem dos comportamentos imbuídos desses mesmos sentimentos, vindo reforçar e aprofundar o princípio da incerteza, que a própria ciência num movimento de convergência trouxe à discussão.
Em outubro de 2011 o Supremo Tribunal Federal (STF) deveria ter deliberado sobre o aborto em fetos anencéfalos (uma história que já dura sete longos anos), mas parece que a discussão teve seus rumos mudados com a compreensão dos filósofos de que este não se configura um debate “maniqueísta entre certo e errado”. Ai entra a minha indignação, porque parecem achar que a “vida humana, propriamente dita se constitui de aspectos fisiológicos e psicológicos”, e defendem a possibilidade da prática do aborto antes de o feto possuir sensiência, aliado ao fato de que dar respostas não é o objeto da Filosofia...
Bem, a destruição das certezas pode mudar quase tudo...Mas se o ser humano é considerado um ser de "alta complexidade biológica", como assegurar que o feto não possa sentir, já que a existência de certezas é tão discutida? E já que se fala da possibilidade de sensiência nas discussões sobre a ética animal (o que acho muito pertinente), como não pensar nisso quanto aos fetos humanos, que têm “alta complexidade biológica”? Como saber e estabelecer limites – uma região de trânsito, de existência negada – se um olhar além dele, “confirma a vida que o excede”?
Sensiência, dizem alguns cientistas, até os artrópodos e moluscos têm, e sabe-se que muitos dos estudos que estão nos "livros de fisiologia humana sobre mecanismos celulares e bioquímicos da aprendizagem, foram conhecidos a partir de estudos em um molusco denominado Aplysia". Sendo assim, diante de sofisticados estudos sobre aprendizagem e memória, entendem alguns que organismos bastante simples demonstraram comportamentos que revelaram sentimentos e intenções. Por exemplo, a ameba “em uma placa Petri move-se em direção a algo que lhe é benéfico”. Estou querendo elucidar que, pelo que entendi, ter sensiência em seres humanos, e não humanos – embora volte aqui mais tarde para falar sobre a “ética animal”, e os direitos dos animais -, implica em ter consciência do sofrimento.
Fique claro que não estou afirmando que moluscos e amebas – organismos simples, embora com níveis de complexidade diferentes - tenham sensiência, mas que se eles demonstraram, através de pesquisas, possuir sentimentos e intenções, por que um feto humano, sendo um organismo de “alta complexidade biológica” não possuiria sensiência? Um feto é um organismo vivo nada simples, a sua natureza desde que começa a existir é altamente complexa, logo, para além dos seres mais simples como os citados acima, eles devem ter sentimentos e intenções...Haveria alguma forma de ter certeza que não é assim, ao deliberar sobre seu direito à vida? e qual seria ela?
Sugiro um pouco mais de reflexão sobre a questão ou neste pais, o julgamento de valor também tornou-se uma ficção?

terça-feira, março 20, 2012

Fome essencial (guacira maciel)

Meu encantamento
e minha perplexidade
encontro
encantos
desencantos
dores e marcas
sem necessitar perdão
silêncios que superam as palavras
que dizem mais no olhar
que falam de mãos entrelaçadas
e uma ânsia do teu corpo
retida na memória das minhas células
meus cabelos esparramados
líquidos sobre almofadas
e essa fome essencial
de ti...

sábado, março 17, 2012

A calcinha da mamãe... (guacira maciel)

Outro dos sublimes, embora constrangedor, momentos que passei como mãe, refere-se a um fato ocorrido quando minha filhota, Renata, tinha uns três aninhos.


Ela, eu e meu ex-marido (pai dos meus dois filhos) fomos à missa das 18.00h do domingo, na Igreja da Piedade, em Salvador. Chegamos cedo com intenção de encontrar lugar para sentar, o que talvez tenha sido um erro, pois era muito cedo ainda e as pessoas demoravam a chegar, principalmente o ator principal: o padre. O tempo parecia não passar e Renata começou a dar mostras de irritação devido ao calor, o perfume das flores e das pessoas, enfim todo o ambiete. Nessas ocasiões, como toda experiente mãe, levava sua boneca preferida para distraí-la numa emergência, mas naquele contexto minha brilhante ideia não surtiu muito efeito.


Aquilo estava quase me levando ao desespero, quando, finalmente, o padre apareceu, dando início à tão esperada cerimônia. Tudo parecia ocorrer quase normal; eu, rezava mais para que tudo terminasse logo do que para ter minhas demandas atendidas pelo Pai, por causa do cansaço que ela dava mostras de estar sentindo. O pai dela, que sempre tivera pouca paciência, me culpava pela infeliz ideia de ter levado uma criança tão pequena para "exibir, num local tão pouco apropriado". Mas, enfim, levantou-se e foi procurar alguma coisa que a distraisse, trazendo um saquinho de pipoca, que conseguiu fazer isso por algum tempo. Porém, logo começou a chorar e eu tentei acalmá-la chamando sua atençao para a desprezada boneca. Nesse ponto, ela parou de chorar, levantando a roupinha da pobre e, numa altura que me pareceu bem maior do que realmente deve ter sido, falou:


_ Olha, mamãe, a calcinha dela é igual à sua..
E me olhou com um sorriso luminoso. Eu torci para que o chão abrisse e me engolisse, ao perceber os disfarçados sorrisos das pessoas mais próximas, e quanto mais eu baixava a roupinha da inocente boneca, mais ela ria, parecendo perceber o meu constrangimento e repetia:


_ Nâo é, mamãe, igual à sua calcinha? Olha, mamãe, olha...

segunda-feira, março 12, 2012

Procissão das almas (guacira maciel)

Tendo decidido ser feliz com Carlos, Marta foi viver naquela região de cultura tão diferente e inimaginável na sua concepção de moça criada na sociedade da capital, que sempre viveu entre a ancestral fazenda de cana-de-açúcar da família, antigo Engenho dos seus avós, e o luxuoso palacete de três andares, situado na região elegante da cidade, onde viviam todos os ricos e bem sucedidos, de família tradicional como a sua, ou emergentes...
Aquele amor quase impossível de ser vivido nesse ambiente, por absoluta proibição da família dela, encontrou outra forma de realizar-se. Fugiram para a Chapada e, depois de cumpridas todas as exigências necessárias à formalização do casamento, primeiro no civil e depois no religioso, por falta de padre – uma imposição do velho avô de Carlos – deram início à sua vida juntos. Passados os felizes primeiros meses, ela começou a sentir a angústia causada pelas profundas diferenças que se lhe impunham para continuar ali e constituir a família que sempre sonhara. Diferenças que lhe causavam enormes sofrimentos pelas dificuldades de conviver com aquele cotidiano.
As crenças no sobrenatural faziam parte da forma de viver daquelas pessoas, ou melhor, eram parte da cultura da região, e os episódios, os famosos “causos”, de qualquer natureza, eram referidos nas conversas com a maior naturalidade, não sem certos receios por parte dos mais supersticiosos, como uma experiência corriqueira. Assim, estava na época da “procissão das almas”, uma espécie de homenagem que acontece na Quaresma, em que os participantes cobrem-se com lençóis brancos e saem pelas ruas cantando e orando pelas almas, e Marta morria de medos dessas coisas, talvez por ter sido criada em meio às histórias contadas na fazenda pelas descendentes de escravos, que ainda alcançou vivendo por lá.
Carlos, apesar de ser um marido extremamente carinhoso e amar muito sua mulher, ainda conservava certos hábitos da época de solteiro, como aquele de sair para jogar de vez em quando com os amigos e primos. Dessa vez, Marta reclamara, mas ele prometera chegar cedo. Entretanto, já passava das onze horas e ele não aparecera; as crianças dormiam e ela, sentindo-se sozinha, começou a ter medo daquele silêncio...
---Meu Deus! Toda a cidade já dorme e Carlos não aparece!...
Então, o medo a fez abrir as janelas da sala e ficar olhando para ver se aparecia alguém que pudesse ir chamá-lo. De repente, quando deu por si, estava junto dela um senhor magro, vestido em elegantíssimo terno de diagonal, o que era comum aos ricos e por isso ela não estranhou...e disse-lhe:
---Marta, é perigoso você ficar aqui sozinha a esta hora; feche as janelas e vá dormir, porque Armando – primo de seu marido - me pediu para lhe dizer que ele já está vindo pra casa e que você não se preocupe, porque ele guardou o dinheiro que Carlos tinha no bolso.


Era hábito ele andar com muito dinheiro e financiar a farra, pagando para todos os amigos... Ela, então, sentindo muita tranquilidade com as palavras daquele senhor, agradeceu e fechou as janelas, indo descansar.
Na manhã seguinte, acordou cedinho para receber o pão e o leite das mãos do entregador e, tendo avistado Armando, chamou-o.
--Armando, muito obrigada por ter mandado aquele recado ontem, eu estava desesperada de medo esperando Carlos, que havia prometido chegar cedo...
---Recado? Não, eu não enviei recado algum pra você. De fato, eu guardei o dinheiro dele, mas não disse nada a ninguém. Como era a pessoa que falou com você?
Ela descreveu o senhor, e Armando disse, com os olhos arregalados:
-- Mulher!! Esse que você descreveu era um tio avô de Carlos e ele já morreu faz tempo!...
__ O quê?! Armando, você está me dizendo que eu falei com alguém que já morreu?? Meu Deus! Só me faltava esta nessa terra! Eu quero ir embora daqui!...vou enlouquecer...
E entrou em casa trêmula e aos prantos pra dizer ao marido, que dormia placidamente, que queria ir embora daquela lugar...


Bem... pelo menos, quando sozinha em casa à noite, ela jamais voltou a abrir as janelas.

quinta-feira, março 08, 2012

Penhoar de seda (guacira maciel)

Sou feliz por ser mulher, não em ser lembrada uma vez por ano, por todas as possibilidades e o prazer de estar viva que essa condição me oferece.


Quero homenagear a todas nós, contando um episódio da vida de uma guerreira...


A Chapada Diamantina, exaustivamente referida no meu trabalho, é uma região de muitos encantos, incluindo uma rica e diversa cultura, que incorpora fortíssima crença no seu imaginário sobrenatural, recheado dos famosos “causos”. O que vou relatar aqui foi contado por meu pai, que jurou de pés juntos ter sido a “mais pura verdade”. Minha mãe, dessa vez não questionou, por ter tido, ela mesma, uma experiência semelhante naquela região, onde “filho chora e mãe não ouve”.
Meu pai tinha certo e questionável prazer, para os padrões da Psicologia de hoje, em nos fazer, a nós seus seis filhos, quase morrer de medo com suas histórias horripilantes que nos levavam a gritar, agarrados uns aos outros, com os olhos quase fora dos seus limites orbitais, ao ouvi-las, embora aqueles momentos nos dessem também certo prazer em sua morbidez.
Por ser um importante exportador de diamantes, dos seus próprios garimpos naquela região, meu avô adquirira certos hábitos apenas facultados aos apaniguados da fortuna, arrancada da vida e da rocha à força de muito e duro trabalho seu e dos lavradores nas minas, pois no início sua vida foi de muitas privações, já que seu objetivo teria que ser alcançado: ficaria rico. Um desses novos hábitos era ser recebido por sua mulher, minha avó, quando retornava de uma das suas cansativas viagens de negócio, usando um elegante penhoar de puríssima seda importada especialmente para ela, como agora era de hábito, uma vez que viviam em meio ao luxo, com acesso a todos ao artigos, como de vestuário, bebidas, peles, alimentação, móveis (ela ganhara um piano de cauda vindo da Alemanha, pois tocava o instrumento muitíssimo bem, depois de ter aprendido a fazer isso com aulas particulares ministradas por uma professora estrangeira que chegara à região).
Pois... essas peças de seda eram caprichosa e carinhosamente costurados pela própria esposa, que também possuía uma belíssima máquina de costura...importada!...Certa feita, tendo ficado ocupada com os preparativos para esperar a volta do marido, ela não tivera tempo suficiente para concluir a dita indumentária e assim, já pela madrugada, cansadíssima, colocou-o por sobre a máquina ainda aberta, com intenção de terminá-lo na manhã seguinte, bem cedinho...
Não foi assim, que dormiu mais que o previsto e perdeu a hora, tendo acordado lá pelas tantas, apavorada com a perspectiva de não satisfazer um dos poucos caprichos do marido a seu respeito.
----Pronto! Meu Deus!...e agora?
Olhou o delicado relógio de pulso, todinho cravejado de pequenos brilhantes, lapidados especialmente...
---- Tá quase na hora dele chegar...
Levantou-se tropegamente e correu para a sala de costura, onde, para seu pavor, o penhoar estava no mesmo lugar em que deixara, só que... todinho costurado e pronto para ser usado.
Tentou pegar a bela peça, mas sentindo um tremendo frio seguido de um “arrepio que lhe desceu da nuca até os pés”, largou-a caída ao chão, saindo em disparada daquele lugar.
---- Não pode ser! Quem custurô meu robe, se eu tava sozinha? A casa ainda tá toda fechada...
Quando a doméstica que cuidava da casa chegou, viu-a transida, com o pavor estampado nos olhos, e perguntou:
---- Dona Honória, o que acunteceu cum a sinhora?
Ela então contou o acontecido, e a moça respondeu sem tergiversar:
--- Dona Honória, intão a sinhora num vê qui foi um fantasma que custurô seu robe?
--- O quêêê?
E saíram as duas em louca disparada para fora daquela sala, disputando quem passava primeiro pela porta estreita, só parando no quintal, tendo o penhoar de seda ficado esquecido e abandonado ao chão...

domingo, março 04, 2012

Apaziguar...(guacira maciel)

Era chegado o ocaso, que subitamente percebi através da janela, debuxado sobre um céu acinzentado, cuja monotonia foi quebrada por pequenas nuvens de algodão e fragmentos de gaze já usados pelas cores do dia que se esvaia suavemente, debruado por singela barra róseo lilás. Aos poucos tudo se tornava silenciosamente uniforme...já não mais tons do diverso verdejados, já não mais pássaros coloridos nem córregos languidamente escorridos sobre as pedras; aventuravam-se timidamente pássaros noturnos; cactos e dendezeiros ainda nele se recortavam. A paisagem emudeceu integrada e conivente com o Universo. A vida se apazigua e silencia... Não houve agonia do sol no parto da noite. Não mais necessidade de pensar, fez-se noite no sertão e em mim também.