Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, fevereiro 23, 2012

A Chapada Diamantina (guacira maciel)

A Chapada Diamantina localizada na Serra do Sincorá, estado da Bahia, é uma belíssima e mágica região de montanha geologicamente muito antiga e de luxuriante natureza, com fantásticas formações rochosas, magníficas cachoeiras, lagoas subterrâneas e cavernas com infindáveis labirintos de túneis e salões enormes e inexplorados, que despertam a curiosidade dos cientistas e turistas em todo o mundo; por todos esses atributos abriga muitas sociedades alternativas, templos, etc. Jamais poderei esquecer um banho de rio que tomei, a uma temperatura surpreendentemente não muito baixa, embora estivéssemos no inverno, em uma banheira de pedra cor de rosa, meu Deus! Também possui “canyons” de estonteantes altitudes que atraem multidões de aficcionados dos esportes radicais. Seu clima, tendendo para frio, alcança temperaturas que no inverno variam entre 7° e 10° centígrados. Possui uma cultura extremamente peculiar, bem diferente das outras regiões do estado, e uma história bastante rica, além de uma culinária especial.
No início do século XX, por ocasião da corrida do ouro e depois do diamante, aquela serra foi quase toda esburacada, em consequência da ganância e da exploração desordenada, tendo sua produção de diamante - que é o cenário do meu livro "Cruz do meu Rosário", em fase de conclusão, - toda exportada para a Europa e o mundo. Essa riqueza trouxe o apogeu econômico e social, e os proprietários dos garimpos e suas famílias viviam no fausto. As mulheres das famílias mais abastadas, como a minha própria avó, usavam peles e se cobriam de joias; tudo era importado diretamente; da seda do penhoar (até escrevi um conto, "Penhoar de seda", sobre o assunto) ao chapeu do Panamá dos seus maridos, passando pela casimira inglesa e o champanhe francês...
Para se ter uma idéia, Igatu (considerada uma cidade “sagrada” toda construída em pedra pelos escravos) era uma das cidades mais ricas, em alguns lugares, os habitantes chegavam ao cúmulo de derramar pó de ouro sobre as pessoas durante a procissão do Imperador do Divino, um dos pontos altos dos festejos da região, que mistura cultura religiosa e cultura popular.
Aquela riqueza toda, aliada à ganância terminou por instalar a barbárie; como consequência, naquela região o convívio com facínoras era encarado com naturalidade, pois precisavam estar presentes nos momentos importantes – fosse batizado, casamento ou enterro de alguém, talvez até, para terem certeza de que o defunto estava morto mesmo e seria assunto enterrado - assim como festa de qualquer natureza, para fazer a segurança dos chefes, cuja vida pouco valeria se alguém resolvesse tirá-la por simples birra, ou um olhar mal interpretado. Nos bailes eles podiam, “descaradamente”, dizia Marta (Cruz do meu Rosário), pedir licença para dançar com as senhoras presentes, ignorando a opinião dos maridos e ninguém dizia nada, pois assim como guardavam suas vidas podiam também tirá-las caso assim entendessem.
Em consequência da ausência da lei para punir os crimes cometidos e a necessidade de verdadeiros exércitos para segurança dos donos de garimpos, ocorreu um verdadeiro êxodo de criminosos para aquela região, principalmente bandidos foragidos da justiça dos quatro cantos, que eram imediatamente contratados pelos ricos proprietários para fazer a segurança da família e dos garimpos – os famosos jagunços -; quanto mais crueis, mais valor lhes era conferido e mais ousadia tinham, uma vez que aquela se tornara uma terra sem lei, onde se matava por qualquer motivo banal, mas, principalmente por roubo de diamante. Ali uma pessoa podia acordar pobre e dormir milionária, ou também ser encontrada morta no dia seguinte sem que o fato causasse espanto, nem trouxesse a menor consequência.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Afinal chegou a quarta feira de cinzas...(guacira)

e a vida começa a voltar à sua normalidade, se é possível que se diga assim...se não vivêssemos com tantas anormalidades no nosso cotidiano: brutalidade, insensibilidade, desrespeito e todas as outras formas, e mais graves, de violência sob todos os aspectos e extensivas a todos, principalmente aos mais vulneráveis, como as crianças.

O Carnaval acabou, embora em meio a tanta violência e suas consequências em Sâo Paulo, por causa daquilo por que tantas pessoas lutaram durante todo o ano...ver as escolas de samba brilharem no asfalto...

Eu fui a um paraiso. Passei dias maravilhosos, cheios de sol, paz, silêncio e junto de pessoas bacanas também. A casa onde me hospedei fica dentro de um coqueiral e as janelas e porta envidraçadas do meu quarto, bem em frente ao mar, me faziam dormir embalada pelo barulho gostoso das ondas e do vento cantando no telhado acima da minha cabeça, embora deva confessar que, na primeira noite, por mais paradoxal que possa parecer, aquele silêncio me assustou um pouco...será, pensei, que estou viva? rss...Pois é, a loucura do dia a dia nos deixa assim.


Mas estou de volta e ontem, ao deitar na minha caminha gostosa, senti o aconchego da minha casa...isso também é muito bom.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Bem, é Carnaval... (guacira)

Embora esteja um pouco atrasada nas postagens - e peço desculpas -, não deixei de pensar, de escrever, mas...é Carnaval...

Ainda que, pessoalmente, não tenha participação ativa - essa festa me interessa mais pelo reconhecimento de que é uma importante manifestação cultural que agrega posturas, comportamentos (positivos e negativos) e o pensar contemporâneo, além de valorizar como referência os antigos carnavais - vou aproveitar muito bem o pequeno recesso para descansar num paraiso...Eu disse um paraiso e não no paraiso...rss Sei que vou conhecê-lo um dia, mas ainda entendo que seja cedo. Uma praia linda, onde pretendo descansar, conversar, ler, tomar sol, banhos de mar ( não necessariamente nesta ordem), e o que vier de bom.

Depois eu conto...

Agora, "deixa a festa acabar, deixa o barco correr..."

Desejo àqueles que vão se esbaldar na folia, que o façam com parcimônia e em paz.

Até depois do Carnaval...

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Conhecimento X Ciência (guacira maciel)

Existem nuances do conhecimento que a ciência não explica, ou seja, não há como determinar que só seja ciência o que a razão e o método explicam - mesmo porque os outros caminhos também têm sua lógica, sua filosofia e suas ‘razões’ - é imprescindível dialogar com a subjetividade e suas possibilidades; com os caminhos que só o são depois da passagem do viajante; aqueles que margeiam as ‘autopistas’, que acontecem de forma natural, enriquecidos de estudos autodidatas; além da própria dimensão filosófica, porque somos os sujeitos da história antes de tudo e essa se constitui uma condição primeira, uma condição antecedente, uma vez que temos experiências humanas comprováveis.
Sinto muita insatisfação, uma inquietude muito forte quando percebo o encaminhamento dessas questões com um determinismo que encerra a condição humana de extrapolar os cânones, as bitolas acadêmicas e o cientificismo, muitas vezes bastante estreitos, porque a vida é um arcabouço a ser preenchido quando percorridos os possíveis caminhos, e os sujeitos em suas vivências têm formas diferentes de caminhar, inclusive, porque uma minoria não é dona da verdade e não pode ditar regras para todos, nem encerrar o saber entre grades, se a cada segundo, mais e mais formas diferentes se nos apresentam como possibilidade e se vão incorporando às identidades humanas, cuja porta deverá permanecer sempre entreaberta.
Nós, professores, precisamos nos desencaminhar; como viajantes, precisamos observar o traçado dos cruzamentos, ou das encruzilhadas como outras possíveis formas, criando elas mesmas uma nova retórica, sem essa institucionalização dos sistemas, que emperra, que endurece, que constrói grilhões, restabelecendo o diálogo com uma ciência que no passado já percorreu um caminho único. É preciso lembrar que a (re)organização do cosmo partiu da sua própria desintegração; do caos. Então, propostas de políticas para uma educação que faça sentido, que tenha significado para a juventude só poderá ocorrer se percebermos a necessidade e tivermos a coragem e a força interior de desconstruir, de fazer ruir esse amontoado de propostas, e programas paliativos, sem consciência, compensatórios, emergenciais e inconsistentes, porque pouco profundos e filhos da falta de reflexão e da vaidade de egos delirantes e inflados.
No pensamento de Jacques Derrida¹, ícone da teoria da abordagem pós modernista, na Teoria das Organizações (TO), uma desconstrução que se fundamente no modo de construção original, pode revelar significados ocultos, ou seja, possibilitar a construção de uma outra verdade/interpretação (ainda que temporária) que encaminhe para a pluralidade de discursos, e conseqüente disseminação dessa verdade. Este é o princípio da decomposição; da fatoração matemática (lembram?).
A institucionalização, ou racionalidade com que impregnamos os instrumentos/sistemas, levam ao “aprisionamento das ações sociais, acabando por se refletir na concepção de justiça”.


O que me fez lembrar Cecília Meireles...

“Renova-te
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos para verem mais”.



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