Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, janeiro 13, 2012

Rua Chile (guacira maciel)

Ponto de encontro obrigatório das elites econômicas, políticas, sociais e intelectuais da Bahia, essa rua merece, por certo, espaço especial aqui, não só por ter sido palco onde foram tomadas importantes decisões para a vida do estado e do país, como também por ter sido ribalta de boa parte da vida dos protagonistas de uma história de amor que está sendo contada no meu próximo livro, sobre o qual já postei aqui alguns fragmentos, cujo título é “Cruz do meu Rosário; um amor na Chapada”. Ali, nos cassinos e “castelos”, meu irreverente personagem perdeu boa parte das duas fortunas que herdara.
Inaugurada em julho de 1902, pelo então governador José Joaquim de Seabra, a Rua Chile, antes chamada Rua Direita do Palácio, por causa da proximidade do Palácio Rio Branco, antiga sede do governo do estado, onde tudo acontecia, tinha sua iluminação feita a gás e calçadas de piso vitrificado, até pouco tempo visível em frente à Farmácia Chile. Era o “point” político por causa da vizinhança das sedes do governo municipal e estadual, assim como dos consultórios médico-odontológicos da sociedade; repartições públicas; Confeitaria Chile e Café das Meninas, onde se davam os outros “encontros”.
Entre seus frequentadores assíduos encontrava-se Carlos Chiaccio, que além de médico, era uma das mais importantes figuras do movimento artístico da Bahia, tendo, inclusive, sido o fundador da Ala das Letras e Artes, cuja sede se localizava sobre o Café das Meninas. Pode-se perceber o grande envolvimento das mulheres que não eram incluídas na sociedade entendida como de elite, com a vida cultural e política do país, uma vez que muitas confidências eram feitas e outros tantos aconselhamentos...
Dentre as presenças femininas nas rodas intelectuais (e não das futilidades), duas foram consideradas revolucionárias: Yvone Mangabeira, artista -tocava harpa- (e precursora do uso de pulseirinha na perna). A outra, Nilda Spencer, era atriz e irmã do jornalista Nilson de Oliva César, o Pixoxó. Segundo o jornalista, poeta e advogado, Jehová de Carvalho, a “baianidade era mais cultural; a conduta da cidade era mais vinculada à Europa. Veja que cardápio era menu e que com todo o calor, se usava terno de casemira, chapéu e gravata” (fundamental...o clima era muito mais ameno e ainda estávamos consolidando uma cultura com a cara brasileira e baiana).
A Rua Chile foi um espaço de decisões políticas e formação de movimentos culturais, mas também ditou moda e comercializou todos os apetrechos de luxo, necessários à confecção de vestidos e ternos, luvas e chapéus. Na casa de chá, situada na Loja Duas Américas, era obrigatória a presença das elegantes que não tinham muitas opções de lazer, e queriam ver e serem vistas. Lá, as orquestras se apresentavam em primeira mão. A velha Confeitaria Chile, fechada na década de 50, fundada por Felício Daminco, um italiano que aqui chegou como sapateiro, tinha por atração a primeira e maior orquestra da Bahia, a Jaze Jonas (leia-se Jazz), que ali começou sua carreira; um dos seus mais assíduos freqüentadores virou personagem de livro de Jorge Amado, era Euvaldo Pires de Albuquerque, o Vadinho, de Dona Flor e seus dois Maridos.
Aliás, essa rua teve outras figuras folclóricas, como Nair, a Mulher de Roxo (Florinda Grandwzester) que, segundo os mais antigos, era frequentadora assídua dos chás de fim de tarde da Confeitaria Chile; vestia-se bem e era uma das mulheres mais cortejadas por seu charme e beleza. Dizem que por causa de um noivado mal sucedido, terminou perambulando por essa rua, vestida de roxo ou branco, o rosto exageradamente pintado e pedindo esmolas. Ainda posso lembrar de como fazia isso: “menina bonita, me dá um dinheirinho aí...”
O ponto mais fervilhante da rua, era o trecho compreendido entre a Livraria Civilização Brasileira e o Hotel Meridional. O proprietário da livraria era Dermeval Chaves e tudo que acontecia na cidade repercutia nessa casa frequentada por expoentes das letras e artes, como Edgar Mata Pinto de Carvalho, presidente da Academia de Letras, e Walter da Silveira, pioneiro nos estudos sobre cinema na Bahia. O Jornal A Tarde funcionava no prédio da Praça Castro Alves, ali pertinho, e seus jornalistas circulavam pela Rua Chile, reunindo-se com seus pares do Diário de Notícias, assim como o pessoal do Jornal da Bahia, que funcionava na Barroquinha, tendo no seu primeiro quadro de profissionais, o famoso cineasta Glauber Rocha.
Também grandes “castelos” fizeram parte da sua história; um dos mais conhecidos, o de Dionísia, ficava estrategicamente ao lado do Café das Meninas, além de outro que ficava ao lado de um restaurante na Rua Pau da Bandeira. Suas mulheres tinham assistência médica e atendiam homens importantes, com hora marcada; o “estabelecimento” de Arlete também ficou marcado e foi ali que o cineasta Glauber Rocha idealizou muitos dos seus filmes.
O cinema também se constituiu um elo profundo entre a vida do irreverente personagem do livro e a famosa Rua Chile. Aficcionado da sétima arte, tocador de piano (de ouvido), pé de valsa e grande assobiador, sentia necessidade de vir da Chapada para a capital com frequência quase mensal, para assistir a todos os filmes, e a “via sacra” começava nas matinais de qualquer dia, passando por todas as salas, incansável, até a última sessão, que era a da meia-noite. Quando tinha filhos pequenos, trazia-os junto com suas tralhas e babás, pois sua amada não perderia uma oportunidade daquelas para fazer todas as luxuosas compras na Casa Sloper; capricho que ele satisfazia encantado, porque assim ela o deixava livre para se dedicar à sua segunda paixão, o cinema.
Hospedavam-se todos num dos dois melhores hotéis da época, que se localiza na própria Rua Chile: o Meridional; o outro era o Pálace, seu preferido, e também dos possuidores das grandes fortunas e das personalidades, por ser o mais luxuoso da cidade e onde funcionava, ainda, um belo cassino.
Como o dinheiro nunca se constituiu problema para nosso artista, nessas ocasiões detonava verdadeiras fortunas com a viagem; “carro de aluguel” (ainda não existiam táxis), contratado para servir à família por todo o tempo em que permanecessem na capital; entretenimento para as crianças e mais, quantias significativas que dava à mulher para comprar todas as novidades chegadas da Europa (incluindo-se as peles, por causa do frio da Chapada, onde se vivia com luxo), obtendo, assim, sua cumplicidade sem reclamações, quando desaparecia na penumbra dos cinemas, sem dar qualquer notícia até o término da última sessão.
Aí, chegava exausto e feliz, com a perspectiva de repetir a dose no dia seguinte, sabendo que a mulher e as crianças também estariam felizes por verem satisfeitos seus menores desejos: as crianças, ganho todas as novidades em brinquedos importados e terem ido aos espaços infantis disponíveis à época e sua mãe, ah!... Sua mãe por ter-se deleitado ao devorar os finos doces das casas de chá, que lhe lembravam seu tempo de moça de sociedade, assim como todo o estoque de vestidos, “lingerie” e cosméticos de Helena Rubnstein, importados pela loja feminina mais chic da época, cujo endereço era na própria Rua Chile.
Quando todos estavam saciados: as crianças enjoadas da vida em hotel, das roupas que as deixavam pouco à vontade, da falta de espaço pra correr e brincar com os amigos; sua mãe cansada de consumir com voracidade as quinquilharias de altos preços; ele porque já não tinha filme para assistir e porque já havia deixado nos panos verdes dos cassinos, pequenas fortunas. Era hora de voltar para casa, na Chapada, onde a vida também lhe corria mansa.

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