Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, janeiro 29, 2012

Rendilhando (guacira maciel)

Busco o passo a passo do sentido dos mil sentidos, da aparente perfeição do corte da pedra que sou. Ao olhar atentamente percebo arestas indefinidas, vãs, frágeis, imperfeitas. Tento inutilmente submeter paixões, sentimentos, impulsos, meus desejos... impossível. A alma se prepara para esculpir a pedra, mas se debate em desvãos desconhecidos. Inconformada, passo, então, a existir nas entrelinhas, nos entre espaços, no imponderável. Nessa travessia compulsória sinto as dores das lembranças rendilhando as minhas resistências e conferindo-lhes tonalidades irreconhecíveis...

domingo, janeiro 22, 2012

Inatingível...(guacira maciel)

Para Machado, Saramago, entre outros, ainda que com polêmica, só escreve quem lê, ou a escrita é fruto das leituras que realizamos, ou...não importa... Fui cuidar das unhas em um salão de beleza, na cidade de Senhor do Bonfim, onde fora trabalhar por uns dias e, movida pelo tedioso ambiente, peguei uma revista e comecei a ler aleatoriamente. Então, bati com os olhos em duas reportagens que, aparentemente, não tinham nenhuma relação, mas me levaram numa viagem... e comecei a escrever quase freneticamente em um pequeno pedaço de papel que encontrei sobre uma mesinha. A primeira delas dizia: “porque Gisele Bundchen é inatingível,[...] sem a arruaça venal que contaminou a Internet” ai fala de sua sofisticação, etc. etc. Eu concordei até certo ponto; no todo, a moça, esteticamente, tem uma imagem linda, é sofisticada, elegante, e quando desfila, adquire um brilho que induz a uma aparição, os cabelos esvoaçantes dão ideia de fuga, que seria uma das formas como eu poderia representar a fuga numa imagem, e tal...
Mas a outra reportagem me levou a fazer algumas reflexões sobre o inatingível, e para mim, uma pessoa que traduz a imagem do inatingível é o fantástico Maestro João Carlos Martins. Gente! que pessoa é essa? a própria encarnação do inatingível na sua fragilidade carnal, a própria encarnação da superação, da capacidade de resiliência! inclusive, ao ser inquirido pelo repórter se “dar a volta por cima dá barato?” ele, com a energia que emana da sua imagem (não o conheço pessoalmente, mas bem que gostaria...) respondeu que, “embora isso aconteça, também o leva a ficar emocionalmente mais sensível”, porque,” a cada momento de superação, a cada momento forte em minha vida começo a chorar, porque vejo que é uma conquista interior".
Esse homem é um dos pianistas brasileiros mais conhecidos, e um dos mais conceituados intérpretes de Bach ao piano, uma sensibilidade tão à flor da pele que lhe dá asas, e que poderia ser abatida por tanto sofrimento, mas que, ao contrário, o fortalece e o faz buscar outros caminhos para expressar sua Arte, quando o anterior lhe é negado pelas contingências da vida.
Um lutador, e também um exemplo de amor e respeito à vida, e compreensão do seu transcendente e importante papel no Universo; em 1965, levou um tombo brutal no futebol e as conseqüências o levaram a interromper a carreira em 1970; voltando, mesmo com os movimentos comprometidos, continuou a realizar seu magnífico trabalho, quando uma pancada na cabeça durante um assalto lhe imobilizou totalmente o movimento das mãos; não bastando, em 2002 um tumor na mão esquerda parecia ter dado o golpe de misericórdia em sua atuação, porém, não satisfeito e movido por seu espírito superior, retorna esse lutador como maestro, com uma energia, uma entrega admirável; com maior sensibilidade, se isso fosse possível...Na verdade, ele usou a batuta com uma força e uma delicadeza descomunais para orquestrar a sinfonia da própria vida, e nos dar a felicidade que poucos conseguiriam na área...Palmas para o Maestro João Carlos Martins, um homem de espírito inatingível.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Uma rosa...(guacira maciel)

Não sou apenas uma rosa
do Oriente emerge o meu mistério
anêmona divina
cupido deu-me espinhos
que me protegem a inocência
sou taça onde as almas sorvem o líquido primordial
e se embriaga o homem
guardo em mim
o segredo do sagrado
e a volúpia do profano
na rubra entrega da carne, sangue e sexo
contida em meus perfumes
endorfina que satisfaz os mil sentidos
fêmina divina
sagrado gineceu
na alquimia ancestre
se alva
símbolo da pequena obra
se rubra
tinta pelo sangue de Afrodite
gota a gota derramado sobre seu amado
sou a Pedra Filosofal.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Rua Chile (guacira maciel)

Ponto de encontro obrigatório das elites econômicas, políticas, sociais e intelectuais da Bahia, essa rua merece, por certo, espaço especial aqui, não só por ter sido palco onde foram tomadas importantes decisões para a vida do estado e do país, como também por ter sido ribalta de boa parte da vida dos protagonistas de uma história de amor que está sendo contada no meu próximo livro, sobre o qual já postei aqui alguns fragmentos, cujo título é “Cruz do meu Rosário; um amor na Chapada”. Ali, nos cassinos e “castelos”, meu irreverente personagem perdeu boa parte das duas fortunas que herdara.
Inaugurada em julho de 1902, pelo então governador José Joaquim de Seabra, a Rua Chile, antes chamada Rua Direita do Palácio, por causa da proximidade do Palácio Rio Branco, antiga sede do governo do estado, onde tudo acontecia, tinha sua iluminação feita a gás e calçadas de piso vitrificado, até pouco tempo visível em frente à Farmácia Chile. Era o “point” político por causa da vizinhança das sedes do governo municipal e estadual, assim como dos consultórios médico-odontológicos da sociedade; repartições públicas; Confeitaria Chile e Café das Meninas, onde se davam os outros “encontros”.
Entre seus frequentadores assíduos encontrava-se Carlos Chiaccio, que além de médico, era uma das mais importantes figuras do movimento artístico da Bahia, tendo, inclusive, sido o fundador da Ala das Letras e Artes, cuja sede se localizava sobre o Café das Meninas. Pode-se perceber o grande envolvimento das mulheres que não eram incluídas na sociedade entendida como de elite, com a vida cultural e política do país, uma vez que muitas confidências eram feitas e outros tantos aconselhamentos...
Dentre as presenças femininas nas rodas intelectuais (e não das futilidades), duas foram consideradas revolucionárias: Yvone Mangabeira, artista -tocava harpa- (e precursora do uso de pulseirinha na perna). A outra, Nilda Spencer, era atriz e irmã do jornalista Nilson de Oliva César, o Pixoxó. Segundo o jornalista, poeta e advogado, Jehová de Carvalho, a “baianidade era mais cultural; a conduta da cidade era mais vinculada à Europa. Veja que cardápio era menu e que com todo o calor, se usava terno de casemira, chapéu e gravata” (fundamental...o clima era muito mais ameno e ainda estávamos consolidando uma cultura com a cara brasileira e baiana).
A Rua Chile foi um espaço de decisões políticas e formação de movimentos culturais, mas também ditou moda e comercializou todos os apetrechos de luxo, necessários à confecção de vestidos e ternos, luvas e chapéus. Na casa de chá, situada na Loja Duas Américas, era obrigatória a presença das elegantes que não tinham muitas opções de lazer, e queriam ver e serem vistas. Lá, as orquestras se apresentavam em primeira mão. A velha Confeitaria Chile, fechada na década de 50, fundada por Felício Daminco, um italiano que aqui chegou como sapateiro, tinha por atração a primeira e maior orquestra da Bahia, a Jaze Jonas (leia-se Jazz), que ali começou sua carreira; um dos seus mais assíduos freqüentadores virou personagem de livro de Jorge Amado, era Euvaldo Pires de Albuquerque, o Vadinho, de Dona Flor e seus dois Maridos.
Aliás, essa rua teve outras figuras folclóricas, como Nair, a Mulher de Roxo (Florinda Grandwzester) que, segundo os mais antigos, era frequentadora assídua dos chás de fim de tarde da Confeitaria Chile; vestia-se bem e era uma das mulheres mais cortejadas por seu charme e beleza. Dizem que por causa de um noivado mal sucedido, terminou perambulando por essa rua, vestida de roxo ou branco, o rosto exageradamente pintado e pedindo esmolas. Ainda posso lembrar de como fazia isso: “menina bonita, me dá um dinheirinho aí...”
O ponto mais fervilhante da rua, era o trecho compreendido entre a Livraria Civilização Brasileira e o Hotel Meridional. O proprietário da livraria era Dermeval Chaves e tudo que acontecia na cidade repercutia nessa casa frequentada por expoentes das letras e artes, como Edgar Mata Pinto de Carvalho, presidente da Academia de Letras, e Walter da Silveira, pioneiro nos estudos sobre cinema na Bahia. O Jornal A Tarde funcionava no prédio da Praça Castro Alves, ali pertinho, e seus jornalistas circulavam pela Rua Chile, reunindo-se com seus pares do Diário de Notícias, assim como o pessoal do Jornal da Bahia, que funcionava na Barroquinha, tendo no seu primeiro quadro de profissionais, o famoso cineasta Glauber Rocha.
Também grandes “castelos” fizeram parte da sua história; um dos mais conhecidos, o de Dionísia, ficava estrategicamente ao lado do Café das Meninas, além de outro que ficava ao lado de um restaurante na Rua Pau da Bandeira. Suas mulheres tinham assistência médica e atendiam homens importantes, com hora marcada; o “estabelecimento” de Arlete também ficou marcado e foi ali que o cineasta Glauber Rocha idealizou muitos dos seus filmes.
O cinema também se constituiu um elo profundo entre a vida do irreverente personagem do livro e a famosa Rua Chile. Aficcionado da sétima arte, tocador de piano (de ouvido), pé de valsa e grande assobiador, sentia necessidade de vir da Chapada para a capital com frequência quase mensal, para assistir a todos os filmes, e a “via sacra” começava nas matinais de qualquer dia, passando por todas as salas, incansável, até a última sessão, que era a da meia-noite. Quando tinha filhos pequenos, trazia-os junto com suas tralhas e babás, pois sua amada não perderia uma oportunidade daquelas para fazer todas as luxuosas compras na Casa Sloper; capricho que ele satisfazia encantado, porque assim ela o deixava livre para se dedicar à sua segunda paixão, o cinema.
Hospedavam-se todos num dos dois melhores hotéis da época, que se localiza na própria Rua Chile: o Meridional; o outro era o Pálace, seu preferido, e também dos possuidores das grandes fortunas e das personalidades, por ser o mais luxuoso da cidade e onde funcionava, ainda, um belo cassino.
Como o dinheiro nunca se constituiu problema para nosso artista, nessas ocasiões detonava verdadeiras fortunas com a viagem; “carro de aluguel” (ainda não existiam táxis), contratado para servir à família por todo o tempo em que permanecessem na capital; entretenimento para as crianças e mais, quantias significativas que dava à mulher para comprar todas as novidades chegadas da Europa (incluindo-se as peles, por causa do frio da Chapada, onde se vivia com luxo), obtendo, assim, sua cumplicidade sem reclamações, quando desaparecia na penumbra dos cinemas, sem dar qualquer notícia até o término da última sessão.
Aí, chegava exausto e feliz, com a perspectiva de repetir a dose no dia seguinte, sabendo que a mulher e as crianças também estariam felizes por verem satisfeitos seus menores desejos: as crianças, ganho todas as novidades em brinquedos importados e terem ido aos espaços infantis disponíveis à época e sua mãe, ah!... Sua mãe por ter-se deleitado ao devorar os finos doces das casas de chá, que lhe lembravam seu tempo de moça de sociedade, assim como todo o estoque de vestidos, “lingerie” e cosméticos de Helena Rubnstein, importados pela loja feminina mais chic da época, cujo endereço era na própria Rua Chile.
Quando todos estavam saciados: as crianças enjoadas da vida em hotel, das roupas que as deixavam pouco à vontade, da falta de espaço pra correr e brincar com os amigos; sua mãe cansada de consumir com voracidade as quinquilharias de altos preços; ele porque já não tinha filme para assistir e porque já havia deixado nos panos verdes dos cassinos, pequenas fortunas. Era hora de voltar para casa, na Chapada, onde a vida também lhe corria mansa.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Veleiro...(guacira maciel)

triste
o nostálgico e colorido veleiro...
velas outrora enfunadas
pela sensualidade dos ventos
são agora farrapos
de uma nave fantasma
abandonado
afetado pelo sopro de uma brisa qualquer
ocasional e frágil
tentando resistir ao brutal embate
esvai-se na travessia
a navegar
cego
sob o céu lilás do entardecer
sem vontade
arrastado pelas correntes
rendido a quem lhe indica o caminho
e embora beirando os limites
cego às belas paisagens costeiras
vestidas de verde
e refletidas nas pequenas vagas
que dão sentido às marés...