Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, dezembro 18, 2012





                                        Incrível como me identifiquei com esta rena (rs), aliás, ela tem um sorriso parecido com o meu na foto ai ao lado...Bem, desejo um ANO realmente NOVO a todos vocês que estão sempre por aqui me prestigiando com a leitura do meus trabalhos (eu gostaria que também comentassem e me dissessem o que acharam de algum deles, mas...), sou-lhes muito grata. Que  possam deixar para trás as agruras de um ano que já está saindo... fazer novos planos e redimensionar aqueles que ainda não foram realizados; desejo que sonhem também, porque as realizações que mudaram o curso da humanidade e melhoraram a vida na terra um dia foram sonhos de "loucos", mas, principalmente, AMEM; só através do AMOR alguma coisa será possível. E continuem  buscando a PAZ; desejo ALEGRIAS, LUZ e REFLEXÃO a todos, junto à suas famílias...
Carinhosamente,
Guacira




Atenção: esta imagem foi retirada do google,' imagens free', mas se houver autoria, os créditos sarão registrados aqui. 

sábado, dezembro 15, 2012

O fio da barba (Guacira Maciel)


Eu não era uma criança diferente; sentia pelo Natal o mesmo encanto que as outras crianças. Porém, o meu maior sonho não era ganhar os presentes; eu tinha um desejo secreto: tocar na barba do Papai Noel para saber se ela era maciinha como a espuma que fazia o meu sabonete na hora do banho... Quando minha mãe começava a tirar do armário as caixas que continham os enfeites da árvore e os novelos embaraçados, por mais que ela tentasse evitar isso, de luzinhas coloridas que deixavam a casa toda com uma cara de caixa de presentes, eu começava a ficar pensativa e ansiosa. Sempre tinha esperança que naquele Natal acontecesse um milagre e eu conseguisse ficar acordada para ver a chegada daquele velhinho mágico, que só aparecia uma vez ao ano. Minha mãe adorava aquela época de festas e cuidava de todos os detalhes com a maior alegria. Apesar de nossa casa parecer estar sempre em festa, porque meus pais eram muito alegres e sempre tínhamos visitas, almoços, danças, contagem de história, filmes e coisas assim, no Natal tudo tinha um brilho diferente. E então, começava para mim a contagem regressiva. Mas certa manhã de domingo, a excitação me tirou mais cedo da cama e corri para a sala com os pés descalços e as tranças desfeitas pensando em me certificar de que a árvore já estava arrumada, quando percebi meu pai sentado tenso no sofá e minha mãe, quase pendurada sobre sua cabeça, tentando fazer alguma coisa que terminou por arrancar-lhe um __ Aiii!... abafado, com receio de nos acordar. Não dei muita importância ao inusitado da cena e continuei escondida olhando deslumbrada o brilho dos enfeites até adormecer ali mesmo e ser levada de volta à cama, acho... Quando, finalmente, chegou a esperada noite, após todas as brincadeiras e comilanças, fomos enviados às nossas camas, porque o velhino “só distribuiria os presentes se estivéssemos dormindo”. Na manhã seguite, em meio a toda a confusão para que cada um encontrasse o seu pacote (éramos seis filhos), notei um pequeno envelope branco preso àquele que tinha meu nome  e tratei de abrí-lo intrigada. Para meu espanto e decepção, lá dentro estava um fio de cabelo branco acompanhado de um bilhetinho: “Se for uma menina cuidadosa, guardará este fio da minha barba e me entregará no próximo Natal. Assinado: Papai Noel”

domingo, dezembro 09, 2012

Me deixa ser...(Guacira)

Me deixa ser...ah! me deixa ser o que sou. Me aceita assim... me permite voar o meu vôo. Me deixa ser...me deixa viver na lua, minguante, crescente até cheia, bolha de espuma na areia. Me deixa ser...me deixa ser horizonte, onde nunca se pode tocar, além da montanha ou do mar. Me deixa ser...me deixa ser do deserto, miragem, oásis, luar...

domingo, dezembro 02, 2012

Velho Chico (Guacira Maciel)

Conheci o belo Francisco
outrora audaz vigoroso                                    
hoje pra nós Velho Chico
qual um jovem ainda belo                               
mas bem menos caudaloso                              
águas claras quase azuis                                 
refletem o céu do sertão                                  
porém já não consegue tirar                                                        
o caboclo dali o pão                                          
como o Nilo seu irmão                                       
margens férteis após a cheia                            
igual útero em tenra idade                          
a semente em tempo plantada                                                  
germinava floria e dava                                                                
tanto grão que nem areia                                   
agora sangram suas entranhas
matam as suas lendas
pescam na Piracema
destroçam o habitat
e as matas ciliares
onde a fauna do velho rio
sempre teve os seus lares
o vapor no Velho Chico
já não pode navegar
e a população ribeirinha
que quando o via passar
acenava num gesto amigo
já não tem essa alegria
que a novidade trazia
pois não vão ouví-lo apitar
é preciso providência
tomada de consciência
enquanto se pode tomar
depois do Velho Chico sem água
e a nuvem que não deságua
não dá pra chorar a mágoa
e o caminho retomar...

domingo, novembro 25, 2012

Excertos do meu livro: "A importância da Arte na aprendizagem; textos ressonantes..." (Guacira)



Este trabalho seria apenas um sussurro, não fosse a ousadia de escapulir à meia-voz...  considero-o uma transgressão. Embora tenha sofrido algumas correções de curso, como faz o timoneiro, pela necessidade que me acompanha de jamais estar satisfeita e entender que a cada dia as experiências vividas se revestem de nuances novas em sua compreensão, embora o pensamento original  tenha permanecido. Aqui, decidi iniciar a partir do pensamento de Cecília Meireles:
“Renova-te. Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos para verem mais”.
 No subtítulo me refiro à ressonância, que, entre outros, significa “fenômeno físico pelo qual o ar de uma cavidade é suscetível de vibrar com frequência determinada, por influência de um corpo sonoro, produzindo reforço de vibrações”. (BUENO, 2007).
Por esta razão, digo que são textos ressonantes; a transgressão extrapola a irreverência e se reveste de um caráter de transposição de si mesma, de ultrapassagem dos próprios limites quanto à sua natureza própria, indo além e induzindo a outros universos, outras possibilidades de representação no âmbito dos signos, dos ícones, representantes de realidades múltiplas. O “reforço de vibrações” é representado por essa multiplicidade, com uma “frequência determinada”, dentro de arcabouços específicos que se configura cada universo em que transitamos, sem, entretanto, anularem-se os diálogos com as percepções que expõem outras tonalidades, que levam por outros caminhos e respectivas comprovações. O meu trabalho neste ou em qualquer outro “entre lugar” é o resultado do    enfrentamento cotidiano de problemas humanos e, consequentemente, sociais. Precisamos nos colocar na condição de viajantes e observar que a paisagem muda à medida que caminhamos, apresentando novas exigências, sendo preciso estar atentos, porque essa passagem nos acrescenta aprendizagens novas e outras formas de olhar, necessitando que mudemos a direção e a observemos sob outros ângulos. Isso ensina ao viajante, porque os outros caminhos também têm sua lógica, sua filosofia e suas ‘razões’, sendo imprescindível dialogar com a subjetividade e suas possibilidades; com os caminhos que só o são depois da passagem do viajante; aqueles que margeiam as ‘autopistas’, e acontecem de forma natural, enriquecidos a cada viagem... Somos os sujeitos da história antes de tudo e essa se constitui uma condição primeira, uma condição antecedente, uma vez que temos experiências humanas comprováveis.
Sinto muita insatisfação, muita inquietude quando percebo o encaminhamento das questões humanas com um determinismo que encerra a condição de extrapolar os cânones, as bitolas e o cientificismo, muitas vezes bastante estreitos, porque a vida é um arcabouço a ser preenchido, apenas, quando percorridos os possíveis caminhos, se os sujeitos em suas vivências têm formas diferentes de caminhar, inclusive, porque uma minoria não pode encerrar a verdade e ditar regras para todos - cujas experiências são diferenciadas -, aprisionando a vida entre grades, se a cada segundo mais e mais formas se nos apresentam como possibilidade e se vão incorporando às identidades humanas, cuja porta deverá permanecer sempre entreaberta.
 O filósofo francês Gilles Deleuze disse ser a Filosofia a Arte de criar conceitos, e que estariam ai, implícitos dois dos mais importantes deles a se considerar entre as duas: o primeiro, que a criação não está restrita ao mundo dos artistas ou profissionais de propaganda e marketinge o outro, a compreensão de que os conceitos não têm a palavra final sobre qualquer coisa; eles não têm o poder de transcender, absolutamente, as vivências humanas; e seriam formas buscadas pelo pensamento - as representações, invocando a Semiótica -, para situar as nossas experiências em determinado âmbito, assim como as relações que se estabelecem. Além destas, outras intimidades entre as duas são detectáveis: olhares diferenciados sobre a vida e certo distanciamento das suas demandas e questões para que seja possível compreendê-las, o que nos traz uma amplitude muito mais interessante, e assim, a percepção de outras realidades possíveis. No entanto, esse distanciamento não poderá significar alheamento, nem superficialidade, mas a possibilidade de mais um caminho, outra consciência de si mesmo, do mundo edas relações.
Compreende-se, dessa forma, como a perspectiva é fundamental em ambas para ampliar outras vertentes em seu aprofundamento; para entender isso será necessário exercitar esse distanciamento provisório, que trará uma compreensão mais dilatada. Elas ainda concordam quanto à desconfiança de uma verdade imutável e única, estabelecendo alicerces para outros universos...
Como dar respostas certas e definitivas a questões relativas e circunstanciais, uma vez que há tantos envolvimentos?

segunda-feira, novembro 19, 2012

A sombra do teu cílio (Guacira Maciel)

A sombra do teu cílio
pousada suavemente
na seda cinza dos teus olhos
induzem a profundos azuis

entre a eternidade
e o fugaz momento
me traz o teu sorriso
nem alegre nem triste
e me encaminha
a sonhos reclusos
plenos de promessas
nem perto nem longe
mas imprecisas

 como as brumas

Caminho de casa...(Guacira Maciel)



O caminho que percorro na volta do trabalho para casa me oferece, generosamente, um dos espetáculos mais grandiosos da Criação, que é a companhia do mar e suas ricas nuances de verdes e azuis. Tenho por hábito percorrê-lo com vagar, espiando curiosa e divertida, as evoluções das pequenas ondas que se enroscam graciosamente em inocentes empurrões como a querer passar à frente uma das outras para vir brincar à beira d’água. Ontem, com os sentidos aguçados de um perdigueiro, procurava identificar  cada cheiro que chegava até mim junto com a maresia e, subitamente, senti o mais sublime deles, o dos sargaços, que têm o cheiro da inocência da minha infância. Ah!...é este o cheiro que carrego impregnado a mim para sempre...Surpreendentemente me vi caminhando por uma estradinha estreita, ladeada por uma vegetação peculiar e quase intransponível, que brota luxuriante à beira do mar, e estava outra vez naquela praia quase deserta de Madre de Deus, quando tudo era tão puro e quase selvagem. As ondas se transformaram em montanhas de saudade; as cores brilhantes daquelas manhãs incidiram sobre meus olhos perplexos de criança...os cheiros das marés na madrugada despertaram uma avalanche de sentidos, despedaçantes como encouraçados...pequenos diamantes e pérolas piscavam para mim nas areias ignoradas pelas minhas pegadas infantis e as conchinhas  desprendidas das caudas das sereias, como vestígios de sua passagem, nelas afundavam momentaneamente. Então, afago a minha alma, segurando no peito o coração e me percebo pedaços de vida perdidos  nos vestígios das minhas próprias lágrimas...

domingo, outubro 28, 2012

Para o café...(Guacira)



Só de brincadeirinha vou fingir que te verei amanhã; vou fingir que nada mudou e que ainda estás ao alcance dos meus abraços... depois, vou planejar o meu dia tentando não pensar. Vou viver cada minuto dessas 24 horas tentando fingir que nada mudou e esperando a hora de te ver, como todos os dias, após o término das  nossas lutas diárias, há tantos anos...quantos? nem lembro mais...parece que são milhares deles; algumas encarnações... Mas houve um imprevisto, creio, e à hora de sempre tu não estavas lá. Mas ainda acho que vou dormir dentro dos teus braços, foi só um pequeno atraso...e chegarás de mansinho com cuidado para não me acordar, deitarás ao meu lado e passarás a perna esquerda sobre mim como fazes todas as noites; a tua perna pesa sobre o meu ventre e sinto vir à tona um calor que me sufoca e quase me consome, e se alastra fazendo crescer a labareda imortal que há entre nós. Mal penso em ti me sinto quase incapaz de controlar esse sentimento profano e inexplicavelmente sagrado. Sinto uma vontade quase irreprimível de te tocar, mas ressonas tão entregue e tranquilo que não consigo te acordar, e penso...penso que não tenho o direito de invadir a tua placidez quase inocente,  e me deixas presa sob tua perna esquerda como se tivesses medo que eu pudesse fugir... Durmo aconchegada ao teu lado direito como se teus braços fossem asas a me abrigar; parecemos ter apenas um unico tronco tão unidos adormecemos...Então, abro os olhos de manhã, preocupada com o horário do trabalho e não te vejo, prendendo-me com tua perna esquerda...
 Não chegaste? onde foste? deixei-te um bilhete; tu o leste? o sono me abateu antes que tivesses chegado...que pena, nem percebi o teu abraço e o aconchego do peso da tua perna...

P.S. Então, nos veremos amanhã para o cafe?

domingo, outubro 14, 2012

Salvador contraste (guacira)



Salvo a dor que gritas
por entre contornos
de entrelaçados braços fortes
de um gigante egoísta
és bela
Mont Serrat e São Marcelo
trompas
que sua baía
útero fundo e fértil
onde amniótico líquido quente
aquece e alimenta filhos inaceitos nascidos órfãos
abraçam sem saída
tua brisa secular e própria
que penetra velas como ventres
não se esvai; é começo e finalização.
cidade luz e lodo
Água de Meninos orgia bacante
de cheiros sons sorrisos medos
Pelô de torturas e turistas sub deuses
onde pisando “cabeças de nego”
consomem preciosas e nativas prendas
Salvador trilhos urbanos
mapa da fome e desabrigo
relação mestiça
sensível como ponto dolorido.







terça-feira, outubro 09, 2012

Desertos...(guacira)

Serias por acaso uma miragem?
nos desertos da distância
compulsória e infértil
a mágica alquimia
gera entre a imaginação do poeta
o vórtice espiral das tempestades de areia
e o rastro das estrelas na solitude da noite abissal
e faz surgir na seiva amina
a célula primeira da tua existência
que concebe e acaricia a tua imagem
ressurgida na trajetória das aves de arribação
sob o sol acidular
no litoral do meu pais
entre as areias brancas do Atlântico.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Esmeralda (Guacira)

  
__ Minha fia, o que ocê tá fazendo aqui nesse lugar essas hora? Vai pra casa...aqui num é lugar pra  moça como ocê.
__ Num posso. Tô percurando uns "baguio" pra comprá de comer pra nois...
__ Aqui?? Se sobra arguma coisinha de nada qui serve, eles carrega, fia.
__ Mais eu vou "dissaroiar" mais um poquinho, quem sabe num dô sorte?
__ Num sobra nada qui preste, fia! tô dizeno? eu cunheço isso aqui como a parma das minha mão...
__ Mas a sinhora num tá cum a fome qui  nem eu tô...eu e mãe...
__ Oia, eu sei o qui é fome braba...vamo lá im casa, que eu te dou arguma coisa...
__Brigada, mais num carece. E amanhã?
__ Prendi qui  o qui conta é matar a fome hoje,  no outro dia nois vê depois...  Cuma ocê se chama?
__ Ismeralda.
 __ Nome bonito... vamo qui nois cunvesa cum carma.
__ Tá bom, hoje eu vou...
Dona  Tonha levou  Esmeralda rapidamente...era importante sair logo dali...Quando chegaram em sua casa, a senhora fez a moça entrar, sentar-se à mesa e serviu-lhe um jantar caprichado.  Esmeralda não abriu a boca para outra coisa que não fosse para enfiar a colher  lotada daquela deliciosa e quente comidinha. [Meu Deus, pensou...faz quanto tempo  qui num sinto esse gostim de  comida de verdade? Nem se lembrava mais...].
De repente deu-se conta:
 [ nem olhei para essa dona tão boazinha...]
E parou, largando a colher sobre a mesa:
__ A dona me discurpe, eu fiz que  nem bicho quando vi a comida.
__ Num carece se discurpá, fia. Eu intendo, já fui qui nem ocê...
__ E foi? Mas tem essa casa boa...
__ É...eu sei quanto mi custô...
Esmeralda olhou-a intrigada; não entendeu, mas não quis perguntar, com receio de parecer curiosa; em seu meio as perguntas não eram bem vindas. Terminou de comer, levantou-se educadamente de cabeça baixa, agradeceu e saiu.
__Se cuida, fia! E se puder, vá pra bem longe daqui.
Não conseguiu dormir, pensando naquela moça. Levantou-se pela madrugada e, como de costume, foi pitar seu cachimbo acocorada à porta de casa, olhando ao longe, absorta.
[Hum, aquela minina não demora pura...é muito bonita e muito pobre].
Mal acabara de pensar nela, observou uma poeira ao longe
 [Hum... dessa vez foi mais rapidim ainda].
__Dia, Dona Tonha!
Falou Cosme, seu conhecido, com o chapéu numa das mãos.
__Dia. O que traz vosmecê aqui a essas hora?
__Cadê a moça? O Seu Hermano qué  que a sinhora leve ela lá.
__ Vô não, tô muito veia. O qui ocês qué cum ela? num chega? ela é muito nova prá ir pra Serra, sô!
__A sinhora sabe, né? Quanto mais nova mió...
A “Serra” é como se referem  simplificadamente às minas de onde se extrai , de forma quase improvisada, a esmeralda na região da Serra da Carnaíba, no Estado da Bahia, que tem as maiores reservas da preciosa pedra no Brasil. Ali, como em todos esse lugares, a prostituição de mulheres quase crianças é uma barbárie; além de riquezas, também se “extrai” a inocência, a beleza e a pureza dessas  meninas para satisfazer os instintos mais brutais, muitas vezes com a conivência de autoridades e até das próprias famílias, que vivem numa miséria tão absoluta, que entregam suas filhas em troca de comida, de uma fugaz melhora de vida, para não morrerem todos de fome. Entretanto,  em pouco tempo  essas mulheres-crianças  caem no desagrado e vão aumentar  as multidões de pequenos e magros fantasmas a perambular  sem rumo e sem esperança no entorno dos restos da garimpagem , em busca de um "dente de jegue" que lhe possa mitigar a fome por algumas horas.
Esmeralda subiu a “serra”, com os olhos cheios de esperança...
__Cumigo, vai sê diferente! Eu juro, mãe! 
__Minha fia, Deus te proteja...

__ Ei, ocê ai....o que faiz nesse lugá, essas hora? Vai pra casa, anda!
Esmaralda virou-se, os olhos baços contornados por um círculo vermelho fitaram dona Tonha tristemente.  Amarrado  ao percoço trazia um cordãozinho barato de onde pendia solitário, sem brilho e sem verdor, como a própria dona, um “dente de jegue” trocado, enganadoramente, por sua juventude e inocência.

Glossário:
bagulho (baguio) - restos de lavra, cascalho imprestável, descartável.
dessarolhar (dissaroiar) - procurar, buscar
dente de jegue - pequeno pedaço de esmeralda sem valor.

Obrigada por esta avaliação...

sábado, setembro 29, 2012

Inconstante...(Guacira)

Bem o sabes
eu não sou céu
talvez o ar
inconsistente
e só meu suspirar
dará certeza que estou aqui
presente.
Tu
o inconstante mar
que no rugir da enchente invade a areia
que te recebe sempre branda
tentando segurar a maré cheia
Em cada gota tua
estou contida
pois ao invadir os arrecifes
te evaporas em suspiros
e de saudades
me transformo em novas gotas
e me recebes de volta
em teus braços
entre gemidos...

terça-feira, setembro 25, 2012

(Sub)urbano (Guacira )

E a marginália tropical
 não esperada
 inaceita
de identidade suspeita
sem esperança nem fé?
vivendo abaixo da linha
do Equador
 da pobreza
debaixo da linha do trem
sub urbano submundo que aos olhos da superfície
causa pesar profundo
só postas expostas aos olhos e às narinas
de delicadeza ferina
sem esperança nem fé...

segunda-feira, setembro 10, 2012

Inferioridade por outorga...(guacira maciel)

Creio que não existem acasos e que tudo tem uma lógica e uma razão na mágica de existir; que na Criação nada é aleatório, e que na vida há uma previsão maior de que os acontecimentos concorram para determinado fim, excluindo-se, obviamente, as ações decorrentes em linha direta do uso do “livre arbítrio” e até mesmo, como nos refere a Física Quântica, das possibilidades do observador. Por essa razão, creio também que algumas realidades precisam ser lidas de forma menos determinística na trajetória da evolução do mundo e das pessoas, aliás, para que essa evolução possa seguir seu curso, alguns mistérios e seus desdobramentos são passíveis de análise, estando entre eles a Justiça. Me refiro à uma Justiça muito mais ampla e profunda, e fonte dessa evolução.
Há poucos dias em uma conversa entre pessoas de muito bom nível cultural e de escolaridade, alguem relatava fatos de sua vida e fez, com muita convicção – e esperando das pessoas presentes anuência e admiração por sua tese - uma colocação que me causou surpresa...esperei que alguem mais se espantasse, porém senti que fora a unica incomodada, ou com coragem para questionar esta afirmação:
__ “ ...porque, é claro, na vida, uns nascem para usar o chicote e outros para apanhar...”
 Ouvir aquilo me incomodou profundamente e, embora correndo o risco de ser destratada, ousei contestar aquela teoria:
__ Então, para você, os seres humanos são reféns de sua condição material?...
Fui olhada com alguma surpresa pelo fato de ter ousado duas vezes: ter interrompido sua retórica e contestá-lo à frente dos ouvintes. Mas continuei: essa teoria estaria afirmando a vida como uma compulsoriedade; em ultima análise, uma visão elementar e primária da mais completa impossibilidade, que se impõe e contradiz, desde os princípios da Criação, da Justiça, até o mais simples pensamento de exercício e realização de democracia e dos direitos individuais, e até da própria realidade.  Considero esse pensamento de um primitivismo científico que vem, inclusive, contradizer as mais contemporâneas e comprovadas teorias. Sabe-se hoje, que o cérebro, até pouco tempo considerado a “caixa preta” da vida, tem uma extraordinária capacidade de reorganização, regeneração e reconstrução; que os próprios neurônios, numa  extraordinária demonstração de autonomia, podem se recompor através de um fantástico processo de religamento, até pouco desconhecido e inconcebível.
Nessa perspectiva, o ser humano e toda essa, ainda desconhecida sob determinados aspectos,  capacidade, seria perda de tempo! e, em sendo assim, aqueles que nascem com menor potencial físico, social, econômico ou financeiro, não teriam o direito – inalienável – de aprender, de avançar, de evoluir, de mudar essa condição primeira...
Percebendo que não fora entendida e que meu interlocutor não tinha a mínima disposição de avançar essa discussão, e que os presentes também não queriam se envolver, calei-me. Mas fiquei me perguntando onde estaria a justiça (bem mais rasa, claro) da vida? como uma cabeça que se diz pensante, é capaz de uma teoria dessas, e baseada em quais elementos a engendraria? qual o seu merecimento para estar na atual condição social?...então, alguns povos da Africa, como nos vem mostrando os “Médicos sem Fronteira” a toda hora na TV, o povo do Haiti, entre outros, nasceram para viver e morrer nas condições sub humanas que todos sabemos, sem os  mais elementares direitos como seres humanos? e nessa trajetória, os analfabetos, os doentes, portadores de deficiências, etc...teriam que viver em sua condição inicial, sendo garantida apenas a uma minoria todos os privilegios, acessos, direitos e possibilidades, inclusive, a essa altura, se confirmando o direito à seleção de pureza genética, etc, etc....significando dizer que o Universo poderá ser sacrificado e que somos todos ratos, cobaias engaioladas e alvo da genialidade daqueles que se consideram elite?...

terça-feira, agosto 28, 2012

Por duas linhas...a menos...(Guacira)

               Duas linhas a menos ou duas polegadas a mais, o fato é que hoje uma dúvida me fez varar a madrugada acordada. A conhecida história da Miss Brasil foi, de novo, comentada num programa de TV e fiquei tentando imaginar como se teria sentido o juiz que, por ter encontrado duas polegadas a mais no glúteo da celebridade, ponto forte da exuberância de formas das brasileiras e fraco dos brasileiros, tanta decepção causou à torcida da baianinha, e quantas noites insones teria passado o infeliz algoz.
               Pois é; às duas horas da madrugada, depois de tanto ouvir essas histórias em família, estava eu a imaginar como teria sido o resto da vida desse pobre homem; tomara que já tenha morrido, coitado, e se livrado dessa penalização, porque duvido ser o purgatório ou mesmo o inferno pior do que passar pelas ruas, algo assim como o garoto de Ipanema, e ouvir:
            __ Lá vai aquele juiz miserável, que tirou a Marta Rocha do Miss Universo por duas polegadas!...
Ou então, num domingo à tarde, ao tomar chá com amigos na Confeitaria Colombo (não esqueçam que estamos falando do Rio de Janeiro da década de 50 quando ainda se passeava num domingo à tarde sem correr o risco de ser atingido por uma rajada de metralhadora, ou virar tainha num arrastão feito pelo morro Dona Marta inteiro), e na mesa ao lado ouvir alguém comentar:
         __Olha só, esse aí não é aquele juiz que desclassificou a Marta para o Miss Universo por causa de duas polegadas na..?( não se podia dizer bunda em público; era uma heresia). Aposto que tem em casa uma mulher tão seca, que mais parece uma tábua, ou não estaria aqui flertando com normalistas...
                E pensei me revirando na cama: É... pelo menos, no meu caso, se o grupo decidir que duas linhas não farão muita falta nas redações do concurso dos alunos do estado, cuja comissão estou  presidindo, não irei ouvir:
               __ Foi essa professora que me tirou a chance de ser um escritor, só porque minha redação, mesmo sendo boa, só tinha 28 e não 30 linhas, como exigiam as normas do concurso.
               Porém, o pior é que o anonimato e a partilha da culpa não me serviram de consolo, porque passei o resto da madrugada ouvindo a musiquinha, também reproduzida na reportagem: “por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás; por duas polegadas e logo nos quadris, tem dó, tem dó, seu juiz...”.



segunda-feira, agosto 20, 2012

Essência feminina...(guacira)

O ser humano tem uma natureza essencial e esta não muda; assim, a mulher, como o homem, não mudou em sua gênese, apesar de todos os avanços nos estudos que tentam compreender essa natureza.
Talvez vá causar alguma perplexidade com o que direi a seguir sobre um desses depoimentos que estão muito em moda; todo mundo repetindo o mesmo discurso para parecer inserido no mundo contemporâneo; mas não é como percebo tudo isso, e estarei sendo verdadeira, é o que preciso e o que me basta. Os sentimentos de cada pessoa devem estar coerentes com ela mesma, unicamente. Cada um tem o direito de se posicionar e mais, se sentir segundo suas necessidades íntimas, pessoais...
Vamos lá: outro dia, pela enésima vez (e depois de ouvir outras tantas...), recebi uma mensagem pela Internet, em que uma mulher (não lembro o nome, nem sei se era alguém conhecido) dizia ser muito bom viver só, e dava mil razões (dela) para a questão. Eu respondi para quem me enviou o texto (alguém que não vive só, claro!), o seguinte: amiga, eu discordo veementemente desse discurso vazio, e não sei por que, logo você, o está divulgando para tantas pessoas, se sabemos que não é o que pensa e quer, verdadeiramente; isto porque eu lhe havia dito: se é tão ruim ter alguém, ter o seu companheiro, por que não o deixa, uma vez que ele, sendo humano, não é perfeito? ela não soube argumentar, claro. Voltemos à mensagem... em seguida, dei a ela o meu depoimento por escrito sobre a questão. E repito-o quase na íntegra agora.
Eu sou mulher e creio que a mulher comum, onde me insiro, não gosta e não fica feliz  tendo que viver só, coisa nenhuma! aliás, não acredito que qualquer ser humano que não tenha vocação para monge tibetano ou eremita, pode ser feliz assim. Creio que fomos criados para a partilha, para a convivência. Por mais que seja difícil viver junto, também é gostoso... não estou dizendo aqui que o convívio diário com qualquer pessoa, mesmo da nossa família (pais, irmãos, etc) seja fácil, logo, não o será com um estranho, que tem hábitos, educação, cultura, história e necessidades diferentes. Aí veio à lembrança aquela conversa, que não é  mais  que um chavão: mas eu tenho muitos amigos... sei... porém, há que chegar, e chega, o momento em que os amigos têm que cuidar da própria vida, das suas questões e da própria solidão, se for o caso; aquele momento em que você fecha a porta atrás de si à noite, se vira para o lado e não encontra ninguém que lhe dê uma palavra...e você começa a falar sozinho ou liga a TV para ouvir uma voz humana...isso é o fim da picada, literalmente! e também não creio que a convivência tire a privacidade, isso é paranoia do mundo contemporâneo em que as pessoas não sabem e não querem e, muitas vezes, não estimulam a própria a sensibilidade para conviver com respeito ao outro; que é muito bom ter amizades coloridas, cada um na sua, etc, etc., pois, acho que para a maioria de nós, mulheres principalmente, chega o momento em que sentimos necessidade de permanência, de sentir sob os pés um terreno mais firme onde deitar raízes...a gente precisa “pertencer” a alguma coisa, estar inserida em algum contexto para poder viver bem; é natural no ser humano, não apenas para as mulheres. Apesar de belíssima flor, eu não sou uma vitória-régia, que não fixa raízes; que está sempre flutuando sem se prender em nada, sem porto. O sentimento de pertença dá conforto, segurança de não estar rolando pelas estradas do mundo sem o encontro verdadeiro...
E, por mais que essa prédica seja tão constante que virou um verdadeiro massacre repetitivo e falso, o que se vê é que todos, absolutamente todos nós nos cuidamos, nos enfeitamos para encantar a alguém; não apenas para nos sentirmos bem conosco, o que é importantíssimo; não tenho nada contra isso, muito pelo contrário. Essa é uma prática e uma necessidade recorrente em todas as culturas através dos tempos, sendo que os meios de sedução são inerentes a cada uma delas. Não fora assim, o que explicaria esse verdadeiro êxodo para as academias em busca do corpo e da performance perfeitos? o que explicaria o consumismo absurdo de todos os tipos de produtos para todos os fins? o que explicaria a mais absurda e quase irracional busca pelo prolongamento da beleza e da juventude em clínicas de rejuvenescimento? o que explicaria a proliferação dos sites de relacionamento, na tentativa de acabar com a própria solidão ou seria para satisfazer-se diante do espelho, com uma dose exagerada de sentimento narcisista e depois ir deitar-se sozinho, batendo no peito: eu sou maravilhoso e me basto a mim mesmo; estou muito feliz, fulano, um avatar, está encantado comigo... e depois devorar-se com todos os requintes antropofágicos?
Não é não...vamos ser honestos; vamos admitir que, apesar de todo esse discurso na tentativa de sublimação, de convencimento de si mesmo e do outro, e dessa busca quase desesperada por algo que se posiciona cada vez mais, fora do nosso alcance, somos  pessoas que se sentem cada vez mais sozinhas, e isso amedronta, porque percebemos que o cerco da solidão e da vida se fecha cada vez mais e nos sentimos claustrofóbicos nesse estreito. Evidentemente, não estou dizendo que devamos colocar a nossa vida, a nossa realização pessoal, as nossa buscas intimas e a nossa felicidade sob a responsabilidade do outro, ao contrário, precisamos estar tão equilibrados quanto possível, para que estar com alguém, seja bom, de fato; que o encontro seja bom, e só o será se houver sintonia, sensibilidade, do contrário, seria um fardo pesado, porque o outro já tem o seu quinhão.
Na minha análise, o que nos levou a esse estado de solidão absoluta e, por outro lado, essa busca desesperada pelo encontro, foi o nosso egoismo, a nossa intolerância, a nossa prepotência, o nosso apego à matéria, o receio das perdas materiais e essa necessidade avara e doentia de ter, de ajuntar bens e depois, sentar em cima de uma montanha de coisas feito o famigerado Tio Patinhas, e olhar para o lado sempre com receio do outro,  com receio de ser roubado por ele...
Agora me veio ao pensamento algo que li sobre “Alexandre, o Grande”: ele teria ordenado que quando morresse queria que os seus generais pegassem na alça do seu caixão, que seus bens fossem sendo deixado ao longo do caminho para sua ultima morada, e que suas mão ficassem para o lado de fora do caixão, para que as pessoas soubessem que o poder, encarnado pelos generais, não tinha nenhum valor para a eternidade, que dessa vida não se leva bens materiais e que chegamos de mão vazias e assim temos que partir.
Quem assistiu ao filme, "E ai, comeu ?", pode perceber que, no fundo, no fundo, todos ali se sentiam profundamente solitários, frustrados e infelizes com a possibilidade de perder o companheiro,o  seu amor! os homens, então... iam aos bares, em busca de "putas" e "surubas", mas não faziam NADA! Queriam, apenas, a volta daquela de quem gostavam. Gente, pelo amor de Deus!...
 Me contem outra; eu detesto solidão - e adianto que me dou muito bem comigo mesma - o que não significa dizer que não seja bom e saudável desejar ter momentos em que precise ficar só, se assim desejar; solidão é muito diferente de estar só, ficar só é muito definitivo, porque implica em compulsoriedade e não, em momentaneidade, em transitoriedade. Isso é uma falácia...não acredito que alguém fique feliz tendo que ficar só, que é muito diferente de optar por momentos consigo mesmo para reflexão, para dar-se um tempo, ler um livro, etc, etc. É isso aí...

domingo, agosto 12, 2012

Poeta AMADO (Guacira)

Peço licença...

Compus este poema quando se foi Jorge Amado, o grande poeta da prosa, com o silêncio com que uma folha se desprende do galho no outono, pousa suavemente sobre águas correntes e deixa-se levar, sem submergir...

Vai-se o poeta da prosa
sacerdote azul do candomblé
que seus tambores cala por três dias
em homenagem ao grande pai
de Gabriela
Dona Flor e Pedro Arcanjo
arrebatado por um anjo
é calado o contador
das histórias da Bahia
cai da árvore uma folha
e mais uma estrela é nascida
choram todos
Ilhéus e Itabuna
e seu amor de toda a vida
aquela
de quem há pouco o ouvimos dizer
pra mim amor se escreve com Z.

terça-feira, julho 31, 2012

Nossas histórias...(Guacira)

A minha história é contada através dos meus textos, porque eu sou ela; nós somos a nossa história; nós e os fios que usamos para construir as nossas vidas. São o que temos de nós mesmos; do que somos. Elas explicam, um pouco que seja, as posturas que adotamos diante da vida; as nossas reações diante dos fatos; dos desafios; dos sofrimentos; dos nossos medos.
   A minha vida não foi, nem é perfeita, mas entendo que tive sorte e a melhor de todas as razões; o mais importante referencial; o texto mais bonito: a história dos meus pais, transformado no fio mais consistente, que serviu de suporte à trama da minha própria vida (do meu texto): o amor.  
   Peço desculpas se sou contraditória, se inocente, ou qualquer classificação semelhante, ao seu olhar, mas aqui não cabem julgamentos; só  analisar e rever posturas diante das suas próprias vida, não da minha...
   Por certo uma bela ou feia história não deverá servir de desculpa para todas as nossas atitudes. Se, realmente, todos os filhos de criminosos também fossem criminosos, viver perderia o sentido.
   Creio na vida, no amor, nas pessoas; não somos um fato consumado; somos imperfeitos, somos incompletos, ainda bem! A vida é algo vivo, dinâmico; portanto , passível de ser modificada. Temos grande quinhão da nossa história, do nosso texto, sob a nossa responsabilidade nessa construção e podemos, sim, lançar mão de fios novos e fortes para (re) construir (tecer) sua urdidura e sobre ela (re) escrever um belo texto; um texto nosso e novo, selecionando os melhores fios antigos que pudermos.
   Preciso  e venho contando essa história, não como verdade, mas como forma para identificar raízes remotas sobre o amor, suas motivações mais íntimas e necessidades, comportamentos diante da constatação de inutilidade das nossas vontades e seu controle, desvios dos padrões em relação a outros sentimentos que o permeiam, formas diferenciadas de amor e de amar e as consequências de tudo isso.
   Vem se constituindo um debate íntimo a análise dessas contradições, para as quais não tenho nem terei respostas. Não gostaria de ser submetida a um patrulhamento por parte dos intelectuais, dos psicólogos e grandes pensadores, porque a arte não pretende comprovar verdades. Gostaria de ser lida e incitar o debate entre pessoas comuns, essas... consideradas ingênuas, que, como eu, se deixam inocular, se deixam afetar por sentimentos simples.
   Não creio existirem fórmulas para debater essas questões, porque cada um terá seu jeito próprio de amar e de pensar o amor; esse é o meu. Ao expor minha visão sobre o amor, não tenho uma finalidade prática imediatista, mas sim, estabelecer o espírito de comunhão, que, aliás, se constitui uma das funções da arte.  O meu discurso é muito mais poético, graças a Deus. Espero que as pessoas possam ler o que escrevo, porque preciso de outros olhares e referências para minhas análises; preciso continuar. Preciso que entrem na minha pele, na minha cabeça e procurem entender, não as minhas razões e questionamentos, mas as suas próprias. Sei que cada um que leia essas reflexões terá um olhar e um sentimento sobre tudo isso e depois sobre o seu próprio sentimento e assim, poderá refletir sobre a possibilidade de aceitação intima, intrínseca da diversidade dos textos e texturas, pelo exercício de percepção do diferente e possam também estabelecer elos para a comunhão.
    Escrevo  para falar do que sinto, vivo e percebo, com o objetivo de estabelecer essa comunhão, partilhando as minhas experiências, embora ao fazer isso, interprete e subjetive. Entretanto, entendendo a vida como um paradoxo, tão vulnerável, tão cheio de brechinhas, que a princípio a gente nem percebe, pode ser que um dia eu escreva ficção. Embora mesmo a ficção tenha  a sua gênese numa, pelo menos, verdade ou necessidade íntima.
   Dizem que os poetas fingem; não entendo assim. Os poetas não fingem; eles têm o dom de revelar o que está sob um véu, de torná-lo presente e passível de ser compreendido. Os poetas transcendem e transitam naturalmente em diferentes dimensões sem perceber seu tempo, representante de realidades múltiplas, errantes e simultâneas; eles transitam nas dimensões que dividem o tempo, bagunçando limites e sobrevivendo num "entre-lugar". Para o poeta o infinito é o aqui e agora, porque é agora que seu coração pulsa, que seu corpo lateja e isso transcende o tempo, fendendo suas fronteiras com a força de um azougue. “A arte é um modo extraordinário de ser real”( não sei quem disse isto).
   Numa crônica que vocês não conhecem, falei sobre a universalidade, comparando uma verdade matemática (concreta) e uma verdade subjetiva; retorno aqui e vocês poderão saber do que falei. O amor e a lógica matemática são, ambos, verdades universais; entretanto, em um poema falo de forma a que cada um que o leia, embora percebendo que falo do amor, vá fazer relações e reflexões a partir da sua verdade íntima (tenha sido bom ou ruim, como experiência) e aí, tenha a oportunidade de perceber, na diversidade, a mesma coisa universal. A matemática, acho que só posso entender de uma forma, ou não resolvo o problema - e nunca resolvi, mesmo... - sempre fui péssima nisso; por esta razão, e este é quase sempre o problema: razão – nunca consegui resolver um deles sequer, na aula de matemática. Sempre se constituíram uma tortura para mim.
   O amor, não; lançamos mão de simples atitudes, simples gestos e os transformamos em coisas significativas, em atitudes grandiosas; belas. É como se ao tecer (ou escrever um texto) com simples cordões, ou fios crús, tenhamos a capacidade de transformá-los em fios de ouro, brilhantes, cheios de luz.
Em todas os meus textos contadas aqui ou em meus livros se identifica essa possibilidade, configurando essas relações que procuro estabelecer entre tecer uma trama enquanto base - sustentação - elaborar o pensamento para construir um texto, e os sentimentos, tendo o amor como resultado elaborado, mas que poderá ser afetado por outros fios que poderão já ter pertencido ou ainda façam parte de outro texto. Também poderíamos estabelecer elos entre as próprias histórias relatadas, mas proponho isso como exercício.
   Parece que o ato de fiar, como o de criar um texto, ou sentir amor, tem algo a ver com, simplesmente, sair da realidade cotidiana e percorrer caminhos etéreos, elaborar com o imaginário. Partimos do real – fazemos parte dele, somos ele – desaparecemos, mergulhamos em outra dimensão e retornamos com o resultado: o novo texto.
   Discordam de mim? Como classificariam as histórias contadas nos poemas e outros textos? Sou ingênua? Pensam diferente de mim?

sexta-feira, julho 20, 2012

Voltando a falar de aprendizagem (Guacira)

Hoje, a minha curiosidade e minha sede me levaram a refletir um pouco sobre “Dissonância Cognitiva”, porque tenho uma constante preocupação com a aprendizagem, já que sou educadora, e consciente do baixíssimo índice de aprendizagem, de fato, nas nossas escolas, apesar de todas as propostas...
Venho insistindo em buscar caminhos que me levem a entender o envolvimento do processo cognitivo na aprendizagem escolar ( mas não apenas) e a importância que o desvendamento desse mistério tem para mim.
Assim, estava refletindo sobre os conflitos que algumas vezes me atingem pessoalmente pelo fato de ter construído modelos, como todos os seres, fruto da minha experiência de vida sob todos os aspectos (educacionais, emocionais, psicológicos, culturais, amorosos...), ao confrontá-los com experiências que não os atendem.
Durante a infância/adolescência fui tímida e um tanto bucólica, totalmente diferente de minhas irmãs, que sempre foram arrojadas (eu diria). Meus projetos de vida eram modestos...nunca pensei, por exemplo, em escrever, em publicar coisa alguma. Nesse caminho é muito comum   lembrar, com saudade, de alguns hábitos dos meus pais, como, acordar bem cedo, quando a casa ainda estava envolta na penumbra do derradeiro estágio do sono profundo, para conversar ouvindo música, tomando o primeiro cafezinho, ou sentar em cadeiras de lona postas sobre a calçada à noite para conversar, enquanto nós, crianças, brincávamos ali por perto, fazendo algazarra com inocentes brincadeiras.
Porém, ao mesmo tempo em que amo essas coisas e tenho saudades, sou uma contumaz usuária da Internet, consumidora voraz de E-books, de sites de pesquisa e coisas assim, embora tenha um estímulo constante e fortíssimo, que é escrever - já disse Machado que “o autor é um reflexo do que lê”, e Saramago: "os autores são filhos de suas leituras” - o que, segundo os estudiosos do assunto, é fundamental nos casos da “Dissonância”, ou seja, ter um estímulo que faça com que ela se suavize diluindo os conflitos. Mas será que hoje existe alguém que não os tenha?
Essa teoria foi desenvolvida por Leon Fertinger em meados do século XX, e foi descrita como uma tensão que se estabelece entre o que se pensa e acredita, e o que se faz, o que significaria dizer que os comportamentos que estão em desacordo com as nossas demandas internas nos levam a embates íntimos. Porém, uma forma de reduzir o desenvolvimento da dissonância é buscar, por exemplo,  nas informações às quais temos acesso,  uma sintonia com o que pensamos ser adequado a nós, à nossa forma de pensar, de nos relacionar com a vida; os chamados modelos; estereótipos.
Então, em relação à aprendizagem, que é o meu maior interesse na questão agora, como todos construímos “modelos mentais” relativos a todos os nossos sentimentos, ações, comportamentos, inclusive à aprendizagem, quando uma informação recém adquirida se choca com esses modelos, acontece a dissonância cognitiva entre os dois, instalando-se uma necessidade de buscar restabelecer a coerência, a harmonia, que é uma atitude (decisão, ação...) complexa, que irá variar de acordo com o grau de tensão estabelecida com o choque.
Para reduzir o desconforto que ela traz, segundo essa teoria, pode-se tentar “substituir um ou mais modelos; buscar novas informações” [ ou informações complementares] que aumentem a consonância; alterar os pesos relativos em dissonância [ estabelecer um consenso] ou a relativização da nova informação”. Diante disso, o que me estimulou a aprofundar a questão, sendo educadora/professora, foi a compreensão de que, na aprendizagem ela - a dissonância - pode se configurar um instrumento que levará o estudante a reagir diante de um conhecimento novo e assim, a aprender, porque esse choque chama a atenção estimulando a imaginação. Porém, para haver uma acomodação é fundamental que o estimulo inicial se mantenha para favorecer a continuação da aprendizagem, sendo importante entender também que o uso dessa técnica sem os devidos cuidados pode levar ao cansaço por causa da tensão que se estabelece entre as duas situações.

terça-feira, julho 17, 2012

Solstício (Guacira)

As horas passam lentamente
e te espero
porque sei que vais chegar
ainda uma vez meu coração se inquieta
e começo a ser feliz
porque sei que vais chegar
reconheço em tua voz
uma urgência que está em nós
as horas tornam-se umidas
pegajosas
e percorrem meu corpo com crueldade
nesse compasso inane revivo a poesia do primeiro encontro
a cor pálida do tempo se esvai e o dia se colore
no silêncio interior e imperturbável dessa espera
anseio pelas ondulações dos nossos corpos como as vagas da maré
que se expande sobre as areias serenas e mornas
tudo parece o roteiro de um filme de suspense
estou ali ausente
um tumulto humano me tortura a alma em solstício estrangeiro
te espero
e nem sei se vais chegar...

quarta-feira, julho 11, 2012

Pobre São José!...(Guacira)

Do lado paterno descendo de conhecida família da Chapada Diamantina. José, meu pai não ao acaso, o mais positivo referencial masculino na minha vida como mulher, foi filho único de um segundo casamento do meu avô, que adiou um pouco realização do sonho de constituir uma família, em função da determinação de tornar-se um homem rico.
Nada sei a respeito do primeiro casamento desse avô, além do fato de não ter tido filhos, seu grande sonho, como também não sei se enviuvou ou separou-se da primeira mulher. Já avançado em anos, contraiu segundas núpcias; engraçado, que quando se fala de um primeiro casamento, diz-se: fulano casou-se. Porém, quando se trata do segundo casamento em diante, diz-se: contraiu; como se fosse um vírus de moléstia contagiosa, difícil de a gente se livrar. Será que casar uma primeira vez pressupõe algo assim, como ser inoculado por esse vírus que deixa a pessoa com uma tendência a casar sempre que fica só, como se estivesse contaminado inexoravelmente?
O fato é que meus avós casaram-se e, como ele era muito prático, o fez com separação de bens, por causa da diferença de idade até porque, ela também era rica por herança. Ele queria nem que fosse um filho e sua esperança se renovou; esse era o único desejo que a fortuna que conseguira com trabalho duro, força de vontade e disciplina não foram capazes de realizar, e precisava desesperadamente da parceria daquela jovem bonita e forte, mestiça de índio com português.
Após algumas tentativas abortadas e promessa a tudo quanto foi santo a cegonha anunciou sua chegada, e fizeram as contas:
___ A criança vai nacê no mês de S.José, disse a parteira da confiança da família.
___ A criança, não! Falou zangado futuro papai. O menino macho, e ele vai sê dotô, nem qui eu tenha qui comprá a carta pra ele; dinheiro num vai faltá!
___ Home, meu marido, deixa de reclamá! Agradece a Deus eu pudê pari e vamo mas é rezá pro menino, ou menina, vingá mesmo, retrucou sua mulher. Onde já se viu tanta isigênça, ninguém é dono do destino nessa vida!
___ Ta bom mulé, fica calma, vocês vão vê o qui tô dizendo. Agora cuida de comê muito, pra ele nacê grande, porque vai vingá e sê consagrado a S.José, e enquanto nois e ele vivê, nesta casa vai se rezá o Ofício pra agradecê.
Respondeu ele.
__ E tem mais: ele vai sê Imperadô do Divino!
Pronto! Sobrou pra todo mundo, até pra mim que não prometi nada.
Essa conversa aconteceu lá pra agosto, mas ele já começou a bajular o santo a partir daí. Chamou a empregada, de anos, e disse:
___ Maria, arranja um altá bem bonito na sala dos santo só pra S.José!
Depois saiu e trouxe uma bela imagem que já pertencia à família e que chegou com grande honraria ao lugar que ocuparia por muitos e muitos anos naquela sala. E toda vez que passava em frente àquela porta dava uma piscadela pro santo, com todo respeito, morto de medo que ele decidisse não ajudá-lo. Porém, em sua placidez de pai de família, não é que S. José ajudou mesmo e a gravidez foi adiante? O danado do velho, por via das dúvidas, contratou especiais serviços do Dr. Felício, providenciando muita cachaça, porque quanto mais bêbado, melhor o médico trabalhava.
___ Dotô, quero que todo dia o sinhô vá vê minha mulé lá pras onze hora, depois de uma cachacinha, porque não quero que nada dê errado, viu?
___ Está bem, está bem, eu vou, homem! pode ficar sossegado, que sua esposa está em boas mãos.
___ Ah!... Eu acho bom mesmo; pra isso lhe pago bem e ainda lhe encho o rabo de cachaça.
Muitos anos mais tarde, o formidável rebento – meu pai –contou-nos em um dos seus momentos de “colhuda”, como diziam meus irmãos, que um dia, o doutor, que ele já alcançara muito velho, mas ainda se encharcando, estava numa roda de amigos no bar e viu um trabalhador braçal descarregando um caminhão com grande peso sobre a cabeça e disse, já bêbado:
__ Meu filho, venha cá! Não tire de uma vez esse peso da cabeça, porque você morre.
O mastodonte, junto com todos os presentes, deu uma estrondosa gargalhada e jogou todo o peso que carregava ao chão de uma só vez, caindo morto imediatamente. Foi um Deus nos acuda, e o doutor, feliz por ter sua competência comprovada mais uma vez, disse:
__ Eu avisei, eu avisei... e foi embora cambaleando.
Voltando à história de S.José, lembro-me de sempre ter ouvido dizer que meu pai e meu avô morriam de medo de não cumprirem, por algum impedimento aleatório à sua vontade, o que haviam prometido ao santo e ele resolvesse retirar sua proteção por pura vingança, e também ouvia minha mãe dizer quando se aborrecia com meu pai:
__ Este ano eu não rezo o Ofício, você vai ver!
Nossa! Era o mesmo que decretar sua sentença de morte. Ele dizia, arregalando os olhos azuis:
___ Pelo amor de Deus, mulher, não brinque com isso! Faça qualquer coisa comigo, mas rezar o Ofício é sagrado; é minha vida! E ela ria, dizendo que ia pensar no caso dele.
Na verdade, essa devoção compulsória durou toda a sua vida e parou por aí. Hoje, a imagem do santo, para mim uma maravilhosa obra de arte do século XIX, que foi doada em vida a meu filho, Fábio, primeiro neto e muito amado, protege graciosamente (nada lhe prometi) minha casa e, a julgar pelo eterno e plácido sorriso, aliviado por não mais ser pivô de contendas familiares.

quarta-feira, junho 27, 2012

IMPULSO...

A crônica IMPULSO, da minha autoria, foi publicada na Revista  Varal do Brasil (Suiça). Acessar http://www.varaldobrasil.com/  nº 16, p.67 (julho/agosto).

quarta-feira, maio 30, 2012

Sem vazio...(Guacira )

Preciso ouvir tua voz
denunciar o que te vai no peito
Preciso às vezes te encontrar
mas há muito não alcanço a tua alma
e busco em mim tua presença
e quem sou perde-se de mim
então te vestes de seda
e posso te tocar
sob a prata dos lençois  da lua em minha cama
te sinto estremcer e me perturbas
e  perco-me de mim sem vazio
já não sou eu em ti
mas tu em mim
deliras
te atordoas
repousas
e te vais pra sempre
mal chegada a  loira luz da aurora

domingo, maio 06, 2012

Enigma (guacira )

Alguma coisa em teu sorriso
alguma coisa em teu olhar
eternizada numa fotografia
inspira em meu coração
uma melodia nova
as fotografias revelam
os mais recônditos segredos
que a fugacidade do presente
não consegue aprisionar
ali a  sombra do teu cílio
derramada na seda azul dos teus olhos
induzem a insondáveis mistérios
entre a eternidade
e o efêmero momento
que perfuma o teu semblante
nem alegre nem triste
numa alquimia de mágico universo
me encaminha a sonhos reclusos
plenos de promessas
nem perto nem longe
como a chuva vista
a derramar-se no horizonte
mas imprecisos como enigmas antigos...

quinta-feira, abril 05, 2012

Direitos dos animais não humanos X Direitos Humanos

Por uma questão muito pessoal, senti necessidade de falar um pouco sobre "Ética animal" do ponto de vista dos direitos dos animais não humanos. Como o assunto é rico e polêmico, deverei precisar voltar outras vezes com ele, trazendo, inclusive, o pensamento de alguns teóricos sobra a questão, para fundamentar a minha visão sobre ela. Também voltarei a falar na sensiência, que é muito pertinente a esta discussão
.Partindo-se da proximidade entre o pensamento científico e a filosofia, gostaria de fazer algumas considerações sobre essa questão que se impõe sob novas percepções; trata-se da “ética animal” sob o mais que justo ângulo, que é o dos seus direitos. Pois é...entendendo-se todos os seres com a mesma importância para o Universo ( que não os distingue nessa perspectiva, se nos entendemos como sendo de natureza única), uma consideração sobre os direitos dos animais não humanos precisa ser mais largamente discutida.
Caramba! Outro dia falei aqui sobre as zebras e a percepção da sua beleza e perfeição tanto estética, quanto de funcionamento orgânico, tendo falhado, entretanto, quando deixei de observar sobre a sua importância e papel social naquele contexto. E me pergunto: poder-se-ia dizer que esse ser é substituível por ser menos importante que um ser humano? Certamente não, pelo fato de que cada um tem um importantíssimo papel dentro da sua natureza animal para a harmonização do Universo. Mesmo porque, estamos vendo que os seres que se dizem superiores, cada vez mais se mostram inferiores, inumanos, embora esta seja uma outra questão. Também não vou, neste momento, voltar a me referir às atitudes que os animais humanos estão tendo uns para com os outros, principalmente aqueles mais vulneráveis... Quero falar, agora, dos direitos dos animais não humanos.
O que me despertou essa vontade de expor reflexões aqui foi um filme ao qual assistí, faz poucos dias, em que o protagonista foi levado a julgamento, acusado de certo crime por ter soltado cobaias (chimpanzés) de um laboratório. Também não me deterei aqui, hoje, falando sobre os maus tratos aos quais os animais não humanos são submetidos por nós outros (animais ‘humanos’) nessas condições, com a desculpa de que a Ciência precisa realizar testes sob vários aspectos, para ajudar a vida humana. O meu foco é saber o que será feito a partir de tudo o que já sabemos sobre os direitos desses animais que submetemos às nossas vontades, ganância, à nossa vaidade, etc, etc. Será que nós, animais humanos, ocupamos, por direito inalienável e inquestionável, um lugar que nos garante privilégios na sinfonia da vida? Na sintonia e perfeição com que a natureza foi planejada para funcionar?
No plano geral cada ser ocupa o seu exato e insubstituível lugar no contexto do progresso social, não havendo hegemonia, a não ser na nossa cabeça. Não dessa forma com que nos posicionamos, com direitos irrestritos de dominação sobre as outras formas de vida do Universo.
Sabe-se que a partir do século XX, através do Grupo de Oxford, foi introduzida a discussão sobre a inclusão dos outros animais no “círculo moral humano”, tendo a defesa ética dos animais não humanos e as relações entre as espécies, sido introduzidas nas discussões, em primeira mão, por Mahatma Gandhi, que foi quem despertou Tom Regan para que se pensasse sobre os direitos animais, buscando apoio nos direitos humanos, estabelecendo analogias e fundamentando sua pertinência. Para ele, são dois os princípios dessa teoria: “valor inerente e sujeitos de uma vida”, entendendo que se deve atribuir igual “valor inerente a agentes e pacientes” por serem ambos – humanos e não humanos – “sujeitos de uma vida”. Sendo “sujeitos de uma vida” indivíduos que são capazes de possuir crenças e desejos; percepção, memória, senso de futuro, incluindo o seu próprio futuro; vida emocional marcada por sentimentos de prazer e dor; preferências e interesses de bem estar; habilidade de iniciar ações para obtenção de seus desejos e metas; identidade psicológica ao longo do tempo, e bem estar individual no sentido de que as experiências vividas conduzam a melhorar ou a piorar sua qualidade de vida, independente da sua utilidade para os outros”. Então, se o sujeito tem essas condições de vida, tem “valor inerente”, mesmo que saibamos que aos animais humanos sejam assegurados os seus direitos, independentemente dos desempenhos individuais, e de consciência desses direitos, o que ele, Regan, chama “sujeitos não paradigmáticos”, a exemplo daqueles que sofreram algum tipo de lesão neurológica que lhes tire a possibilidade de realizar a mais simples “tarefa psicofísica”, o que entendo que se possa comparar aos animais não humanos, por não terem essa consciência, que é a racionalidade, assim como “bebês e idosos senis, que têm seus direitos básicos assegurados, como proteção contra maus tratos, abandono, abusos, como também em se falando de dor e de sofrimento”. A eles são assegurados os direitos morais básicos, embora sendo seres “não paradigmáticos”; então, por que não, a alguns animais não humanos que têm condições de vida similares? Para esse autor, afastando-nos do utilitarismo,se não há exigência de habilidades especiais para que os sujeitos humanos sejam amparados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, por que as teríamos para que os animais não humanos sejam tratados com respeito? Se o que importa é o “valor inerente”, como “sujeito de uma vida”, para fundamentar o respeito aos Direitos Humanos, moralmente não é justificável excluir os animais não humanos, a não ser por uma questão puramente especista e incoerente, uma vez que, no princípio do respeito se fundamenta o princípio do dano. A vida de um animal não humano pode não importar a alguém, mas a ele, sim, considerando a variedade de “necessidades biológicas, individuais e sociais”, e sendo a sua satisfação uma fonte de prazer, dor ou sofrimento.

sexta-feira, março 23, 2012

Aborto X Direitos Humanos (guacira maciel)

A evolução da ciência nos encaminha a uma complexidade tão abrangente sobre todas as questões, que se tornou quase impossível ter certeza sobre o que quer que seja; por outro lado o debate e as discussões conceituais, como premissa, e a perda de identidade do próprio conceito, uma vez que, embora ele extrapole fronteiras semânticas e ofereça desdobramentos que podem atingir os aspectos sociais das questões, como uma produção da linguagem não parece atingir a complexidade dos sentimentos nem dos comportamentos imbuídos desses mesmos sentimentos, vindo reforçar e aprofundar o princípio da incerteza, que a própria ciência num movimento de convergência trouxe à discussão.
Em outubro de 2011 o Supremo Tribunal Federal (STF) deveria ter deliberado sobre o aborto em fetos anencéfalos (uma história que já dura sete longos anos), mas parece que a discussão teve seus rumos mudados com a compreensão dos filósofos de que este não se configura um debate “maniqueísta entre certo e errado”. Ai entra a minha indignação, porque parecem achar que a “vida humana, propriamente dita se constitui de aspectos fisiológicos e psicológicos”, e defendem a possibilidade da prática do aborto antes de o feto possuir sensiência, aliado ao fato de que dar respostas não é o objeto da Filosofia...
Bem, a destruição das certezas pode mudar quase tudo...Mas se o ser humano é considerado um ser de "alta complexidade biológica", como assegurar que o feto não possa sentir, já que a existência de certezas é tão discutida? E já que se fala da possibilidade de sensiência nas discussões sobre a ética animal (o que acho muito pertinente), como não pensar nisso quanto aos fetos humanos, que têm “alta complexidade biológica”? Como saber e estabelecer limites – uma região de trânsito, de existência negada – se um olhar além dele, “confirma a vida que o excede”?
Sensiência, dizem alguns cientistas, até os artrópodos e moluscos têm, e sabe-se que muitos dos estudos que estão nos "livros de fisiologia humana sobre mecanismos celulares e bioquímicos da aprendizagem, foram conhecidos a partir de estudos em um molusco denominado Aplysia". Sendo assim, diante de sofisticados estudos sobre aprendizagem e memória, entendem alguns que organismos bastante simples demonstraram comportamentos que revelaram sentimentos e intenções. Por exemplo, a ameba “em uma placa Petri move-se em direção a algo que lhe é benéfico”. Estou querendo elucidar que, pelo que entendi, ter sensiência em seres humanos, e não humanos – embora volte aqui mais tarde para falar sobre a “ética animal”, e os direitos dos animais -, implica em ter consciência do sofrimento.
Fique claro que não estou afirmando que moluscos e amebas – organismos simples, embora com níveis de complexidade diferentes - tenham sensiência, mas que se eles demonstraram, através de pesquisas, possuir sentimentos e intenções, por que um feto humano, sendo um organismo de “alta complexidade biológica” não possuiria sensiência? Um feto é um organismo vivo nada simples, a sua natureza desde que começa a existir é altamente complexa, logo, para além dos seres mais simples como os citados acima, eles devem ter sentimentos e intenções...Haveria alguma forma de ter certeza que não é assim, ao deliberar sobre seu direito à vida? e qual seria ela?
Sugiro um pouco mais de reflexão sobre a questão ou neste pais, o julgamento de valor também tornou-se uma ficção?

terça-feira, março 20, 2012

Fome essencial (guacira maciel)

Meu encantamento
e minha perplexidade
encontro
encantos
desencantos
dores e marcas
sem necessitar perdão
silêncios que superam as palavras
que dizem mais no olhar
que falam de mãos entrelaçadas
e uma ânsia do teu corpo
retida na memória das minhas células
meus cabelos esparramados
líquidos sobre almofadas
e essa fome essencial
de ti...

sábado, março 17, 2012

A calcinha da mamãe... (guacira maciel)

Outro dos sublimes, embora constrangedor, momentos que passei como mãe, refere-se a um fato ocorrido quando minha filhota, Renata, tinha uns três aninhos.


Ela, eu e meu ex-marido (pai dos meus dois filhos) fomos à missa das 18.00h do domingo, na Igreja da Piedade, em Salvador. Chegamos cedo com intenção de encontrar lugar para sentar, o que talvez tenha sido um erro, pois era muito cedo ainda e as pessoas demoravam a chegar, principalmente o ator principal: o padre. O tempo parecia não passar e Renata começou a dar mostras de irritação devido ao calor, o perfume das flores e das pessoas, enfim todo o ambiete. Nessas ocasiões, como toda experiente mãe, levava sua boneca preferida para distraí-la numa emergência, mas naquele contexto minha brilhante ideia não surtiu muito efeito.


Aquilo estava quase me levando ao desespero, quando, finalmente, o padre apareceu, dando início à tão esperada cerimônia. Tudo parecia ocorrer quase normal; eu, rezava mais para que tudo terminasse logo do que para ter minhas demandas atendidas pelo Pai, por causa do cansaço que ela dava mostras de estar sentindo. O pai dela, que sempre tivera pouca paciência, me culpava pela infeliz ideia de ter levado uma criança tão pequena para "exibir, num local tão pouco apropriado". Mas, enfim, levantou-se e foi procurar alguma coisa que a distraisse, trazendo um saquinho de pipoca, que conseguiu fazer isso por algum tempo. Porém, logo começou a chorar e eu tentei acalmá-la chamando sua atençao para a desprezada boneca. Nesse ponto, ela parou de chorar, levantando a roupinha da pobre e, numa altura que me pareceu bem maior do que realmente deve ter sido, falou:


_ Olha, mamãe, a calcinha dela é igual à sua..
E me olhou com um sorriso luminoso. Eu torci para que o chão abrisse e me engolisse, ao perceber os disfarçados sorrisos das pessoas mais próximas, e quanto mais eu baixava a roupinha da inocente boneca, mais ela ria, parecendo perceber o meu constrangimento e repetia:


_ Nâo é, mamãe, igual à sua calcinha? Olha, mamãe, olha...

segunda-feira, março 12, 2012

Procissão das almas (guacira maciel)

Tendo decidido ser feliz com Carlos, Marta foi viver naquela região de cultura tão diferente e inimaginável na sua concepção de moça criada na sociedade da capital, que sempre viveu entre a ancestral fazenda de cana-de-açúcar da família, antigo Engenho dos seus avós, e o luxuoso palacete de três andares, situado na região elegante da cidade, onde viviam todos os ricos e bem sucedidos, de família tradicional como a sua, ou emergentes...
Aquele amor quase impossível de ser vivido nesse ambiente, por absoluta proibição da família dela, encontrou outra forma de realizar-se. Fugiram para a Chapada e, depois de cumpridas todas as exigências necessárias à formalização do casamento, primeiro no civil e depois no religioso, por falta de padre – uma imposição do velho avô de Carlos – deram início à sua vida juntos. Passados os felizes primeiros meses, ela começou a sentir a angústia causada pelas profundas diferenças que se lhe impunham para continuar ali e constituir a família que sempre sonhara. Diferenças que lhe causavam enormes sofrimentos pelas dificuldades de conviver com aquele cotidiano.
As crenças no sobrenatural faziam parte da forma de viver daquelas pessoas, ou melhor, eram parte da cultura da região, e os episódios, os famosos “causos”, de qualquer natureza, eram referidos nas conversas com a maior naturalidade, não sem certos receios por parte dos mais supersticiosos, como uma experiência corriqueira. Assim, estava na época da “procissão das almas”, uma espécie de homenagem que acontece na Quaresma, em que os participantes cobrem-se com lençóis brancos e saem pelas ruas cantando e orando pelas almas, e Marta morria de medos dessas coisas, talvez por ter sido criada em meio às histórias contadas na fazenda pelas descendentes de escravos, que ainda alcançou vivendo por lá.
Carlos, apesar de ser um marido extremamente carinhoso e amar muito sua mulher, ainda conservava certos hábitos da época de solteiro, como aquele de sair para jogar de vez em quando com os amigos e primos. Dessa vez, Marta reclamara, mas ele prometera chegar cedo. Entretanto, já passava das onze horas e ele não aparecera; as crianças dormiam e ela, sentindo-se sozinha, começou a ter medo daquele silêncio...
---Meu Deus! Toda a cidade já dorme e Carlos não aparece!...
Então, o medo a fez abrir as janelas da sala e ficar olhando para ver se aparecia alguém que pudesse ir chamá-lo. De repente, quando deu por si, estava junto dela um senhor magro, vestido em elegantíssimo terno de diagonal, o que era comum aos ricos e por isso ela não estranhou...e disse-lhe:
---Marta, é perigoso você ficar aqui sozinha a esta hora; feche as janelas e vá dormir, porque Armando – primo de seu marido - me pediu para lhe dizer que ele já está vindo pra casa e que você não se preocupe, porque ele guardou o dinheiro que Carlos tinha no bolso.


Era hábito ele andar com muito dinheiro e financiar a farra, pagando para todos os amigos... Ela, então, sentindo muita tranquilidade com as palavras daquele senhor, agradeceu e fechou as janelas, indo descansar.
Na manhã seguinte, acordou cedinho para receber o pão e o leite das mãos do entregador e, tendo avistado Armando, chamou-o.
--Armando, muito obrigada por ter mandado aquele recado ontem, eu estava desesperada de medo esperando Carlos, que havia prometido chegar cedo...
---Recado? Não, eu não enviei recado algum pra você. De fato, eu guardei o dinheiro dele, mas não disse nada a ninguém. Como era a pessoa que falou com você?
Ela descreveu o senhor, e Armando disse, com os olhos arregalados:
-- Mulher!! Esse que você descreveu era um tio avô de Carlos e ele já morreu faz tempo!...
__ O quê?! Armando, você está me dizendo que eu falei com alguém que já morreu?? Meu Deus! Só me faltava esta nessa terra! Eu quero ir embora daqui!...vou enlouquecer...
E entrou em casa trêmula e aos prantos pra dizer ao marido, que dormia placidamente, que queria ir embora daquela lugar...


Bem... pelo menos, quando sozinha em casa à noite, ela jamais voltou a abrir as janelas.

quinta-feira, março 08, 2012

Penhoar de seda (guacira maciel)

Sou feliz por ser mulher, não em ser lembrada uma vez por ano, por todas as possibilidades e o prazer de estar viva que essa condição me oferece.


Quero homenagear a todas nós, contando um episódio da vida de uma guerreira...


A Chapada Diamantina, exaustivamente referida no meu trabalho, é uma região de muitos encantos, incluindo uma rica e diversa cultura, que incorpora fortíssima crença no seu imaginário sobrenatural, recheado dos famosos “causos”. O que vou relatar aqui foi contado por meu pai, que jurou de pés juntos ter sido a “mais pura verdade”. Minha mãe, dessa vez não questionou, por ter tido, ela mesma, uma experiência semelhante naquela região, onde “filho chora e mãe não ouve”.
Meu pai tinha certo e questionável prazer, para os padrões da Psicologia de hoje, em nos fazer, a nós seus seis filhos, quase morrer de medo com suas histórias horripilantes que nos levavam a gritar, agarrados uns aos outros, com os olhos quase fora dos seus limites orbitais, ao ouvi-las, embora aqueles momentos nos dessem também certo prazer em sua morbidez.
Por ser um importante exportador de diamantes, dos seus próprios garimpos naquela região, meu avô adquirira certos hábitos apenas facultados aos apaniguados da fortuna, arrancada da vida e da rocha à força de muito e duro trabalho seu e dos lavradores nas minas, pois no início sua vida foi de muitas privações, já que seu objetivo teria que ser alcançado: ficaria rico. Um desses novos hábitos era ser recebido por sua mulher, minha avó, quando retornava de uma das suas cansativas viagens de negócio, usando um elegante penhoar de puríssima seda importada especialmente para ela, como agora era de hábito, uma vez que viviam em meio ao luxo, com acesso a todos ao artigos, como de vestuário, bebidas, peles, alimentação, móveis (ela ganhara um piano de cauda vindo da Alemanha, pois tocava o instrumento muitíssimo bem, depois de ter aprendido a fazer isso com aulas particulares ministradas por uma professora estrangeira que chegara à região).
Pois... essas peças de seda eram caprichosa e carinhosamente costurados pela própria esposa, que também possuía uma belíssima máquina de costura...importada!...Certa feita, tendo ficado ocupada com os preparativos para esperar a volta do marido, ela não tivera tempo suficiente para concluir a dita indumentária e assim, já pela madrugada, cansadíssima, colocou-o por sobre a máquina ainda aberta, com intenção de terminá-lo na manhã seguinte, bem cedinho...
Não foi assim, que dormiu mais que o previsto e perdeu a hora, tendo acordado lá pelas tantas, apavorada com a perspectiva de não satisfazer um dos poucos caprichos do marido a seu respeito.
----Pronto! Meu Deus!...e agora?
Olhou o delicado relógio de pulso, todinho cravejado de pequenos brilhantes, lapidados especialmente...
---- Tá quase na hora dele chegar...
Levantou-se tropegamente e correu para a sala de costura, onde, para seu pavor, o penhoar estava no mesmo lugar em que deixara, só que... todinho costurado e pronto para ser usado.
Tentou pegar a bela peça, mas sentindo um tremendo frio seguido de um “arrepio que lhe desceu da nuca até os pés”, largou-a caída ao chão, saindo em disparada daquele lugar.
---- Não pode ser! Quem custurô meu robe, se eu tava sozinha? A casa ainda tá toda fechada...
Quando a doméstica que cuidava da casa chegou, viu-a transida, com o pavor estampado nos olhos, e perguntou:
---- Dona Honória, o que acunteceu cum a sinhora?
Ela então contou o acontecido, e a moça respondeu sem tergiversar:
--- Dona Honória, intão a sinhora num vê qui foi um fantasma que custurô seu robe?
--- O quêêê?
E saíram as duas em louca disparada para fora daquela sala, disputando quem passava primeiro pela porta estreita, só parando no quintal, tendo o penhoar de seda ficado esquecido e abandonado ao chão...

domingo, março 04, 2012

Apaziguar...(guacira maciel)

Era chegado o ocaso, que subitamente percebi através da janela, debuxado sobre um céu acinzentado, cuja monotonia foi quebrada por pequenas nuvens de algodão e fragmentos de gaze já usados pelas cores do dia que se esvaia suavemente, debruado por singela barra róseo lilás. Aos poucos tudo se tornava silenciosamente uniforme...já não mais tons do diverso verdejados, já não mais pássaros coloridos nem córregos languidamente escorridos sobre as pedras; aventuravam-se timidamente pássaros noturnos; cactos e dendezeiros ainda nele se recortavam. A paisagem emudeceu integrada e conivente com o Universo. A vida se apazigua e silencia... Não houve agonia do sol no parto da noite. Não mais necessidade de pensar, fez-se noite no sertão e em mim também.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

A Chapada Diamantina (guacira maciel)

A Chapada Diamantina localizada na Serra do Sincorá, estado da Bahia, é uma belíssima e mágica região de montanha geologicamente muito antiga e de luxuriante natureza, com fantásticas formações rochosas, magníficas cachoeiras, lagoas subterrâneas e cavernas com infindáveis labirintos de túneis e salões enormes e inexplorados, que despertam a curiosidade dos cientistas e turistas em todo o mundo; por todos esses atributos abriga muitas sociedades alternativas, templos, etc. Jamais poderei esquecer um banho de rio que tomei, a uma temperatura surpreendentemente não muito baixa, embora estivéssemos no inverno, em uma banheira de pedra cor de rosa, meu Deus! Também possui “canyons” de estonteantes altitudes que atraem multidões de aficcionados dos esportes radicais. Seu clima, tendendo para frio, alcança temperaturas que no inverno variam entre 7° e 10° centígrados. Possui uma cultura extremamente peculiar, bem diferente das outras regiões do estado, e uma história bastante rica, além de uma culinária especial.
No início do século XX, por ocasião da corrida do ouro e depois do diamante, aquela serra foi quase toda esburacada, em consequência da ganância e da exploração desordenada, tendo sua produção de diamante - que é o cenário do meu livro "Cruz do meu Rosário", em fase de conclusão, - toda exportada para a Europa e o mundo. Essa riqueza trouxe o apogeu econômico e social, e os proprietários dos garimpos e suas famílias viviam no fausto. As mulheres das famílias mais abastadas, como a minha própria avó, usavam peles e se cobriam de joias; tudo era importado diretamente; da seda do penhoar (até escrevi um conto, "Penhoar de seda", sobre o assunto) ao chapeu do Panamá dos seus maridos, passando pela casimira inglesa e o champanhe francês...
Para se ter uma idéia, Igatu (considerada uma cidade “sagrada” toda construída em pedra pelos escravos) era uma das cidades mais ricas, em alguns lugares, os habitantes chegavam ao cúmulo de derramar pó de ouro sobre as pessoas durante a procissão do Imperador do Divino, um dos pontos altos dos festejos da região, que mistura cultura religiosa e cultura popular.
Aquela riqueza toda, aliada à ganância terminou por instalar a barbárie; como consequência, naquela região o convívio com facínoras era encarado com naturalidade, pois precisavam estar presentes nos momentos importantes – fosse batizado, casamento ou enterro de alguém, talvez até, para terem certeza de que o defunto estava morto mesmo e seria assunto enterrado - assim como festa de qualquer natureza, para fazer a segurança dos chefes, cuja vida pouco valeria se alguém resolvesse tirá-la por simples birra, ou um olhar mal interpretado. Nos bailes eles podiam, “descaradamente”, dizia Marta (Cruz do meu Rosário), pedir licença para dançar com as senhoras presentes, ignorando a opinião dos maridos e ninguém dizia nada, pois assim como guardavam suas vidas podiam também tirá-las caso assim entendessem.
Em consequência da ausência da lei para punir os crimes cometidos e a necessidade de verdadeiros exércitos para segurança dos donos de garimpos, ocorreu um verdadeiro êxodo de criminosos para aquela região, principalmente bandidos foragidos da justiça dos quatro cantos, que eram imediatamente contratados pelos ricos proprietários para fazer a segurança da família e dos garimpos – os famosos jagunços -; quanto mais crueis, mais valor lhes era conferido e mais ousadia tinham, uma vez que aquela se tornara uma terra sem lei, onde se matava por qualquer motivo banal, mas, principalmente por roubo de diamante. Ali uma pessoa podia acordar pobre e dormir milionária, ou também ser encontrada morta no dia seguinte sem que o fato causasse espanto, nem trouxesse a menor consequência.