Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, novembro 04, 2011

Sherazade Contemporânea; introdução do cap.I Encantamento (guacira maciel)

-Vamos dançar?
Senti uma forte pressão no braço e olhei um pouco irritada para ver quem fora tão enfático. Então, me deparei com os mais belos e puros olhos azuis que jamais vira! Uma espécie de nebulosa dourada pairava sobre sua cabeça. Hipnotizada, levantei-me assentindo, o olhar submerso naquele oceano profundo onde brincavam finíssimos raios de sol, inocentemente alheios ao efeito devastador que causaram em mim.
Dançamos sem nos dar conta do ritmo que acompanhávamos. Continuamos assim, encantados, por quase toda a noite, uma das mil e umas que protagonizaríamos nessa nova dimensão. Tudo emudecera; não havia necessidade de música; o som que escutávamos estava impregnado nos acordes dos nossos corações. Também não havia mais ninguém ao nosso redor e o silêncio externo era absoluto. Em algum momento percebemos que todos nos olhavam e só então nos demos conta de que a banda fizera um pequeno intervalo. Saímos, porque entendemos que ficar ali já não fazia nenhum sentido.
Como ambos estávamos de carro, ele pediu para me acompanhar até em casa e nos despedimos com um toque de buzina. Nem nos lembramos de marcar um encontro ou anotar um número de telefone. Apenas sabíamos que nossos locais de trabalho ficavam vizinhos. Mas sabíamos que esse encontro não fora um acaso.
Dois dias depois liguei procurando-o, com a desculpa mais improvável do mundo. Dessa vez ele pediu o número do meu telefone e no dia seguinte ligou para saber se eu gostaria de almoçar com ele.


-Vamos a um restaurantezinho delicioso, onde se faz um carneiro fantástico.
-Nossa!... desculpa, mas eu detesto carneiro!
Ele achou graça e disse:
- Pelo menos é sincera e diz logo o que pensa. Mas lá também servem uma boa variedade de saladas...
O que comeríamos não tinha nenhuma importância, claro, porque o êxtase nos envolvia e a atmosfera mágica daquela noite permanecera entre nós. Só quando nos sentamos frente a frente pude ver claramente aqueles olhos tão azuis que tanto me encantaram. Conversamos bastante, mas nenhum dos dois sabia explicar o que estava acontecendo realmente. Pareceria a quem nos ouvisse, que aquele diálogo não fazia sentido algum, não tinha uma lógica compreensível. E, na verdade, nunca soubemos, porque isso sempre aconteceu enquanto estivemos juntos nos dez anos seguintes, apesar de todas as dores que esse amor me trouxe. Quando nos encontrávamos tudo se recompunha, se regeneravam os ferimentos, e o coração permanecia em paz.
Aos poucos ele foi se revelando um homem extremamente poético e doce, mesmo sendo forte, protetor, decidido. Suas mensagens de email e conversas, especialmente as conversas das madrugadas, eram maravilhosas... ele adorava que eu as usasse como referência para compor alguns dos meus poemas, a exemplo do “Poema a Quatro Mãos I”, que o deixou com lágrimas nos olhos. E como todo aquele clima me encantava!
Continuamos a nos ver diariamente; qualquer coisa era motivo para um encontro, sempre nesse clima de magia. Sentíamos uma urgência tão grande em nos ver, uma falta tão orgânica do outro, que já nos era impossível viver separados. Nossos encontros sempre eram permeados de uma carga emocional tão profunda, que às vezes ele chorava, o que lhe deixava os olhos ainda mais brilhantes e azuis, se isso fosse possível. Como ele sabia do meu amor pela dança, me convidava, até três vezes por semana e sempre era maravilhoso...Um dia ele me ligou da rua perguntando qual o número do meu pé, e disse:


-Á noite quero você com um lindo vestido, temos um programa...e chegou com a mais linda e delicada sandália de altíssimos saltos.


-Vamos jantar e inaugurar esta sandália?


Era comum ele fazer surpresas que me encantavam; quantas vezes eu estava em seminários e encontros, e ele ligava, geralmente em momentos até inoportunos, porém, mesmo ficando constrangida, meu coração enlouquecia de alegria...
- Minha filha, você pode fugir daí agora? Eu estou indo lhe buscar para conversar um pouquinho e almoçar com você.
As minhas amigas já sabiam dessa “loucura” que me acometera e que entorpecia a minha capacidade de raciocinar, acionado um toque especial; então, tratavam de me cobrir e liberar, porque se não fosse assim, eu não conseguiria mais me concentrar em nada.
Um dia, após um desses almoços habituais ele parou em frente a um chaveiro e disse inesperadamente:
- Minha filha, me dê aí a chave de casa – já a chamava a nossa casa -, que vou fazer uma cópia para mim, para que eu tenha mais liberdade de chegar à hora que quiser, sem precisar pedir aos porteiros que abram o portão...
Eu ri.
-Também... para eles é meio estranho vê-lo chegar às duas, três horas da manhã, sem que seja morador do prédio.
Ele riu só de imaginar a cara de um deles, que era muito religioso. Entretanto, suas chegadas intempestivas em nada me incomodavam, ao contrário, me deixavam extremamente feliz e sempre meio alerta, torcendo para que fizesse a ‘surpresa’ de chegar e me abraçar enquanto eu fingia dormir.
- Às vezes vou deitar, mas não consigo dormir. Sinto uma falta tão intensa de você enroscada, dormindo tranquila junto de mim, que levanto, pego o carro e saio sem ligar para avisar, com receio de acordar a “perua”; era assim que chamava, carinhosamente, minha filha adolescente.
Continuamos a nos ver diariamente; quando eu chegava ao trabalho pela manhã, ele já havia telefonado três ou quatro vezes, só para “ouvir a sua (minha) voz e saber se
estava tudo bem”... Aquilo desmanchava meu coração; nunca conhecera tantos cuidados, jamais havia sido tratada com tanto amor e sensibilidade.
Mas eu sentia que algo muito sério sobrevivia sob o comportamento dele; por mais carinho, por mais amor que eu sentisse existir, nós não tínhamos uma vida sexual plena, ele não tomava nenhuma iniciativa nesse sentido. Eu estava intrigada, porque isso não é usual entre duas pessoas que se amam; eu percebia alguma dificuldade em seu comportamento, mas não sabia como abordar o assunto, com receio de ofendê-lo ou que ele me entendesse mal. Sabe-se que essas questões são muito delicadas para um homem; é muito difícil os homens admitirem dificuldades quanto à sua sexualidade. Eu até cheguei a pensar que não o estimulava nesse sentido, que não o atraía.
Uma manhã, logo após acordarmos, ele falou:
- Minha filha, vamos passar o fim se semana em uma praia; você conhece alguma especial?
- Bem... não conheço uma... Mas porque vamos assim, intempestivamente? embora você goste de surpresas, eu também, isso é inesperado em um fim de semana comum...
- Não!...vamos no próximo, que é um fim de semana prolongado.
- Ah!... mesmo?! Meu Deus, eu vou adorar viajar com você, meu urso...(risos)
Ele me abraçou por trás, imitando um urso, e me beijou várias vezes no pescoço; quando fazia isso, era impossível fugir dos arranhões da sua barba por fazer...ele ria, sabendo como eu ficava, e me prendia mais apertado. Ele sempre estava assim, bem humorado. Era maravilhosa a nossa convivência.

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