Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, novembro 20, 2011

Profano (guacira maciel)

Peguei de volta as minhas alvoradas
e a paz de antes de ti
retornei de coração vazio das auroras boreais do teu olhar
recolhi as minhas frágeis asas de cristal
destroçadas pelos raios dos círculos de aço da tua íris
insensível e perversamente fita no nada
arranquei da minha intimidade as marcas impuras das tuas garras profanas
e dos teus dentes obscenos

que dilaceravam minha alma
escondidos sob a seda dos meus lençóis
já não sugarão a polpa doce
os teus lábios mentirosos em rictus de morte
rasguei todos os versos a duas e a quatro mãos
também soltei ao sabor das tempestades
as amarras dos barcos
entremeados da solenidade dos musgos
naquele cais imaginário
que se roçavam sensuais ao sabor das vagas de brisas imprecisas
rasguei as rendas tecidas pelo sol sob a sombra do teu cílio
libertei a mariposa do círculo de luz que limitava o vôo
e prendi os meus cabelos esvoaçantes sob o efeito de um vento de lugar nenhum
que escorriam inocentes por entre os dedos da tua mão
sob o teto do gazebo imaginário
sinto-me
afinal
vazia de ti
e livre
e pura
e plena
e pronta outra vez
porque percebo mais horizontes para a minha sede
do que dores na minha alma.

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