Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, novembro 10, 2011

Os pés do defunto (guacira maciel)

Em uma das minhas viagens de trabalho, realizada a poucos dias no sul da Bahia, como de hábito ouvi histórias bem interessantes, mas esta foi hilária pela originalidade e pela forma como foi contada, e assim, não pude me furtar a registrá-la aqui (até porque usos e costumes se constituem cultura), embora tenha me comprometido em não identificar o município para evitar que a narradora fosse expulsa da cidade. Segundo a mesma, lá existe o costume de se velar os defuntos em casa e fora do caixão! O dito cujo é colocado em sua própria cama, enrolado em um lençol, ficando com os pés descobertos, e todo visitante que se aproxima pra prestar sua ultima homenagem, levanta o lençol, dá uma olhadinha no exposto, carpe algumas lágrimas, volta a cobrí-lo fazendo piedosamente o Sinal da Cruz para encerrar o ritual, e depois sai para bater um papinho com os amigos do lado de fora do quarto. O detalhe interessante é que não importa em que condições estejam os pés do convocado ao paraíso. Um dia, tendo ido ela mesma, a nossa narradora, carpir algumas lágrimas no velório de um conhecido, percebeu, indignada, que os pés do defunto estavam imundos, o que a deixou penalizada; então, ao ver que mais uma visita se aproximava, puxou rapidamente o lençol para cobrí-los, deixando-lhe o rosto descoberto e quando a mulher foi cumprir o ritual de praxe, levou o maior susto da vida, ao dar de cara com o morto já descoberto!...

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