Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, novembro 17, 2011

Aranha; gênero feminino? (guacira maciel)

Na verdade, a história de Penélope já foi alvo de bastante discussão e análise, talvez quase que no mundo todo e por vários autores. Segundo alguns deles, Penélope teria sido a primeira mulher na história que pode decidir seu destino; entretanto, faço outra leitura acerca do assunto.
Vejamos: mesmo que tenha sido seu pai, praticamente, a forçá-la a casar-se, o marido, sensível ao seu sofrimento, lhe teria dito que estaria livre para voltar para casa. Observo nessa atitude um ato amplo de amor ou generosidade, mas que partiu dele; ele “permitiu” que ela voltasse a viver com o pai, se quisesse. Ela não teve autonomia para decidir não casar; apenas pode optar entre duas alternativas que o marido lhe oferecera, e mais, viveria sob a guarda e proteção de um homem ou de outro. Sem dúvida, ainda assim, existe um pioneirismo nessa história feminina, mesmo que não tenha partido dela a ousadia de posicionar-se contra uma decisão masculina; mas quem surpreendeu verdadeiramente foi o marido. Àquela época um homem não demonstrava tal grau de sensibilidade; os sentimentos das mulheres não eram, sequer, assunto para ocupar os pensamentos masculinos. Geralmente nem a chance de optar era possível a elas; por isso até posso entender que o tenha amado.


Quanto à segunda oportunidade de opção, restringe-se ao uso que fazia dos momentos de retiro compulsório de que dispunha, em função de ter uma vida reclusa por imposição de um filho adolescente difícil, até porque não se conformava com a prolongada ausência do pai. Aí, sim, criou; escreveu seu texto, sua história, tecendo e desmanchando tanto a mortalha, quanto o pensamento, porque tinha um objetivo: não se casar com outro homem; a mortalha era apenas a desculpa enquanto encontrava uma saída para si. Talvez – vá se saber! – ela estivesse pensando em, além de se preservar com o estado de espírito em que o marido a deixara antes de partir, uma vez que lhe dera chance de fazer uma opção em outro momento - ainda que entre duas alternativas suas – ou então, ser fiel a si mesma, o que seria bastante significativo e inusitado. Penélope criou, elaborou o pensamento – teceu - fazendo relações e utilizando uma estratégia para se livrar de um segundo casamento; mas não pode simplesmente dizer em nenhuma das vezes: não, eu não quero me casar!
Na verdade, sem poder decidir, ela fabricou uma oportunidade, utilizando uma desculpa: criou um texto na composição de uma mortalha; essa mortalha, na verdade, se constituiu a urdidura do texto maior: decidir a própria vida (não se casar); Penélope aprendeu a fazer opção (e gostou), a elaborar o pensamento, a lutar, com as armas de que dispunha contra o que não concordava e, sem dúvida, isso foi pioneirismo. Decidir implica em liberdade para analisar, refletir e seguir um caminho usando o livre arbítrio a partir de referenciais pessoais; bem diferente de optar entre duas alternativas que nos são apresentadas, porque estas significam limites que não são os nossos, que são delineados por outrem, como um roteiro. Para mim, ela só foi livre quando engendrou, quando criou, quando teceu o pensamento, estabelecendo relações; sua independência foi puramente criativa.
A idéia do tecer e tecer, que usou como forma para ganhar tempo ou pensar em uma saída para não se casar, mesmo, como já foi dito, que o seu marido estivesse morto, nos remete à idéia de construção de uma teia feita por uma aranha feminina (o que não sei se é verdadeiro). E o que era ela, senão uma aranha solitária tecendo sua proteção contra os ataques, do filho, dos pretendentes, dos criados, da vida?...
Há uma outra questão importante a ser discutida; intimamente Penélope não se comportou dentro dos padrões da sua época, em relação à submissão feminina, especialmente das mulheres casadas (ver Mulheres de Atenas, de Chico Buarque de Holanda). Penélope não fez isso! O equívoco que aponto, em se tratando dessa mulher, é que ela não se comportou exatamente como as mulheres daquela época, ainda que socialmente tivesse mantido a postura que dela era esperada. Tanto que o rei Agamenon sobre isso teria dito: “A alma do filho de Atreu exclamou: ditoso filho de Laertes, industrioso Ulisses, grande era o mérito da que tomaste por esposa. Nobre os sentimentos da irrepreensível Penélope, filha de Icário, que soube manter-se sempre fiel a seu esposo Ulisses! Por isso, jamais perecerá a fama de sua virtude, e os Imortais inspirarão aos homens belos cantos em louvor da prudência de Penélope...”
Bem, creio que a fidelidade teria sido muito mais a si mesma do que ao marido, mas prudente, ela foi, sim; e sábia! A mortalha a ser tecida foi um ardil, porque sabia que esse costume seria respeitado por seu filho e pelos pretendentes. Àquela época era costume das mulheres tecerem uma mortalha para familiares que estavam prestes a morrer. E o que fez ela em sua prudência? Anunciou que após tecer a mortalha do sogro, que achou, morreria ao vê-la se casar outra vez, escolheria um dos pretendentes para marido. Aliado a isso, sabiamente finge uma subserviência que estava longe de sentir, acredito, usando, inteligentemente um costume socialmente respeitado, enquanto tecia outra e consistente teia, como nossa velha conhecida aranha tece sua proteção.
Nessa urdidura ela lança mão dos mais variados fios: o costume da época e lugar, sua revolta por ver-se outra vez submetida às vontades alheias, quando já experimentara o gosto de poder optar antes, aliado ao fato de, simplesmente, decidir continuar com o estado de espírito que conquistara com a cumplicidade do marido. E mais, já experimentara no casamento, o comportamento dos homens, quando se tratava de preservar seus direitos naquela sociedade; de forma geral eram beberrões, agressivos, glutões, insensíveis, infiéis...Quereria correr esse risco?
Observemos que há estreita relação entre o ato de tecer e de pensar, porque quando pensamos construímos relações; criamos elos (como uma teia) que servirão de base para um argumento que dará origem ao texto final. Neste momento, na elaboração da minha teia argumentativa, poderia me referir a Platão, que encontra afinidade entre o tecer e formas de estar no mundo e na sociedade, quando diz que a atividade de um político se assemelha à da tecelagem, em que deverá saber cardar (separar os fios) e fiar, porque teria a missão de unir o tecido maior e o menor para adequar a vestimenta, ou seja, o resultado que nada mais seria, que a elaboração da trama que sustentaria sua argumentação quanto a ser esta missão uma arte; a de conduzir homens.
E o que Penélope fez? Ela construiu uma trama – tramou – como base para sua argumentação/intenção de não se casar. Ela construiu duas tramas muito semelhantes e que se completam; pensou (uma trama) e teceu (outra trama), construindo dois textos que se entrelaçam, como um único, o texto final: não se casar. Fosse porque quisesse esperar um marido que não acreditara morto ou, simplesmente, estivesse bem, ou ainda visse naquela mortalha o encerramento da sua possibilidade de amar; o fim de tudo – a satisfação interior.
À medida que tecia Penélope construía uma base fortalecida por nós que ia dando, para que o tecido final não se desfizesse, mas oferecesse a necessária consistência, com todo o rigor técnico. Assim, nada podia escapar à sua previsão ao desmanchar aquela malha, que se constituíra a base da sua argumentação para a recusa. Esses nós, como o pensamento, firmaram a urdidura que segurou a composição daquele texto.
Interessante, percebo que quanto mais penso, quanto mais teço o pensamento, quanto mais o elaboro, mais fios e os mais diversos, encontro para fundamentar o que preciso dizer; e mais relações encontro entre o ato de tecer, de tramar - e de viver - uma urdidura que sustentará a trama deste texto ao escrevê-lo, produzi-lo.
No caso Penélope, extraordinariamente claro, encontro fios que pertencem a outros textos: mas o fio condutor foi o amor: por si mesma; pelo marido; pela liberdade. Essa foi uma construção, um texto escrito sobre firme urdidura. Percebem a sutileza? Agora, há outros sentimentos, outras paixões que transversalizam o amor, que são como ventos fortes, chegam de repente, não têm uma existência urdida, tramada, são fugazes como fios soltos, embora não deixem de afetá-lo. Sabemos que Ulisses também tramou para se defender da Deusa Calipso, tapando com cera os ouvidos dos seus tripulantes para que não ouvissem o canto mortal que, equivocadamente, se pensava ser das sereias, e se amarrando ao mastro do navio para não sucumbir, já que decidira ouvi-lo. Embora, lógico, não tenha sido criativo como a aranha encarnada por Penélope ao urdir toda uma teia argumentativa.
Perceberam que a minha própria argumentação se constituiu a urdidura do meu texto final, que teci o pensamento como uma aranha a teia, e fui dando os nós que seguraram a trama firme da argumentação? E o melhor, levei vocês a urdir também, a elaborar o pensamento, fazendo as necessárias relações para a construção de outros textos sobre sua própria urdidura; outros tecidos. Bom...

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