Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, outubro 04, 2011

Preconceito x Direitos Humanos...(guacira maciel)

Existem coisas que precisam ser ditas quando chegado o momento, embora nem sempre as possamos dizer diretamente a quem se destinam, por proteção, por um poderoso sentimento que é o instinto de preservação. Os embates não se fazem necessários. Aqueles que têm o “poder” fortalecendo e apoiando suas atitudes inumanas, desumanas e rasteiras, facilmente podem caluniar, perseguir, aniquilar, anular o outro. Porém, esquecem que a luz das pessoas continua a brilhar sob as suas próprias cinzas; ela é indestrutível, porque inerente à sua condição. E essas atitudes são, tão somente, um demonstrativo de covardia, de medo, de reconhecimento das próprias limitações. “Se você não pode com o inimigo, junte-se a ele”? não, se você pode aniquilá-lo; pisá-lo, e sordidamente retirá-lo do caminho para que ele não continue a lhe mostrar suas fraquezas, suas limitações, sua fragilidade, suas dificuldades ( e até sua incompetência)... Juntar-se a ele seria até uma demonstração de grandeza de espírito, de humildade e poderia ser positivo. Mas o que algumas pessoas não conseguem compreender é que essa condição só mostra o quanto todos somos humanos, imperfeitos e frágeis; inclusive os “poderosos”, claro!, e que não há necessidade de esmagar o outro, para demonstrar a própria sabedoria. Não existe nenhuma possibilidade de alguém ocupar o lugar que não lhe pertence, porque, não fosse a lei da Física em que cada corpo só pode ocupar um lugar no espaço, cedo ou tarde seria desmascarado; assim, cada um só ocupará, unicamente, o próprio lugar.
Existe atualmente um discurso já tão repetido, que vem se tornando um jargão vazio, uma bandeira esfarrapada, que é o discurso da inclusão, do respeito à diversidade; porém, parece não haver nenhum entendimento de que o preconceito não se refere, apenas, à cor da pele, à opção sexual, ao gênero...Também existe o preconceito intelectual, o preconceito contra a condição que tem o outro de ser criativo, competente, o preconceito contra o pensamento divergente, que é tão devastador, tão mesquinho, e faz tanto mal quanto qualquer outro.
Há pessoas que, mesmo tendo excelente nível de escolaridade - o que não implica em nível cultural de alto padrão - que não conseguem ir além, que não conseguem escapulir das bitolas, dos limites, parecendo ser ofensivo a simples condição de alguém que não tem o mesmo nível acadêmico, mas pode ser competente, ter mais facilidade de percorrer caminhos outros; aqueles que margeiam as grandes estradas da sabedoria; aqueles que sobrevivem tão belamente nos desvãos, nas entrelinhas, na reimaginação, naquele confortável e doce “entre-lugar”, como diria Renato Rosaldo, que vivem nas “zonas de diferenças”, mas que, e por isso mesmo, se constituem um manancial de possibilidades... Pessoas assim são consideradas polêmicas, e até “criadoras de caso”, o que, cá pra nós, pode ser muito bom, muito saudável... Só polemiza quem pode, quem pensa e tem lastro, quem tem base e argumentos para sustentar uma discussão, e essa condição não pode ser vista como desrespeito, como desarmonia, mas ser enriquecedora; não deve ser encarada como usurpação do poderzinho ao qual algumas pessoas se apegam, vivendo em estado de epifania, como se fora um direito só concedido aos que ostentam a coroa naquele fugaz momento em que se sentem ungidos pelos deuses do poder.



Todos têm o direito à liberdade de pensamento, à criatividade, à liberdade de se expressar. Que educadores, que professores, que pais somos nós, afinal? Seria através dessas posturas, dessas atitudes que pretendemos orientar os nossos jovens?

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