Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, outubro 15, 2011

Cortina de papel...(guacira maciel - junho /2005)

Estou no trabalho. São 09h30min de uma luminosa manhã de segunda feira. Me sinto extraordinária e deliciosamente fora do contexto. Extasiada, leio as gostosas crônicas de Ferreira Gullar. Fantástico! mas preciso emitir um parecer técnico...Aqui, algumas presenças são por demais terrenas, sólidas, ácidas e subservientes...Ouço fragmentos de conversas sobre uma educação que não acontece nas nossas escolas: ...formação didática... forma... metodológica... os professores.. . projetos...Na verdade, me pergunto o porque disso tudo; eu mesma, o que faço, se nada posso fazer acontecer?...O dia está maravilhoso; ainda sendo segunda feira de manhã, de um dia de inverno na Bahia. O sol brilha em suave sobre nossas brancas mesas de trabalho, através dos rasgões no papel pardo que faz as vezes de cortina, em um contemporâneo janelão envidraçado - que permite a visão de um mar maravilhoso, com nuances opalescentes e perfeitamente integrado ao verde da vegetação - dilatando meu horizonte. Pensei que nem cortinas merecemos... ainda que aquelas tesas, de escritório...Por que, de repente e curiosamente, pensei em esvoaçantes cortinas de linho branco ou voil? e por que numa varanda em frente ao mar, filtrando a maresia e o sol acidular, que incendeia a vida e arde nas costas do nosso litoral e nas nossas próprias costas? qualquer praia... poderia ser Sítio do Conde, Aleluia ou Costa do Sauipe, desde que fora do eixo dos resorts e hotéis de luxo. Eles violentam o equilíbrio da ecologia que compõe uma cadeia perfeita de vida, filtrando também a beleza, a pujança e o que temos de mais puro na nossa luxuriante natureza, que em sua perfeição não precisa de retoques.Uma estrutura maldosa e desumana que engole tudo, como uma gulosa “boca de lobo”, interrompendo o curso da vida... a administração...a mídia, orquestradas por homens... batalhões de homens e mulheres, como formigas tendo que ir a algum lugar... como autômatos com sorrisos plásticos colados à boca; os espíritos aprisionados, insensíveis e estéreis, sem perceber a vida pulsando e, relutante, se esvaindo dos seus corações, roubando a seiva que vaza por seus corpos, cujas cabeças funcionam tão alto, que se fazem ouvir...Aqui, sinto e ouço o espírito do mundo, teimoso, querendo dizer alguma coisa que já sei e que tento, em vão, esquecer, mas que não posso, porque ele sou eu e é aqui que está a voz, que reconheço, doce, morna e amorosa de antes... isso parece ter sido há um século ou em outra vida...Meu coração bate tão forte que quase perco o equilíbrio; todo o meu corpo dói pulsando tenso como corda distendida de um instrumento qualquer; meus ouvidos parecem a pele sensível de um tambor e escutam esses batimentos como se estivessem fora de mim; a visão recebe impressões em cascatas vermelhas, azuis e alaranjadas, numa explosão que se assemelha a um ininterrupto bombardeio, em conseqüência da pressão deixada pelo correr veloz do sangue nas minhas artérias; tenho a sensação de vertigem e sugo sofregamente o ar, sem fôlego; como um náufrago, me agarro à tábuas molhadas, ofuscantes e escorregadias, boiando à minha frente, quase impossíveis de serem agarradas... páginas borradas do livro de crônicas aberto sobre a minha mesa branca, inerte, como eu....E meu olhar, aéreo, despenca sobre uma delas...fragmentos longínquos de conversas voltam aos meus ouvidos: “quando não há afetividade, a pessoa só enxerga as merdas do outro...”.

2 comentários:

O Sibarita disse...

Ô, é? kkkkk Quando não se tem afetividade é assim, é? kkkkkkk

Dona moça, oxente e onde está a bondade das pessoas que mesmo não tendo essa afetividade ao outro, perceba as não virtudes que por certo são infinitamente menores que as virtudes e não enxerguem essas mesmas virtudes? Essas pessoas devem ser caôlhas, né não? kkkkkkkk A elas, é mais fácil agir assim do que aceitar o outro como ele é... Macaco não olha para o rabo, olha? kkkkkk

Agora, aqui para nós vc fez numa segunda, então, o domingo, diga ai? Hummm... kkkkkkkkkkkkkkkkkk

No texto há a alegria, o extase de que o dia anterior (domingo) foi muito provetoso, ai meu Deus do céu! Tão bom um domingo de inverno e o coração pulsando a mil... Na segunda é só flutuação, oi que bom fia! Aiaiaiaia! kkkk

Ao certo, esse magnífico texto, demais! você sabe das coisas...

O Sibarita

Guacira Maciel disse...

Olá, querido amigo!! O que sei é que meu coração pulou quando vi que havia retornado...melhor que tudo; obrigada.
Sem dúvida, amanhã haverá indicação de que o domingo foi muito bom...rsss...
Beijo e obrigada (não desapareça outra vez).