Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, outubro 29, 2011

Ato político e ato de prazer...(Guacira Maciel)

Entendendo que educar e aprender, : o monge (teólogo, humanista e retórico) Erasmo de Rotterdm. Na verdade, a sua obra mais conhecida é “Elogio da Loucura”, uma sátira tão inteligente porque sutil à sociedade européia do séc. XVI, mas sua proposta para uma educação pública é absprecisam ser, além de atos políticos, atos de prazer, gostaria de retomar uma forte referência, que é a do filósofo do Renascimento e um homem que mais que qualquer outro está presente nas propostas de educação que entendemos contemporânea e absolutamente atual em se tratando de lógica metodológica e visão conceitual.
Apesar de ter sido um educador das elites, tendo, inclusive, o seu trabalho pedagógico publicado sido dedicado a Henrique de Borgonha, filho de Adolfo, príncipe de Veers, ele declarou que seu maior interesse era atingir em sua proposta a grande quantidade dos que não tiveram a sorte de ter um “preceptor” nem a condição de freqüentar cursos particulares, que eram privilégios dos “apaniguados da fortuna”. Trouxe aqui este sábio filósofo, para enfatizar o que hoje consideramos fundamental à educação e achamos ser fruto das nossas mentes brilhantes: o estímulo ao prazer de aprender; para isso, em sua obra “De Pueris” ele considerou importante a “descontração pedagógica” e defendeu uma educação pautada na leveza (como também propôs Ítalo Calvino em relação à Literatura – em “Seis Propostas para o Próximo Milênio” -), e que amplio aqui para todas as instâncias da aprendizagem, vez que entendia o Mestre Erasmo, ser a Arte fundamental, e questiona: “que de mais ameno que as fábulas dos poetas? Elas têm o condão de cativar os ouvidos infantis”. Fala ainda que amar o educando era condição primordial e que “sob essa condição a criança aprende com maior receptividade [...] por isso convém que o preceptor, de algum modo, saiba fazer-se criança...” Ele também entendeu ser importante que o trabalho pedagógico estivesse ligado a um contexto, pois aconselhava que, “às histórias, sentenças breves e dinâmicas” fossem acrescentadas, além de também propor que “por isso sejam as histórias transformadas em desenhos [...] muitas crianças se distraem com pinturas de caçadas. Naquela oportunidade calha bem falar das espécies de árvores, ervas e quadrúpedes. Assim, aprendem de modo ameno, como se estivessem brincando”, ou seja, dentro de um contexto (posto que dentro de contextos) e de forma prazerosa.
Entretanto, o que mais me encanta na proposta pedagógica de Erasmo, vem ao encontro de um dos importantes pontos que me trouxe aqui; a valorização do conhecimento construído pelo jovem fora da escola, assim como estímulo ao protagonismo e ao autodidatismo, como entendemos hoje, numa primeira instância, evidenciado pela necessidade de se expressar à sua maneira, à maneira do seu grupo, e depois oportunizar o seu desenvolvimento pleno como ser e sujeito social; todos dentro do seu momento vivencial. Para Erasmo o educador não tinha a função de “plasmar” o aprendizado espontâneo que a criança/jovem já havia construído e sim ir ao encontro daquela potencialidade ajudando-o a enriquecer, a reconstruir e ressignificar esse conhecimento - dentro dos atuais paradigmas - através da aprendizagem escolar. Inclusive, o termo que ele usa em latim é o verbo “excolere”, de onde deriva o termo escola, e que significa “fazer sair pelo trato”, isto é, o educador acolhendo o que o jovem já sabe e abrindo-lhe possibilidades para possa se expressar.
Erasmo estava além do seu tempo, embora tendo se formado pela “Ordem dos Agostinianos”, tinha conhecimentos profundos do sistema educacional encabeçado “pelos religiosos profissionais que, sem pejo nem escrúpulos, comercializavam o ensino para auferir recursos financeiros das classes altas” (isso nós conhecemos muito bem) -, e criticou severamente o sistema educacional de sua época propondo formas para reabilitá-lo e à “arte de educar”, com intenção de livrá-la daquelas “aberrações”. Ele tinha consciência que o afeto, como a Arte, é um elemento catalisador amplamente eficaz em situações de aprendizagem, mas quero acrescentar, também na terapêutica, como nos mostra a sensível Dra. Nise da Silveira (uma mulher que viveu na contramão da cultura machista brasileira), em seu fantástico e incansável trabalho/estudo com a Arte como forma de tratamento do processo psicótico, que, inclusive, curou, com afeto e acolhimento, estimulando a expressão/representação, para trazer à luz as imagens do inconsciente, ajudando a mudar comportamentos de seres cuja vida já era considerada perdida. Ela disse ter usado a Arte para “conhecer, estudar e tratar os inumeráveis estados do ser”; aí está uma experiência que nos encaminha a buscar compreender como se dá a aprendizagem, como e quais caminhos tão subjetivos são percorridos para que aconteça, de fato - e o que a arte pode evidenciar através realidades que ampliam e/ou aprofundam as dos sujeitos (falaremos nisto mais adiante) -.Ainda não nos abrimos para esta necessidade, temos conceitos didático/pedagógicos muito rígidos. E não estou aqui, dizendo que a escola se torne um espaço terapêutico! Esta não é a sua função, e seus objetivos são outros.
Mas, quero concluir enfatizando a sensível palavra do Mestre Erasmo, sobre como entendia um professor: “... a cujo regaço possa confiar teu filho como o nutriz ao seu espírito a fim de que, a par do leite, sorva o néctar das letras.”

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