Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, outubro 09, 2011

Acerca de aprendizagem...(guacira maciel)

Hoje vou falar um pouco sobre “Dissonância cognitiva”, porque tenho uma constante preocupação com a aprendizagem, já que sou educadora, e consciente do baixíssimo índice de aprendizagem, de fato, nas nossas escolas, apesar de todas as propostas...
Venho insistindo em buscar caminhos que me levem a entender o envolvimento do processo cognitivo na aprendizagem escolar e a importância que o desvendamento desse mistério se constitui para mim.
Assim, estava refletindo sobre os conflitos que me atingem pessoalmente algumas vezes, pelo fato de ter construído modelos, como todos os seres, fruto da minha experiência de vida sob todos os aspectos ( familiares, educacionais, emocionais, psicológicos, culturais...), ao confrontá-los com experiências que não os atendem.
Durante a infância/adolescência fui tímida e um tanto bucólica, totalmente diferente de minhas irmãs, que sempre foram arrojadas (eu diria). Meus projetos de vida eram modestos...nunca pensei, por exemplo, em escrever, em publicar coisa alguma. Nesse caminho, é muito comum lembrar, com saudade, de alguns hábitos dos meus pais, a exemplo de acordar bem cedo, quando a casa ainda estava envolta na penumbra do derradeiro estágio do sono profundo de todos nós (6 filhos), para conversar ouvindo música e tomando o primeiro cafezinho, ou sentar em cadeiras de lona postas sobre a calçada à noite para bater um papinho tranquilo, enquanto brincávamos por perto fazendo algazarra com inocentes brincadeiras.
Porém, ao mesmo tempo em que amo essas coisas e tenho saudades, sou uma contumaz usuária da Internet, consumidora voraz de E-books, e insaciável usuária de sites de pesquisa e coisas assim, por ser muito curiosa e inquieta, e ainda ter um estímulo constante e fortíssimo, que é escrever - já disse Machado que “o autor é um reflexo do que lê”, e Saramago:” os autores são filhos de suas leituras” – o que, segundo os estudiosos do assunto, é fundamental nos casos da “Dissonância” ( o estímulo) para fazer com que ela se suavize diluindo os conflitos. Mas será que hoje existe alguém que não os tenha?
Essa teoria foi desenvolvida por Leon Fertinger em meados do século XX, e descrita como uma tensão que se estabelece entre o que se pensa e acredita, e o que se faz, ou seja, comportamentos e aprendizagens que estão em desacordo com as demandas internas nos levam a embates íntimos. Uma forma de reduzir o desenvolvimento da dissonância é buscar, por exemplo, aquelas informações às quais temos acesso, de acordo com o nosso conhecimento e em sintonia com o que pensamos ser adequado a nós, à nossa forma de pensar, de nos relacionar com a vida, que seriam os modelos.
Então, em relação à aprendizagem, que é o meu maior interesse na questão agora, como todos construímos “modelos mentais” relativos a todos os nossos sentimentos, ações, comportamentos, inclusive à aprendizagem, uma informação recém adquirida se choca com esses modelos, ocorrendo a dissonância cognitiva entre os dois e instalando-se uma necessidade de buscar restabelecer a coerência, a harmonia, que é uma atitude (decisão, ação...) complexa, que irá variar de acordo com o grau de tensão estabelecida com o choque.
Segundo essa teoria, para reduzir o desconforto que se instala com esse estado de tensão, pode-se “substituir um ou mais modelos; buscar novas informações [complementares] que aumentem a consonância; alterar os pesos relativos em dissonância [um consenso] ou a relativização da nova informação”. O que me estimulou a aprofundar a questão, foi a compreensão de que, na aprendizagem ela pode se configurar um instrumento que poderá levar o estudante a reagir diante de um conhecimento novo e assim, a aprender, porque esse choque chama a atenção estimulando a imaginação. Porém, para haver uma acomodação é fundamental que o estímulo inicial seja mantido para favorecer a continuação da aprendizagem, sendo importante entender também, que o uso dessa técnica sem os devidos cuidados poderá levar ao cansaço por causa da tensão constante que se estabelece.
A técnica também poderá ser usada para mudança de modelos mentais, segundo Tom e Beth Kamradt. Mas não vou entrar na questão neste momento.









2 comentários:

O Sibarita disse...

Poia é! Beleza essa preocupação que vc expõe no texto.

Na realidade, o psicólogo social Leon Festinger, que vc já fala no texto foi muito além na sua teoria, hoje, muitas empresas já adotam essa teoria para admissão de funcionários. "Dissonância e consonância são relações entre cognições, ou seja, entre opiniões, crenças, conhecimentos sobre o ambiente e conhecimentos sobre as próprias ações e sentimentos.(Leon)" Com isso busca-se nas admissões pessoas com perfil que não destoem do pensamento daquela empresa.

PORRETA SEU TEXTO, ALIÁS, SEMPRE...

O Sibarita

Guacira Maciel disse...

Sem dúvida, ter afinidade com os objetivos da empresa, neste caso, é fundamental. Na Educação, com os necessários ajustes e manutenção do estímulo, após o choque (despertar inicial) seria uma forma de se pensar em melhorar os níveis de aprendizagem, de fato.
Obrigada (seus comentários são um estímulo...).
gpoetica