Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, setembro 17, 2011

Varanda alta (guacira maciel)

É uma tortura tê-lo guardado lá, naquela varanda alta da nossa adolescência, cabelos dourados como o sol, cuidadosamente penteados; um príncipe encantado e quase triste, de calções, sem roupa de gala, espada e, principalmente, sem cavalo branco, mas um príncipe.
Gostaria de poder tirá-lo daquela varanda adolescente e levá-lo para minha infância, amor de infância é mais suave, não dói tanto; acho que é porque a gente não tem ainda os hormônios que mobilizam as emoções, explodem tudo, gravando a ferro e fogo as imagens no coração.
Mas decidi despedir-me da varanda. Quero esvaziá-la e sair rápido, sem olhar pra trás, como se sai de uma velha casa em ruínas, onde a gente passou toda a vida e da qual, agora, está sendo despejado; uma saída compulsória, porque ela já não tem condição de abrigar nada. Mas para isso é preciso expulsar um morador antigo, que se instalou lá naquela varanda alta e é mais teimoso do que eu.
Como abandonar a velha morada se lá existe alguém que não quer sair? Tudo está desmoronando ao redor, mas o teimoso coração, como a casa, insiste em se manter abrigo, ainda que tudo seja desabrigo: janelas fechadas como olhos baços pela ausência, (dizem que eles são as janelas da alma); encanamentos enferrujados por falta do correr impetuoso da água em seu interior, as pobres válvulas com suas roscas aluídas, já não mantêm a necessária pressão; os móveis, o sofá da sala, que já acolheu corpos jovens, dilacerado expondo vergonhosamente suas entranhas; e o jardim? este, já não tem canteiros floridos, grama úmida e fresca, mas galhos secos retorcidos, como garras.
Só ficou teimosamente verde e viva a velha árvore (que pode nem ter existido), agora cabide de todas as lembranças. Ela, sim, ainda abriga flores, frutos e pássaros que vêm a cada primavera, como a esperança, qual uma promessa ainda não cumprida. Isso, porque possui raízes fortes e profundas fincadas no jardim lá daquela casa com varanda alta, da nossa adolescência, que por instantes pareceu voltar impetuosa, latejando e derramando sangue novo, como artérias desobstruídas após a quase-morte, trazendo vida e flores, e frutos, trazendo novas cores, vento fresco e muito azul.
Como trancar a velha casa de varanda alta, sair silenciosamente, para evitar que o velho morador, teimoso, volte ao aconchego do antigo abrigo?

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