Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, setembro 08, 2011

Desordem... (guacira maciel)

Lá atrás já falei de uma (des)ordem. Mas esta aqui é desordem mesmo, confusão...
Estou assim, confusa. A muitos dias que pego o meu velho caderno (o meu muro de lamentações), para tentar dizer coisas que me vêm incomodando, mas não era chegada a hora; sempre fechava-o, porque nada tinha coerência e ainda não sei se tem...
O assunto principal é você! Você mesmo; você que bagunçou a minha vida, que entrou nela sem ser convidado, me tirou o chão, e ocupou cada espaço, cada minuto dela por tanto tempo, sempre com o mesmo encanto, a mesma doçura, a mesma delicadeza e a mesma mentira. Esta ultima palavra é terrível de dizer junto às demais; ainda não a aceito.
Sabe o que me ocorreu? Lembrei que li em algum lugar sobre dois corações... e você parece ter dois corações. O primeiro, que conhece todos os caminhos que levam à minha alma, é quente como um pequeno abrigo onde parece haver sempre uma lareira acesa, como nas descrições dos romances vitorianos. Nesse coração o fogo está sempre estalando e explodindo em labaredas dançantes, que lembram pequeninas línguas. Esse coração mantém a porta sempre aberta e me recebe sempre aos saltos, como na primeira vez.... Esse coração foi privilegiado por mim; dei-lhe toda atenção, talvez porque ainda não conhecesse o seu outro coração. No primeiro morou um amor tão especialmente mágico, que o simples fato de poder imaginar ser um dia lembrado como um sentimento diferente me faria ficar infeliz.
Mas o seu outro coração, que acabo de conhecer, é cruel, é frio como gotas de gelo. Será que você existiu mesmo? Teria sido você um homem real? Por que isso me incomoda tanto? Sabe como é...a nossa mente é uma máquina fantástica, e eu acho que criei você para me dar abrigo junto àquela lareira acesa; eu estava tão só e sentia tanto frio... que aquela ideia me trouxe conforto; foi um acalanto, e eu dormi, permitindo que você saísse da minha imaginação, e foi tão perfeito que não fiquei triste quando você se foi, porque, embora tenha sido uma partida brutal, você era um estranho; nesse dia comecei a conhecer o seu segundo coração. Mas eu teria gostado tanto que você fosse de verdade... Aliás, achei que era tão verdadeiro que nunca pensei que voltasse a viver só na minha imaginação. Mas não existe perfeição e uma linda bolha de sabão, de temporário azul, tende a desaparecer; e com tanta rapidez se pos fora do meu alcance...pudera! Mas estou feliz por ter criado algo tão perfeito; uma espécie de real imaginado. Isso pode até provar que os poetas não mentem, como disse Pessoa, mesmo que eu não seja poeta...

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