Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, julho 01, 2011

Negra fateira (guacira maciel)

Negras fateiras ou negras de ganho... Negros de ganho, pois não foram apenas as mulheres que passaram a exercer esta função na sociedade colonial brasileira; os próprios donos de escravos os utilizavam para vender variadas mercadorias, com o objetivo de aumentar a sua renda, obrigando-os a dividir os lucros auferidos. Ou então os negros que, após a "abolição", se viram sem nenhuma alternativa de sobrevivência, e buscaram ganhar a vida vendendo algumas dessas mercadorias baratas, de porta em porta ou em tabuleiros nas ruas...Quanto às negras fateiras (também não eram apenas mulheres), no caso especificado aqui no poema, foram mulheres que, não tendo como se sustentar nem à seus filhos, começaram a pedir nos abatedouros as vísceras dos animais, que eram descartadas, uma vez que não compunham o cardápio da mesa dos brancos e ou ricos, fazendo com elas deliciosas iguarias.A partir daí, o sarapatel, a buchada, o xixim de bofe, meninico, fatada, entre outros, passaram a compor a nossa culinária, e também a serem incluídos no cardápio das casas senhoriais por causa do seu sabor que, embora exótico, foi considerado delicioso.




De princesa
tornou-se escrava e fateira
altiva
elegante
negra bonita
negra brejeira
no seu tabuleiro
de tanta iguaria
sarapatel
mugunzá
fatada
abará
na saia rodada
tem barra de renda
na blusa
musselina fininha
e nos dedos dos pés
ela tem sandalinha
no braço e pescoço
tem prata tem ouro
e o sol do estanho
o doutor alemão
encantado dizia
não há riqueza de formas
como a da negra da Bahia
orgulho nagô
do reino de keto
escrava ou liberta
negra fateira
negra de ganho
negra bonita
negra brejeira.

Obs. O poema baseia-se em textos de Robert Ave-Lallemant e Jean-Baptiste Debret.

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