Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, julho 30, 2011

Negra Vera (guacira maciel)

Vera negra verdade
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terça-feira, julho 26, 2011

Educar e aprender... (guacira maciel)



Entendendo que educar e aprender precisam ser além de atos políticos, atos de prazer, gostaria de trazer uma referência interessante, a do filósofo do Renascimento e um homem que mais que qualquer outro está presente nas propostas de educação que entendemos contemporâneas: o monge (teólogo, humanista e retórico) Erasmo de Roterdã. Na verdade, ele é mais conhecido por seu “Elogio da Loucura”, uma sátira fantástica, porque sutil, à sociedade européia do séc. XVI. Mas sua proposta para uma educação pública é absolutamente atual em se tratando de lógica metodológica e visão conceitual.

Apesar de ter sido um educador das elites, tendo, inclusive, o seu trabalho pedagógico publicado, sido dedicado a Henrique de Borgonha, filho de Adolfo, príncipe de Veers, ele declarou que seu maior interesse era atingir em sua proposta a grande quantidade dos que não tiveram a sorte de ter um preceptor nem a condição de freqüentar cursos particulares, que eram privilégios dos apaniguados da fortuna. Trouxe aqui este sábio filósofo, para enfatizar o que hoje consideramos fundamental à educação e achamos ser fruto das nossas mentes brilhantes: o estímulo ao prazer de aprender; para isso, em sua obra “De Pueris” ele considerou importante a descontração pedagógica e defendeu uma educação pautada na leveza (como tambem propôs Ítalo Calvino em relação à Literatura – em “Seis Propostas para o Próximo Milênio” -), e que amplio aqui para todas as instâncias da aprendizagem, vez que entendia o Mestre Erasmo, ser a Arte fundamental, e questiona: que de mais ameno que as fábulas dos poetas? Elas têm o condão de cativar os ouvidos infantis. Fala ainda que amar o educando era condição primordial e que sob essa condição a criança aprende com maior receptividade [...] por isso convém que o preceptor, de algum modo, saiba fazer-se criança... Ele também entendeu ser importante que o trabalho pedagógico estivesse ligado a um contexto, pois aconselhava que, “às histórias, sentenças breves e dinâmicas fossem acrescentadas, além de também propor que por isso sejam as histórias transformadas em desenhos [...] muitas crianças se distraem com pinturas de caçadas.

Entretanto, o que mais me encanta na proposta pedagógica de Erasmo, vem ao encontro de um dos importantes pontos que me trouxe aqui; a valorização do conhecimento construído pelo jovem fora da escola, assim como estímulo ao protagonismo e ao autodidatismo, como entendemos hoje, numa primeira instância, evidenciado pela necessidade de se expressarem à sua maneira, à maneira do seu grupo, e depois oportunizar o seu desenvolvimento pleno como ser e sujeito social; todos dentro do seu momento vivencial. Para Erasmo o educador não tinha a função de plasmar o aprendizado espontâneo que a criança/jovem já havia construído e sim ir ao encontro daquela potencialidade ajudando-o a enriquecer, a reconstruir e ressignificar esse conhecimento - dentro dos atuais paradigmas - através da aprendizagem escolar. Inclusive, o termo que ele usa em latim é o verbo “excolere”, de onde deriva a palavra escola, e que significa fazer sair pelo trato, isto é, o educador acolhendo o que o jovem já sabe e abrindo-lhe possibilidades para possa se expressar.

Erasmo estava além do seu tempo, embora tendo se formado pela “Ordem dos Agostinianos”. Tinha conhecimentos profundos do sistema educacional encabeçado “pelos religiosos profissionais que, sem pejo nem escrúpulos, comercializavam o ensino para auferir recursos financeiros das classes altas” (isso nós conhecemos muito bem) -, e criticou severamente o sistema educacional de sua época propondo formas para reabilitá-lo e à “arte de educar”, com intenção de livrá-la daquelas “aberrações”. Ele tinha consciência que o afeto, como a Arte, é um elemento catalisador amplamente eficaz em situações de aprendizagem, mas quero acrescentar, também na terapêutica, como nos mostra a sensível Dra. Nise da Silveira (uma mulher que viveu na contramão da cultura machista brasileira), em seu fantástico e incansável trabalho/estudo com a Arte como forma de tratamento do processo psicótico, que, inclusive, curou, com afeto e acolhimento, estimulando a expressão/representação, para trazer à luz as imagens do inconsciente, ajudando a mudar comportamentos de seres cuja vida já era considerada perdida. Ela disse ter usado a Arte para conhecer, estudar e tratar os inumeráveis estados do ser; aí está uma experiência que nos encaminha a buscar compreender como se dá a aprendizagem, como e quais caminhos tão subjetivos são percorridos para que aconteça, de fato - e o que a arte pode evidenciar através realidades que ampliam e/ou aprofundam as dos sujeitos (falaremos nisto mais adiante) -. Ainda não nos abrimos para esta necessidade, temos conceitos didático/pedagógicos muito rígidos. E não estou aqui, dizendo que a escola se torne um espaço terapêutico! Esta não é a sua função, e seus objetivos são outros.

Quero enfatizar a sensível palavra do Mestre Erasmo, sobre como entendia um professor: ... a cujo regaço possa confiar teu filho como o nutriz ao seu espírito a fim de que, a par do leite, sorva o néctar das letras.



domingo, julho 10, 2011

Lusofonia (guacira maciel)


Tenho visto na Internet alguns sites e blogs portugueses com um símbolo que diz: “aqui não se adota a reforma ortográfica” e eu sou totalmente a favor...Palmas para os portugueses, que tiveram a coragem e o interesse em se posicionar contra essa “unificação”, que eu diria massificação de identidades, porque lá, como entre os nossos verdes, não deve ter havido uma ampla discussão com a sociedade!
Darei início a essa reflexão, trazendo o significado da palavra que a motiva: lusofonia é o conjunto de identidades culturais, com ênfase no idioma, existentes em países de Língua Portuguesa. No entanto, em relação ao Brasil e Portugal essa identidade se dilui a partir do momento em que sofremos fortes influências de outras culturas, notadamente a profunda influência africana, tão presentes na vida do país, assim como o fato de haver – por parte de Portugal - uma demonstração de interesse em manter a hegemonia, apenas, quanto ao idioma que falamos aqui, apesar de o Brasil se ter distanciado tanto da famosa outorga por ocasião da criação da Constituição Brasileira.
Os elementos discursivos usados na prática dão sentido ao falar; dessa forma, a oralidade é fundamental como expressão, porque possibilita a socialização do conhecimento e subsidia a produção escrita. Um bom exemplo nos vem das culturas ancestres do Continente Africano, onde a forma de comunicação e registro oral foram, a priori, por ene razões, as bases para a continuidade da sua historia, hoje conhecida.
Logo, vê-se, essas práticas deverão ser foco de um estudo mais sistemático, uma vez que os textos que se constituem os discursos que se produzem nas várias situações, permitem aos autores a construção de suas identidades próprias. Percebe-se aí, a necessidade de efetivação de uma proposta que integre língua/linguagem na relação de construção do pensamento simbólico do individuo e da sociedade. Assim, a linguagem torna-se um pressuposto de constituição dos sujeitos e das práticas sociais, organicamente ligados.
Muitíssimo importante também é a “leitura”, como condição de produção de sentidos, não só concretizada em textos, sejam orais ou escritos, como a sua relação com outros textos vivenciados em sociedade, a exemplo da expressão corporal em todas as suas formas cotidianas, assim como as manifestações e expressões artísticas (posturas e expressões das vivências do dia a dia e mais, dança, teatro, música, jogo, desenho, filme, pintura, vídeo, TV.). Todas elas se constituindo um potencial para a produção de textos, que poderão ser lidos, falados e incorporados à Língua, em cujo contexto se deverá estudar a gramática, que assim, migra do seu isolamento passando a ser uma forma bem didática, porque vivenciada, para a compreensão, interpretação e produção de textos que irão reforçar a necessidade de reflexão sobre a utilização da Língua.
Convém enfatizar que a Literatura (escrita ou não...) não está desvinculada da “leitura”, ao contrário, este será o seu ponto de partida, enquanto condição de compreensão dos significados das obras e do pensamento dos seus autores; reflexões; análises; críticas, e até a fruição. Nesse aspecto precisa-se incluir e valorizar os autores representativos das culturas constitutivas do patrimônio luso seja no Brasil, em Portugal, na África, na Ásia... não apenas em se tratando dos clássicos – ricas e imprescindíveis referências - mas muito fortemente os autores contemporâneos, uma vez que seus discursos incluem formas de expressão dos contextos agora vivenciados (culturas juvenis, internet e outros...).
Nessa perspectiva, há que se entender fundamental a capacitação dos professores, no sentido de sua atualização, além da produção de livros didáticos que discutam e valorizem essas formas que se vão incorporando à cultura.
Mas que língua falamos no Brasil?
Na verdade, esta é uma indecisão recorrente, uma vez que a discussão acontece desde 1823, por ocasião da outorga da Constituição Brasileira por D. Pedro, em que ficou decidido que a língua falada no Brasil seria a língua portuguesa. Já nesse momento encontro algumas contradições, a exemplo de: o fato de termos sido “descobertos” para o seu mundo, não significa que por cá não existisse a comunicação verbal e escrita; outra análise é que desde que o Brasil se independeu, teria que assumir sua identidade brasileira e se expressar segundo sua forma, ainda que essa língua se tenha constituído na diversidade, ou principalmente por isso, e que não foi apenas portuguesa, mas africana e indígena entre outras... logo, evidencia-se uma identidade própria do povo que passou a formar esta nação.
Nesse jogo, que diria fortemente político, oscilamos desde aquela época até hoje, pelo menos entre três formações discursivas: aqueles que se decidiram por uma língua brasileira, os que entendiam ser certo uma língua padrão portuguesa e a “formação discursiva jurídica” que se decidiu pela língua legitimada, a língua portuguesa. Em conseqüência, sempre transitamos pendularmente entre uma língua intocável, recebida como legado de Portugal à qual o fato de incorporar nossa própria forma de expressão, poderia ser considerada uma heresia, e uma língua nossa de cada dia, que expressa o sentir do povo brasileiro, sua forma de estar no mundo e de se relacionar, a língua brasileira, que muito bem o representa. Em sendo assim, teríamos uma “língua fluida”, o brasileiro, que usaríamos no cotidiano, embora impregnada das formas africana e indígena para nos expressar e sentir, e uma língua com nuances de imaginário, de longitudes (o português), outorgada, desvinculada do nosso contexto, portanto, que não expressaria nosso sentir, uma vez que não incorporaria nossa identidade, especialmente em relação às nossas vivências na atualidade, cujas influências vimos nos preocupando cada vez mais em conhecer com profundidade.
Em 1826 o deputado José Clemente apresentou um projeto para que os diplomas dos médicos brasileiros tivessem sua redação em “língua brasileira”. Em 1870 registrou-se uma polêmica entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, em que o primeiro defendeu nossa autonomia e direito de respeito às diferenças, e o segundo argumentava defendendo o legado português. Já em 1927 foi aprovada uma lei para que os professores ensinassem a gramática nacional do Brasil, realidade que permaneceu até agora. Mais uma vez, em 2007, o assunto volta à ribalta, com a possível aprovação de uma lei de unificação gramatical, sem abertura de discussões com a sociedade, principalmente os educadores, ferindo as liberdades dos dois povos, uma vez que ambos teriam mudanças impositivas. Apesar de ter parecido que seria usado o bom senso, isso não ocorreu e a imposição de mais uma lei mudou definitivamente (?) a nossa vida, sem que tenhamos sido consultados; Portugal, finalmente, decide assinar o acordo e cabendo ao Brasil aceitá-lo, porque duas ou três cabeças assim o entenderam, já que está claro que o povo, constituinte principal de uma nação, não!...
Meu posicionamento, que não implica em nenhuma retaliação ou restrição cultural ou de nenhuma outra espécie, é que deveria ser preservada a identidade íntima de todos os povos que no passado foram considerados colônias do estado português, uma vez que todos têm sua própria cultura, portanto uma identidade anterior a esse período, cuja forma mais forte se faz presente através da língua e, tomando a Semiótica como referência, sendo uma representação das formas intrínsecas de sentir e pensar, mesmo tendo valores alienígenas a elas incorporados.
Entendo que essa imposição quanto à preservação de um legado outorgado no passado já não se explica, já não tem sentido algum, a não ser que ainda seja entendido algum poder imaginário sobre ex-colônias ou um pacto de interesses puramente político de ambos, até perante a comunidade européia, quem sabe?... Inclusive, poderia tomar como referência o fato de haver um tratado de apoio mútuo entre países lusófonos, que não se faz presente em suas trajetórias na contemporaneidade; nenhuma ação efetiva nesse sentido é percebida nas realidades vividas por cada um, que se possa entender como interesse de preservação ou proteção de identidades culturais anteriores. O estado português argumenta que a língua portuguesa é um patrimônio “seu” que precisa ser preservado; quanto à essa questão, haveria de se avaliar qual o sentido de nossa participação e quais interesses reais servem como urdidura nesse texto da nossa vida, enquanto povo livre. Pode ser um patrimônio seu, mas, uma vez legado como herança, embora por outorga, este é um símbolo de identidade nacional brasileira também – salvaguardada essa identidade em suas formas de expressão _; portanto, um patrimônio de todos os brasileiros e um dos símbolos nacionais, como a nossa bandeira, a nossa geografia, a Natureza tão especial, incluindo-se a Floresta Amazônica, etc. que nem são tão respeitados...

terça-feira, julho 05, 2011

Coréia do Sul, sempre na vanguarda... (guacira maciel)


Li ontem (4/7/2011), que a Coréia do Sul pretende substituir todos os livros didáticos por versões digitais até 2015. Temos ai um pais que está sempre dando exemplo de vontade política nos investimentos em Educação, por considerar que este é o único caminho para o desenvolvimento de uma nação. Não devemos esquecer que em 1960 a Coréia do Sul tinha uma renda per capta de 900 dólares/ano, metade da praticada no Brasil, e ainda carregava todas as consequências e traumas de uma guerra civil que lhe dizimou a população e arruinou a economia; em 50 anos tornou-se um país desenvolvido, com uma renda que cresceu absurdamente (US$ 30.000 em 2010), permitindo à população alto padrão de vida, e erradicou o analfabetismo, com amplo acesso dos jovens à universidade. Quanto ao alto índice que analfabetismo, como forma de superação desse índice, introduziu uma reforma educacional, investindo maciçamente na Educação da população, incluindo a leitura como quesito fundamental do ensino de alto nível. As Empresas, Fundações e as Famílias se aliaram ao projeto, merecendo registrar que uma das maiores redes com fins educacionais, chama-se Crianças e Bibliotecas. O país hoje está na liderança na aferição do Programa Internacional de Avaliação de Alunos.
Quando se falar em reformas, há que se pensar em atacar os problemas fundamentais da Educação, e a leitura se constitui um dos mais importantes...Sem livros e leitura não há povo educado (neste momento não vou aprofundar a questão...). Voltemos à notícia referida no início do texto.

A proposta é muito interessante, porque, além de preservar a Natureza ao economizar papel na impressão de livros didáticos, que lá não tem uma vida util tão fugaz, uma vez que reformas e mudanças de paradigmas são feitos com muito critério pensando-se no coletivo e no futuro do país, também não são as Editoras que ditam as ordens quanto ao que deve ser adotado pelas escolas e muito menos o mercado livreiro...Outro ponto interessante é o acesso irrestrito de toda a população estudantil (neste caso) à tecnologia, se sabemos que aqueles que não a utilizam estão, sumariamente excluídos do acesso ao conhecimento, ao trabalho, ao mundo contemporâneo sob todos os aspectos. Como desdobramento deste, os alunos também têm acesso livre e irrestrito aos livros, mesmo fora dos espaços escolares.

O processo é simples: o governo adquire (cria) uma nuvem, e os interessados usarão os livros através de telas digitais dos tablets ou notebooks, equipamentos que oferecem recursos de ultima geração; essa possibilidade também trará como resultado altamente positivo, o aumento do interesse pelos estudos e pela pesquisa, e ainda torna o ambiente de aprendizagem e a escola atrativos e interessantes...

PS. Considero necessário uma complementação para maior compreensão de alguns: amplamente, computação em nuvem é um processo de utilização e armazenamento da memória e capacidade de armazenamento em serviços que podem ser acessados em qualquer parte do mundo, dispensando a instalação de um programa no computador particular; trata-se de um arquivo remoto ao qual se tem acesso através da Internet. Sendo necessário compatibilidade com os recursos da Internet, o que torna o PC apenas um chip a ela ligado. Entretanto, esse sistema amplia os riscos de invasão do sigilo e da privacidade, para os casos em que os conteúdos da nuvem os exijam; mas não para o uso didático/pedagógico, a não ser pesquisa, creio...















sexta-feira, julho 01, 2011

Negra fateira (guacira maciel)

Negras fateiras ou negras de ganho... Negros de ganho, pois não foram apenas as mulheres que passaram a exercer esta função na sociedade colonial brasileira; os próprios donos de escravos os utilizavam para vender variadas mercadorias, com o objetivo de aumentar a sua renda, obrigando-os a dividir os lucros auferidos. Ou então os negros que, após a "abolição", se viram sem nenhuma alternativa de sobrevivência, e buscaram ganhar a vida vendendo algumas dessas mercadorias baratas, de porta em porta ou em tabuleiros nas ruas...Quanto às negras fateiras (também não eram apenas mulheres), no caso especificado aqui no poema, foram mulheres que, não tendo como se sustentar nem à seus filhos, começaram a pedir nos abatedouros as vísceras dos animais, que eram descartadas, uma vez que não compunham o cardápio da mesa dos brancos e ou ricos, fazendo com elas deliciosas iguarias.A partir daí, o sarapatel, a buchada, o xixim de bofe, meninico, fatada, entre outros, passaram a compor a nossa culinária, e também a serem incluídos no cardápio das casas senhoriais por causa do seu sabor que, embora exótico, foi considerado delicioso.




De princesa
tornou-se escrava e fateira
altiva
elegante
negra bonita
negra brejeira
no seu tabuleiro
de tanta iguaria
sarapatel
mugunzá
fatada
abará
na saia rodada
tem barra de renda
na blusa
musselina fininha
e nos dedos dos pés
ela tem sandalinha
no braço e pescoço
tem prata tem ouro
e o sol do estanho
o doutor alemão
encantado dizia
não há riqueza de formas
como a da negra da Bahia
orgulho nagô
do reino de keto
escrava ou liberta
negra fateira
negra de ganho
negra bonita
negra brejeira.

Obs. O poema baseia-se em textos de Robert Ave-Lallemant e Jean-Baptiste Debret.