Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, junho 09, 2011

Você ausente...poema a quatro mãos I (guacira maciel/ele)


Fui caminhar
às quatro horas da manhã...
tinha a alma confusa
pesada ...
a visão do mar na madrugada
assemelhava-se a um infinito
e brando lago
calmo
como muitas vezes vejo você
adormecida em paz ao meu lado...
naquele momento sentí-me um rio
que silenciosamente
cumprindo o ritual da natureza
adentrava na enchente
de você
mar
tornando-me vazante...
em sua languidez
nenhuma reação vi esboçada ...
e recebeu o seu côncavo
as minhas águas límpidas
em suas águas
e tinha eu a terra pra lhe dar...
mas você
num vai e vem se aconchegava
impregnando com seu sal
meus efluentes
que ali purificava
e os braços desse mar
como útero úmido e quente
me embalavam na corrente
como em rede
menino
eu balançava ...
e sendo rio
enchi
vazei
e amei você ali
ausente
naquela madrugada...

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