Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, junho 21, 2011

Sonho de perfeição... (guacira maciel)

Estamos falando da obra de Ítalo Calvino: “As cidades Invisíveis"; trata-se de uma série de diálogos fantásticos como só ele poderia engendrar em sua genialidade. A obra serve de pano de fundo em que ficam evidentes os valores que Calvino considerou fundamentais à sobrevivência da Literatura.
A exemplo de Platão em sua “República”, de certa forma, Kublai Khan também sonhou com o império perfeito, que Marco Pólo, no século 13, lhe acena através dos seus relatos.
Kublai Khan foi Imperador dos Tártaros e viveu em Cambaluc, a atual Pequim, onde o jovem mercador veneziano teria vivido por 17 anos. Como o nosso Imperador não conhecia a grandiosidade dos seus domínios, usava-o como uma extensão dos seus olhos; assim, Marco Pólo sai em uma fantástica aventura para conhecer cada pedaço daquele império, e após cada regresso os dois travavam longos diálogos, quando o imperador ouvia os fantasiosos relatos do seu jovem embaixador, com muito mais atenção do que dedicava a qualquer outro dos seus enviados; fala-se inclusive, em analogia com os contos da "Mil e Uma Noites". Kublai Khan era fascinado com o próprio poder...As cidades inventadas sobrevivem em uma surrealidade onde não existem linhas divisórias entre o real e o imaginário; “as cidades e a memória; as cidades e o céu; as cidades e os mortos; as cidades delgadas e as cidades e as trocas”, eram lugares imaginários; e todas tinham nome de mulher: Cecília, Pentesileia, Leônia... O aventureiro, na pele de Marco Pólo, lhe acenava através dos relatos, com a possibilidade de algo novo, algo ainda por conquistar, tirando o poderoso Imperador da angústia, da melancolia e do tédio que o abate, após acumular tudo o que o poder tornou possível. As cidades, como um sonho, mostram a crueza da realidade jamais imaginada, trazidas pela juventude, cujos desejos já nada mais são que recordações, como as folhas amarelas do diário esquecido.
Para os ‘grandes’ estadistas, governantes, ou algo que se assemelhe em poder, chega aquele momento em que a melancolia e o tédio abatem inexoravelmente – ao menos em seu recolhimento - sobrepondo-se ao orgulho do conquistador; aquele momento em que imaginam já ter tudo o que desejaram até ali. Então, percebem-se desoladamente sós, perdidos e incapazes de reencontrar o sentimento, a gana da conquista e a energia que os moveram até o que pensavam ser a realização. E agora? O que representavam todas as conquistas?

Nos sonhos, os desejos nos têm em pleno vigor e nada mais são que uma das inúmeras possibilidades só acessíveis ali; naquele momento e de alguma forma, agora só restava ao homem poderoso a aridez da imensidão que a luz crua e fria faz cerrar os olhos e deixar que se vão. E então, no espaço existente entre um e outro; entre o sim e o não, entre o real e o sonho; o passado e o presente, a extensão entre a sombra e o poste que segura o lampião; entre a envergadura das pernas e o salto possível, percebe a chegada da impossibilidade e o tédio se aloja desavergonhadamente, de forma inexorável e compulsória...
Todas as cidades vão mostrando a dura realidade jamais imaginada na pele da "deusa" juventude; a nostalgia à qual nos remete a madureza, cujas possibilidades e desejos já não são mais que recordações... é como o papel amarrotado onde fora deixado o poema de amor do passado. A vida das "cidades e a memória", sem passado, sem história, sem ética, sem perdão, está impregnada das ausências que gostaríamos de poder entender, que gostaríamos de poder alcançar e já não será possível. Assim, nos apegamos aos leves e quase inaudíveis ecos entre os dois tempos, talvez esquecendo que, uma vez perdido, precisamos buscar entender o presente e o que poderá ainda ser possível fazer com ele, ou fazer dele em nós, para trazer à vida um pouco mais de encanto, e novas buscas, que a tornarão digna de ser vivida. Porque o que não deixou algum sinal remoto da sua existência, de fato não parece ter existido. As cidades descritas por Marco Pólo estão impregnadas de vida, de emoções; elas são a sua alma, e para Kublai Khan são como páginas de um diário onde se lê a sua própria existência. Porém, há uma incapacidade de anulação total das memórias remotas; como um déjà vu nas noites insones ou mesmo nos sonhos, percebe-se o homem incapaz do total esquecimento, e então ele passa a viver através de imagens, sob novas perspectivas, como uma invocação e, por isso, a necessidade de retorno.
Todas essas recordações do passado trazem e deixam seus símbolos, suas marcas como pegadas e eles passam de forma subliminar a representá-las, como uma dança do imaginário. Aquele aventureiro lhe acena, através de relatos, com a possibilidade de algo novo, algo ainda por conquistar, tirando-o da angústia, da melancolia e do tédio que o abatem, mesmo que só permitidos por alguns momentos...

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