Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, junho 13, 2011

A Propósito...(guacira maciel)

...por falar em discriminação, creio pertinente ir trazendo, nos entremeios desta reflexão, algumas informações para complementar o que vimos falando sobre "Direitos Humanos".

A África, como a Ásia, só era visível nos livros didáticos até agora (vislumbra-se já alguma mudança), como cenário da expansão européia e não como uma cultura possuidora de historicidade própria. A partir daí, desaparece, como o próprio negro desaparece das propostas de educação, da vida e da história do Brasil, exceto no contexto da escravatura. Aliás, como disse o filósofo alemão, Friedrich Hegel (1770-1831), a “ África não faz parte da história do mundo (...) não havendo ali mais que casualidades, surpresas , sem um fim e nenhuma subjetividade” e o historiador Charles André Julien (1890-1970), a “África negra não tem história”. Observe-se que só considerando esses dois pensadores, em que pese o espaço entre morte de um e nascimento do outro, são dois séculos de negação da África, sua cultura e história (só para ilustrar essa negação; existem afirmações piores).
Negar ou mesmo ignorar a fundamental presença do negro e sua cultura na constituição do povo brasileiro, não como apêndice, é, certamente, um grave sintoma apresentado por uma sociedade doente, até porque a partir de 1500, passamos a ser resultado dessa presença tripartite, que continuou a se desenvolver numa ambientação própria. Segundo Esther Grossi, doutora em Psicogênese, “ reprimir ou negar certas partes significativas do nosso passado nos faz enfermos ou menos gente”.
Ora, o que levaria, a nós, brasileiros, a negar o que somos? Acredito em algumas hipóteses prováveis, entre as quais: a história ancestral que nos foi legada, que se configura uma nódua e que teria duas origens: a barbárie no tratamento ao negro aqui escravizado, e mesmo, o extermínio de grande contingente da sua população (não esqueçamos que entre outras formas de maus tratos, o dono de escravo no Brasil, lhe proporcionava vida tão miserável (sobre isto, mais adiante analisaremos o que disse Freyre sobre relações amigáveis... ), que em alguns casos não ultrapassavam nem 12 anos de trabalho) e mesmo assim sua aquisição proporcionava lucro em relação ao custo/beneficio; e outra por sua exclusão na formação do Estado Brasileiro, quando se consolidou, segundo Ubiratan Castro Araújo (Fundação Cultural Palmares), “um império brasileiro escravista”, em que os negros, derrotados, viram fracassar a possibilidade de construir sua identidade como cidadãos brasileiros, pela valorização de sua história e cultura.

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