Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, maio 20, 2011

Envolvimento com a Arte..(fragmento do meu livro: "A Importância da Arte na Aprendizagem). Para comprar, acesse www.clubedeautores.com.br

Embora, a priori, não seja possível determinar causas para o nosso envolvimento com a arte, me pergunto o que explicaria a necessidade da busca por vivenciar uma experiência artística em nossa vida. Me pergunto se refletimos acerca de reações diante de realidades que não são as nossas, e que nos são trazidas por essas experiências; por que nos divertimos (se o fazemos) com as questões da vida dos outros, através da arte (cinema, teatro, dança, literatura...)? se a análise for feita pensando-se em usar essa vivência como uma válvula de escape, por entendermos ser a nossa própria vida sem graça, pobre em emoções e experiências interessantes, em comparação com aquelas cheias de emoções e experiências que não implicam em riscos, a pergunta muda de foco. Então, a nossa própria vida não nos satisfaz? em sendo assim, sentimos necessidade de completá-la com possibilidades irreais? seria a busca da completude que nos faz falta? será que o fato de ter que fazer a opção por uma dimensão individual traz essa insatisfação, permanecendo a sensação de ausência? será que precisamos ser mais que apenas o ‘eu’ pelo qual optamos? haveria angústia na solidão desse ‘eu’? nos sentiríamos aprisionados e limitados a essa escolha, e buscamos ampliá-la através de uma espécie de alteridade? haveria um sentimento inconsciente de que a Arte poderia socializar nosso ‘eu’, oferecendo-lhe uma existência coletiva?
Neste caso, qual seria, verdadeiramente, a natureza do homem? imagino que não temos a necessária compreensão da amplitude dessa natureza. Talvez isso explique por que buscamos na arte a possibilidade de um homem coletivo e menos solitário. Essa busca poderia admitir que o homem se sente parte da totalidade (homem coletivo) que a humanidade representa, pela possibilidade de ser um com esse todo, ou o homem completo, remetendo-nos à visão algo mitológica da busca da totalidade perdida, da sua outra metade? seria esta, também, função da arte? em sendo assim, seria ela uma oportunidade de libertação de uma vida que o subjuga e submete, podendo transformar-se numa espécie de redenção do observador, pela representação dessa realidade?
Voltamos, então, à questão fundamental de que existe forte envolvimento da razão no trabalho do artista, como forma, inclusive, de controlar a realidade e não, de um fenômeno delirante de pura imaginação. Entendo que a arte tem, além da função de busca e exposição do eu pela representação, uma função libertadora; ao se identificar com uma realidade fictícia o sujeito consegue se libertar da sua própria através dela, uma liberação, como se os laços do ‘eu’ único se afrouxassem (ver reflexão sobre o trabalho do Aleijadinho mais adiante - no livro...).
Sendo o receptor o destinatário de uma mensagem contida em qualquer texto, será ele quem dará o sentido à mensagem (produtor de sentido), como entendo que faça sentido o que me proponho aqui; ainda que possa essa relação (receptor-produtor) ser entendida como fragmentada, não percebo como considerar uma possibilidade de autonomia nessa relação.
Por trás dessa relação (receptor-produtor de sentidos) subjazem, alem da subjetividade, elementos sócio culturais que o sujeito (receptor) vivencia, porque ele está engajado nesse contexto de multiculturalidade, de diferenças e convergências culturais, tanto em suas raízes, como em relação ao seu objeto, com uma lógica e uma filosofia a elas inerentes, e não como um elemento isolado, marginal. Aqui poderia citar vários exemplos de autores: a poética de Neruda inclui a “crise democrática do Chile”; Shakespeare retrata em sua obra as questões sociais e os dilemas de sua época, desde a discriminação em relação ao artista; Fernando Pessoa nos oferece como “resposta e estímulo à abulia e estagnação do Portugal seu contemporâneo, o fulgor de uma chama pretérita", em “Mensagem”; a própria “Pasárgada”, de Manuel Bandeira...
Quando o receptor elabora um sentido para a mensagem que recebe, ele é, apenas, um dos representados, porque pleno de outros sujeitos dos contextos, social, cultural, familiar, com os quais se relaciona, e que também interferem nessa construção de forma subliminar. Esta não é uma relação isolada em dois; ela traz em si uma infinidade de outros sentidos, mesmo que não explicitados naquele momento, e ainda com a possibilidade de representar outros ‘eus’ pessoais, no âmbito das ausências presentes, que escapolem da opção primordial por uma única identidade, inevidentes até para ele mesmo naquele momento. Isso se constitui um fenômeno.

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