Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, maio 06, 2011

Bueiros....(do Rio de Janeiro)

Obs. Esta crônica foi escrita como exercício para um curso de Literatura (na casa da Leitura - Rio de Janeiro), sobre a linguagem das ruas.

Essas bocas grafite que se estendem como tapetes, ameaçadores à passagem dos pedestres, pelas ruas do Rio, passaram a ser um mistério e uma ameaça para mim em sua revolta inumana.
Saio de casa tranquilamente, com intenção de ignorá-los, fingindo que posso conviver com sua presença e que nada representam, a não ser, mesmo, diferentes formas de pavimentação, por uma simples questão técnica trazida pelo progresso e inevitável ao nosso conforto.
Busco observar com naturalidade os belos prédios do bairro de Laranjeiras no meu percurso, cujo antigo paradigma da engenharia civil dotou de características robustas que me induzem a sentir uma imóvel e plástica segurança. Para me cercar da necessária paz, procuro com o olhar a verde placidez dos seus jardins e a delicada beleza do seu antigo traçado; nas atitudes das pessoas ao meu redor, alguma cumplicidade que me assegure fazer os necessários percursos sem essa inquietude que me assalta tão logo e inesperadamente esbarro com aquela muda presença.
Olham-me com uma espécie de desdém se lhes piso acidental, embora tão delicadamente quanto possível, com a ponta dos pés, aos saltos, tentando não ser notada. Naquele exato momento sinto o coração palpitar, pela simples possibilidade de que resolvam manifestar sua indignação, mas não percebo nenhum sinal de que isso tenha ocorrido...
Agora livre, volto a observar o traçado dos diminutos jardins daqueles belos prédios, e uma sensação de alívio invade meu peito, pela certeza de ter escapado, daquela vez...
Embora se configure uma vingança para mim a tentativa de pisar-lhes a altiva e traiçoeira presença, temo-os.
_ Por que me ameaçam? Por que sua fria e lúgubre presença sempre me dá a sensação de perigo iminente?
_ Não tenho esta resposta; estou no meu lugar... cumpro o meu papel em relação à vida desta cidade.
_ Concordo...mas por que expõe a sua náusea em rubras labaredas que ferem as pessoas que nela vivem, e por quem crê ter alguma responsabilidade? Não lhe parece crueldade?
_ Não é assim que percebo; cada um representa suas fragilidades da forma que lhe é possível. Como poderia me fazer ouvir, tem uma sugestão?
_ No seu caso, infelizmente, não. Ou melhor... não poderia entrar em pane, parar de funcionar como fazem os corações humanos quando sentem suas artérias obstruídas, castigadas, sem que lhes ouçamos os queixumes anteriores?
_ Isso funcionaria no meu caso?
_ Se entende sua orgulhosa presença e funcionalidade tão fundamentais à vida desta cidade, sim...
_ Mas o descaso dos seres humanos por aquilo que não lhes afeta pessoal e materialmente de forma imediata, me confunde.
_ Ah!...apesar da arrogância, não sabe a fundamental importância da sua própria existência; onde foi parar sua noção de identidade.?..Isso é auto estima baixa! Risos... Entretanto, vou lhe dar uma preciosa dica: estamos no inverno e, particularmente neste mês de agosto, com temperaturas tão baixas...acha que as pessoas gostariam de tomar banho frio?
_ Bem...talvez o que diz faça sentido. A partir deste raciocínio, sim...vou pensar em outra possibilidade de demonstrar a minha indignação pela precária manutenção e o descaso pela situação de funcionamento, sempre emergencial, em que se encontram as artérias que correm subterrâneas neste complexo organismo, que se configura esta cidade ...
_ Que bom; então, a partir de agora poderei caminhar mais tranquila, sem temer seu comportamento explosivo atrás de cada esquina?
_ Peraí...eu ainda me encontro em péssima situação de saúde...nada posso lhe prometer, enquanto as necessárias ações preventivas não forem desencadeadas...é muito tempo sem ser atendido, sem ser entendido o meu importante papel e o processo de desgaste desse complexo organismo que represento. Até porque, a minha existência resulta do seu tão buscado progresso, que traz profundas consequências para a vida de todos, se não encarado com a devida responsabilidade e compromisso...
_ Hummm... já sei...já sei... sem lição de moral, hein? Não tripudia...
_ rsss...você me provocou...

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