Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, maio 14, 2011

Agonia (guacira maciel).


Criar é como gestar; como parir... às vezes são horas em agonia, na ambiguidade... Gestar, como criar, é ruminar e expor uma imensa interrogação e assim, encontro-me só. Não se gesta, como não se cria, com os outros; esse é um estar solitário. Essa é uma agonia íntima. E assim, encontro-me só. Inquieta, angustiada, sufocada; em vias de implodir os meus limites.
Estou tão prenhe, que esse chega a ser um estar físico. Doe-me o peito, a cabeça, as pernas, os braços e a coluna; mas, principalmente, doe-me a alma. Sou inteira um imenso ventre distendido, reluzente, pesado, atingido por dores imprecisas, difusas, mas profundas; já quase incapaz de suportar o que contém.
É muito difícil falar daquela menina, que teimosamente ainda sobrevive aos sofrimentos causados pelas perdas, pelos sonhos que acabaram nada; pelos abandonos, solidão, pelo que não aconteceu... como se não fosse eu mesma. Engraçado... por alguma razão acabo de lembrar daquele enorme jipe sobre o qual o motorista do ônibus das 6:45 falou: uma carroceria grande e pesada, arrastada por um motor 1.6 de potência. Eu sou o contrário: um motor 4.4 numa carroceria de fusca...
E volto àquela menina perdida, absorta, pensando que não há nada mais bonito que as grossas raízes de uma árvore secular, ou uma árvore não tão velha, mas com iguais raízes, plantadas no jardim de certa casa de varanda alta da sua adolescência...

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