Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, abril 14, 2011

O olhar: de Capitu a Mona Lisa (guacira maciel)

Há poucos dias estive pensando na capacidade de sedução contida no olhar das pessoas, não apenas da mulher, claro! a sedução que um olhar pode suscitar é muito subjetiva e se constitui uma arma poderosa, inclusive pela possibilidade de ser essa sedução desencadeada pelas emoções de quem observa um olhar e não, necessariamente, pelas emoções do dono do olhar em questão. Daí comecei a pensar em Capitu, por ser um ícone que tão bem representa a questão, e por várias vezes tentei escrever sobre o assunto, embora um pouco indecisa por ser ela a mulher mais famosa da obra de Machado de Assis e a mais polêmica da Literatura Brasileira; assim, tantas outras vezes desisti. Nessa divagação, pensei em outras mulheres sedutoras e me veio fortemente à cabeça a Mona Lisa... As duas me causam admiração e me intrigam, embora a enigmática Mona Lisa não tenha inspirado discussão em todo o mundo através dos tempos por causa do olhar, mas a mim, sim. Em relação à Capitu, mesmo sendo um assunto muito rico e oferecer inúmeros caminhos de interpretação, por já ter sido muito discutido, poderia parecer que já nada se teria a dizer sobre ele. Entretanto, estou aqui; ele me instiga, me atrai, me seduz. Talvez porque minha filha esteja fazendo uma pesquisa para sua monografia sobre os processos de divórcio na República Velha, situados num determinado período na cidade de Salvador, que tem mulher como foco principal. Assim, após refletir muito sobre o assunto, voltei a me interessar sobre determinados aspectos acerca da trajetória das mulheres na sociedade brasileira (a Gioconda é uma divagação), embora restringindo um pouco para o foco que me interessa aqui.Como sempre, não pretendo provar nada; nem a inocência nem a culpa de Capitu, embora este tenha sido, talvez, o mais forte elemento que desencadeou toda essa polêmica, mesmo que o cerne da questão na obra devesse ter sido o ciúme - alguns autores, homens, juram de pés juntos que ela traiu o marido - por ter sido um marco na mudança de comportamento da mulher, que passa daquele ser que quase sempre não tinha oportunidade nem direito de escolha, para uma mulher mais independente, consciente, e até transgressora. Mesmo porque, trata-se de uma obra de ficção que já foi escrita, não sendo possível mudar nada, restando a todos apenas esse bate-boca: traiu, não traiu... Ainda que a maioria dos homens afirme ter havido traição e ainda que o próprio Bentinho não tenha conseguido convencer disso aos que leram Dom Casmurro, já que nem ele mesmo teve essa certeza. Embora o que pretenda dizer aqui possa conter uma pitada de “nonsense”, como de resto em tudo o que escrevo, procurarei ser o mais razoável e específica possível, porque o meu objetivo é trazer à luz uma discussão muito maior e mais grave: a sensualidade feminina como um pressuposto para a culpa, a traição, o pecado, a sedução intencional, com um determinismo desrespeitoso e injusto. É preciso que se reflita acerca do fato de que essa questão é sempre analisada sob o ponto de vista masculino, e até policial; é o olhar dos homens postos sobre as atitudes e o estar feminino no mundo em todos os tempos, ou seja, o universo dela, tão pleno de subjetividades, mitos, dores e desejos absolutamente pertinentes à sua condição e gênero, numa tentativa de imputar-lhe uma culpa que não lhe cabe como premissa. Aliás, muito poucas mulheres, ainda, têm consciência ou a isso se referem, salvo em ambientes e momentos específicos. Não estou trazendo à reflexão nenhuma novidade, mas também não se trata de uma discussão vazia. Temos uma experiência recorrente de que qualquer acontecimento, tanto no mundo real como na representação, seja de estupro, de traição masculina, ou qualquer outra atitude, ou crime, ou ato considerado menos digno, menos ortodoxo, em que a mulher esteja envolvida, principalmente se é uma mulher bela e/ou sedutora, a culpa é, invariavelmente, dela; o mito da Eva maliciosa que tenta e leva o ingênuo e inocente Adão ao erro, ao crime, ao pecado, ou seja lá ao que for. Mary Del Priore, em sua obra “História do Amor no Brasil”, analisa referências como esta: “Sendo a mulher um agente de satã, toda a sexualidade feminina podia prestar-se à feitiçaria. Seu corpo, ungido pelo mal, tornava-se o território de intenções malignas”. Isso me trouxe interessantes subsídios para a questão que analiso aqui. Aliado ao que já foi dito, no caso de Capitu, sabemos que não lhe foi permitido uma única oportunidade de falar; Bentinho foi o único que pode dizer sua verdade, ou o que achava que o fosse, com a visão distorcida pelo ciúme doentio que sentia; só não sei se da esposa ou do amigo. Quem nos poderia dizer se, pelo fato da criação que teve (predestinado a ir para o convento por causa de uma promessa da mãe), a época e os tabus quanto a outras opções sexuais, ele não teria criado esse suposto adultério da esposa para encobrir a atração que sentia por Escobar? (Aliás, Millor Fernandes já expressou suspeita neste sentido). Neste caso, a “dissimulada” Capitu com seus “olhos de ressaca” era o álibi perfeito para esconder sentimentos culposos perante si mesmo. E mais, sabe-se que quando escreveu a obra, Bentinho já estava avançado em anos, solitário, arredio, tendo a prerrogativa de trazer todos os episódios à sua maneira, de forma potencialmente distorcida e intrigante; nada lhe escapa para indispor o leitor com sua mulher. Desde que tomou a decisão, ele sempre mostra, insistentemente, uma Capitu maldosa, “dissimulada”, e vem minando a mente do leitor até chegar à condenação. E mais, a forma repetitiva como fala dessa personalidade que lhe impôs é obviamente intencional; se configura uma técnica similar à utilizada na neurolinguística, em que se consegue mudar padrões mentais através da repetição para o novo foco que se quer considerar. Será que Capitu realmente é um personagem ambíguo, ou a genialidade de Machado nos encaminha pelas mãos de Bentinho (o próprio caminho) para uma interessante análise da personalidade arquetípica masculina? Uma oportunidade de percebermos nesses comportamentos masculinos, em relação à mulher, um misto de insegurança, recalque, (machismo), sexualidade mal resolvida, ciúme paranóico, medo...e cá pra nós, o que Bentinho sentia era medo daquela mulher que ele nunca se dispôs a conhecer; seria ela, mesmo, um enigma para ele também, ou a representação (e rejeição) do seu próprio e desconhecido lado feminino? Será que fomos ‘usados’ sem nos apercebermos disto? Pelo menos enquanto não se estabeleceu esse clima de polêmica, uma vez que até oito anos após a publicação da obra nada foi contestado em relação à traição? Reforçando a questão da culpa feminina no imaginário das pessoas, incluindo-se o da própria mulher, já que elas acusam umas às outras, percebe-se uma espécie de culpa implícita, que eu chamaria de culpa/gênese, ancestre e que, usando o mesmo vocábulo para ampliar a análise, perverte, distorce e corrompe o estar feminino em sua beleza, sutileza e suavidade, próprios da sua natureza. Quanto à Mona Lisa, em outro contexto poder-se-ia também considerá-la uma mulher cujo olhar teria implícita uma dose de sensualidade, uma sedução que pudesse ser avaliada como ‘nociva’? E se, ao invés de uma pintura, o autor a tivesse criado mais próxima da realidade da dinâmica da vida, através de um romance, conhecendo-a melhor, se falaria apenas do seu sorriso? Mas, e seu olhar? Para mim, o olhar da mulher retratada é muito mais eloquente que o tão discutido enigma do sorriso. Um sorriso sobre o qual também muito também já se falou, discutiu e escreveu, tentando decifrá-lo. Parece que há uma intenção em estimular o imaginário das pessoas e preservá-lo como uma incógnita; haveria uma tentativa de conservar o mistério e valorizar ainda mais a obra, despertando a curiosidade das pessoas e incutindo em suas cabeças certa dificuldade em decifrá-lo? A técnica da repetição estaria funcionando aqui, como funcionou em relação à Capitu? Com que intenção se poderia ter criado tal polêmica? Segundo Ernst Gombrish, "descrições podem tornar-se aderentes... Interessante pensamento me ocorreu aqui; existe muita discussão acerca de quem seria Beatriz, o discutido amor de Dante Alighieri, e muitas hipóteses foram propostas sobre o assunto. Baseando-me nessa referência tentarei explicar a minha teimosia em fazer essa analogia entre o olhar e o sorriso da Mona Lisa sendo, no caso em questão, o seu sorriso um prolongamento da eloquência do olhar (meu personagem principal); o sorriso estimula a busca do que poderia estar sendo dito pelo olhar. Assim, me reportei a Dante como uma forma que pudesse me ajudar a explicar a minha percepção. Em Convívio, III, XV: “[...] convém saber que por olhos da Sabedoria são as suas demonstrações, com as quais se vê certeiramente a verdade; nas quais se demonstra a luz interior da sabedoria sobre algum velamento” Segundo alguns autores, para o poeta/filósofo a mulher formosa seria a Filosofia (Beatriz): seu riso a persuasão e seus olhos a demonstração. Quer dizer, os olhos dizem, veladamente, e o sorriso persuade a existência de algo a ser dito numa eloquência velada; são muitas interrogações... Existem muitas dúvidas em relação à identidade da modelo que pousou para a obra. Podendo ser Lisa Gerardini, a mulher de Francesco Del Giocondo, um cavalheiro florentino; este nome em italiano significaria mulher alegre (em que sentido?). Qual a relação entre os dois? Quanto da mulher real existe no sorriso e no olhar da Mona Lisa? Freud também se manifestou, dizendo que naquele sorriso Leonardo estaria evidenciando uma manifestação de erotismo em relação à própria mãe, uma vez que há a hipótese de que a obra seja um auto retrato. Ah!... Neste caso, não seria aquele olhar muito mais significativo; aquele olhar de “decifra-me ou devoro-te”, que se configura nada mais que um olhar de desafio, de galhofa, de zombaria por saber que enganaria tantas gerações em todo o mundo, que punham o foco no significado do sorriso - quando o olhar fala muito mais - sem que o fato fosse, sequer, questionado? Assim se desfaria um grande mito e as pessoas poderiam dizer que, afinal, aquele sorriso não era lá tão inexplicável assim, nos levando à confirmação de que muitas determinantes na sedução poderiam se originar nas emoções de quem se vê seduzido e não de quem é avaliado como o sedutor, o que se configura a minha indagação aqui...

2 comentários:

Equilibrista disse...

Olá Guacira,

Retribuo a gentileza, afinal, você passou pelo meu Blog e tive vontade de saber quem era você. Parabéns pelos seus textos, certamente, muito mais densos e consistentes que os meu. A Mona Lisa nunca me fascinou, mas sempre gostei de Capitu. Aliás, adorava, na adolescência, quando um amigo me chamava "Capitu" e dizia que eu tinha um olhar dissimulado.
Um abraço.
Ana Maria

Guacira Maciel disse...

Querida, obrigada.

Gostei muito do que li no seu blogue; apenas são perspectivas diferentes.
Volta sempre que desejar para me fazer uma visitinha.
Guacira.