Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, janeiro 28, 2011

Qual é a nossa história, afinal?

Continuando...
E antes de entrar na “Inconfidência Mineira” como planejado, gostaria de, reforçando/ilustrando alguns momentos dessa história aqui mencionados, trazer à cena algumas joias – doravante, quando necessário, continuarei a fazê-lo -. Nessa perspectiva, isso me ocorreu em consequência de mais uma leitura de “Meu querido canibal”, de Antônio Torres. Sabemos que a cada nova leitura que fazemos de uma obra, novas percepções são possíveis, porque também nós mudamos a cada amanhecer...visto que as experiências de cada dia abrem outras nuances de realidades possíveis, e passíveis de análise.
O que se evidenciará sucintamente aqui, como um prolongamento do texto anterior, acerca da 'colonização', é a compreensão do ponto de vista do vencedor, portanto, tendenciosa, resultando em uma história imaginada e estabelecida por ele, reforçando o que venho dizendo. Porém, as fronteiras dessa história estão povoadas de versões das minorias invisíveis, das assombrações, dos fantasmas que amedrontam, não significando, porém, que não existam, mas que tenham construído sua morada num “entre lugar”, como os sem teto, sem terra, sem a camisa (padrão) do time, lugar onde se aloja a “intervenção crítica”.
Neste caso, a “heterogeneidade não se homogeneíza” na unidade da história que já foi contada; ao contrário, é uma voz que se levanta e resiste como uma realidade contraditória, embora subjacente, indelével; similares a operadores booleanos, esses fantasmas definem seus caminhos e estratégias de busca, com um software específico. Na verdade, a história desse pais se oferece como um rico hipertexto, em que nós, os sujeitos do conhecimento precisamos nos recusar a seguir em frente ignorando aquilo que não foi contado, ou o foi de forma distorcida, para descortinar um percurso que subjaz nas entrelinhas, nas fronteiras, no limbo.
É preciso rever essa história e desalojar esse estado de epifania que ela assegura aos que a contaram até hoje. Ela é uma ficção gestada em descaminhos da história real, porque comprovações documentais vêm sendo encontradas e contam uma outra versão; elas são avaliadas por estudiosos, e não podem ser desconsideradas. Fundamentada no pensamento de Boudelaire, também uma verdade absoluta e eterna inexiste, ou melhor é ficção que se torna pobre diante do fato de não se considerar outras possibilidades, outras dimensões, até porque a escrita dessa história está fundamentada em mecanismos ideológicos. É importante, fundamental mesmo, que esse foco sacralizado seja deslocado, desterritorializado, estabelecendo-se, no mínimo, um processo dialógico entre as percepções, em busca da história real.
Voltando a “Meu querido canibal”, há o impessionante episódio que presume-se ter durado de 1554 a 1567, a “Confederação dos tamoios” que, segundo o historiador Edmundo Moniz, foi um dos mais importantes capítulos da nossa história e considerada como a primeira reação dos nativos, donos da terra, que desestabilizou a confiança dos ‘colonizadores’, que não estavam iludidos quanto ao potencial de investida sobre o território de São Paulo e Santos, uma vez que os índios eram donos de grandes extensões, como parte dos territórios do Rio de Janeiro e São Vicente. Entretanto, uma traição ao tratado de paz entre os tamoios e os jesuítas, levou os ‘colonizadores’ à vitória; a trégua foi, na verdade, um ardil utilizado como uma forma de ganhar tempo, enquanto recebiam reforços e atacavam os desavisados e confiantes nativos. E assim, entre milhares de outros exemplos, foram forjados os heróis da história do Brasil.
Voltaremos...

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