Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, setembro 22, 2010

Currículo e Juventude (Cap. do meu livro, "A importância da Arte na Aprendizagem; textos ressonantes)).

[...] De nada adiantará aumentar a carga horária anual, desterritorializar as disciplinas de seus universos íntimos onde ocorre o conhecimento específico deixando-as à deriva num currículo sem objetivos e sem significado para a juventude, nem amontoar os conhecimentos sem que exista um elo que os ligue; inchar a proposta curricular com disciplinas que já se constituem conhecimentos das que estão ali incluídas - temas que devem ser tratados transversalmente -; injetar recursos extras através de projetos e/ou programas; também não adianta criar novas escolas, e, muito menos, oferecer um currículo mínimo, ou uma proposta direcionada e refratária, o que considero um retrocesso na história da educação. Fundamental seria gastar melhor os recursos, evitando sua pulverização em remendos que, historicamente, não vêm dando certo.

Também não é mais possível abrir mão dos avanços já alcançados com a participação da sociedade, entidades e instituições nas discussões de propostas de políticas amplas para a educação, algumas questionáveis, leis de inclusão, aberturas para as questões regionais, etc., e termos atitudes determinísticas voltadas para um currículo nacional que se feche sobre ofertas eleitas a partir de interesses pessoais, ou de grupos (todos se acham com condição e direito de legislar sobre Educação), às vezes sem nenhuma experiência com educação pública básica, porque seria um grave equívoco.

É importantíssimo que se pare para pensar em fazer mudanças profundas e radicais, ao invés de investir no que sabemos não estar dando certo há muito tempo. Existem experiências comprovadas, nos Estados Unidos, por exemplo, no bairro do Harlem, de escolas conhecidas como “no excuses” (sem desculpas), que têm uma proposta específica para aquela juventude, cujos professores são avaliados e afastados caso não atendam aos seus objetivos. Ali, os jovens têm “apoio e o tempo necessários para trabalhar e se desenvolver”; essas escolas têm características de “charter schools”; independentes, atuando com o apoio público.
Não é desconhecido de nenhum segmento da sociedade, especialmente dos próprios jovens, que o Ensino Médio, especificamente, (principalmente da rede pública), é uma dupla fatalidade em suas vidas, uma situação limite na etapa da educação básica - embora a rede particular também não escape disso- porque, além de ser a etapa final da formação básica, sem a qual o jovem não pode ascender a outro nível de escolaridade, é também muito desinteressante e descontextualizada do seu universo e da vida contemporânea - no caso do sistema particular, o foco principal é o vestibular, que é um fenômeno na vida dos jovens; um fato absolutamente isolado, embora, paradoxalmente, encaminhe aos seus objetivos, às suas buscas pessoais - e, por isso, a dificuldade em estabelecer o diálogo entre as disciplinas[...]

Fragmento do meu livro...

Este trabalho seria apenas um sussurro, não fosse a ousadia de escapulir à “meia-voz”... uma transgressão fortalecida pela compreensão de que todo professor deveria ter apoio e incentivo para escrever, e, entre outras experiências, do que li em um prefácio, e ouvi pessoalmente de Edgar Morin numa conferência:
“Acredito que nos tornamos intelectuais quando enfrentamos
problemas humanos, morais, filosóficos, sociais, de
forma não especializada [... ]. É preciso ter coragem
intelectual”
Ressonância, entre outros, significa “fenômeno físico pelo qual o ar de uma cavidade é suscetível de vibrar com frequência determinada, por influência de um corpo sonoro, produzindo reforço de vibrações”. (BUENO, 2007)
Por esta razão, digo que são textos ressonantes; a transgressão extrapola a irreverência e se reveste de um caráter de transposição de si mesma, de ultrapassagem dos próprios limites quanto à sua natureza própria, indo além e induzindo a outros universos, outras possibilidades de representação no âmbito dos signos, dos ícones, representantes de realidades múltiplas. O “reforço de vibrações” é representado por essa multiplicidade, com uma “frequência determinada”, dentro do arcabouço que se configura o universo da educação (“cavidade susceptível de vibração”).