Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, agosto 10, 2010

Impulso... (guacira maciel)


Saltou na Estação Rodoviária... que lugar é este? O inferno? A cabeça, zonza, deu-lhe uma sacudidela. Estava tonto por tantas horas sem o sono gostoso, que começava com as galinhas empoleirando-se no pé de caju, cuja raiz já nascera se arrastando feito cobra ao sol do sertão. Também acordava junto com elas; era bom ouvir o galo cantar de madrugadinha, aquilo tinha um gosto de café quentinho e de lida. Passou a mão sobre os olhos macerados para espantar a pasmaceira. Só então se deu conta da dor que lhe martelava o corpo em algum lugar. Não; ela estava por todo o corpo, mas era pior no ponto sobre o qual passou a mão calosa de trabalhador. É...é aqui que dói mais; deve ser fome, e pensou que não comia feito gente desde o início da viagem. Sentiu saudade e veio-lhe à boca o gosto do feijãozinho com carne seca feito por Dona Sebastiana. Bom, aquele gosto... gosto de mãe, gosto de terra do roçadinho que botava o pão na mesa da família. E gosto da feira do sábado, quando todos os vizinhos levavam seus produtos quase que para serem trocados por outros, como um escambo. A feira era colorida, parecia sempre o dia da festa da Padroeira. As meninas vestidas com suas “roupas de sair” passeavam grudadinhas com as mãos dadas feito corda de licuri, olhando como quem não quer nada, para os meninos que ajudavam os pais no trabalho pesado, fingindo não vê-las. Outra pontada o lembrou que precisava comer. Que dia é hoje? Perguntou pensando alto sem perceber; ainda assim olhou para os lados esperando uma resposta que não veio. Vixe! Aqui as pessoas não ouvem, não enxergam, nem falam? Só olham, olham para nós com estranheza, como se a gente fosse de outro planeta. A dor da fome deu-lhe outra fisgada e sentiu vertigem, vixe maria! E agora? Preciso comer, lembrou outra vez. Era fome, cansaço e saudade, tudo misturado. A coisa tá piorando...Sentou-se em um banco, uma média de café com leite num copo de plástico tão vagabundo que lhe queimava a mão, ocupava uma delas, mas isso lhe deu certo conforto; ainda estava vivo; na outra um pão com margarina; isso lá é manteiga!... Ficou olhando sem ver o vai e vem ensurdecedor. Em algum momento pensou...parecem formigas...as lágrimas quentes nublaram a vista ardida, cansada...o seu lugar não era ali...engoliu o pão com dificuldade, jogou o copo sujo no lixo e levantou já procurando o papelzinho com o endereço do primo Natanael.

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