Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, janeiro 28, 2010

Sem objeção... (guacira maciel)

As cores eram mornas e suaves
como saidas de um sonho crepuscular...
não ousei perturbar a quietude
daquele quase sono
e permaneci imersa
rendida à natureza e sua mansidão...
o dia se diluia gris
sem objeção à luz do luar...
àquela paz não carecia me submeter
era branda...
abriguei-a...
não precisei correr atrás do sol
e suplicar que permanecesse mais um pouco
para derreter os cristais
pontiagudos de minh'alma
a noite era promessa de paz...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Aquece-te... (guacira maciel)

Não te apresses
não dilaceres
o eterno
nas garras fugases
da paixão
na voluptuosidade
não cabe a impaciência
aquece-te
arde
na gradual excitação
que antecede
o amor no ato
fundamental antes
amar
um estado de coragem
colhe a rubra
flor dos sentidos
na surpresa do toque
revelado em Vênus
mas tarde-se o fato...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Matizes (guacira maciel)

As palavras e seus significados têm matizes, têm nuances...os significados não mais impregnam indelevelmente as palavras com um unico sentido... Isso pode não ser validado pela ciência, mas tem uma lógica ou lógicas.
A loucura por exemplo, aquela loucura abissal, pode ser descrita e estudada pela ciência como um estado emocional patológico, mas existe uma outra loucura, um estado provisório, mas nem tão fugaz, de uma lucidez que nos conduz a especiais estados da alma...
A poesia, por exemplo, é um saber ao qual só uma espécie de loucura acometida permite acesso. Podendo ser uma nuance desta, mas não um processo psicótico. Sabemos, entretanto, que algumas das cabeças mais lúcidas que a humanidade já teve, por seu GÊNIO foram consideradas loucas e seus priviolegiados possuidores trancafiados em hospícios, porque não foram compreendidos pela boiada; ora, um búfalo entre vacas ou carneiros, sem dúvida causaria um estouro...
E mais, essas mentes mudaram conceitos, mudaram conhecimentos, de forma ampla e profunda; quem de nós, hoje, olha um girassol com o mesmo olhar de antes de ter conhecido os "Girassóis" de VanGogh? Poderíamos dizer com certeza que a coerência, a perfeição estética contidas nesta e em outras obras suas e de outros artistas seriam produtos da loucura? E quem teria um estado de tão perfeito equilíbrio e conhecimento das questões ligadas à subjetividade de cada um, a estados d'alma e aos seus próprios, a ponto de determinar esses limites?
Embora com uma genialidade diferente, Antonio Conselheiro já falara "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão..." ai já temos essa realidade, mas ainda veremos muito mais...o ultimo abalo ocorrido no Japão deslocou em 10cm o eixo da terra, mas está por vir um desses fenômenos que o deslocará em até 25 cm e, embora a teoria de Schumman seja desacreditada por alguns , ela nos aponta mudanças radicais e profundamente relacionadas com esta previsão, que dizem respeito às mudanças das pulsações do íntimo do nosso planeta; que seu coração estaria em absoluto descompasso, inclusive gerando todos esse desequilíbrios ecológicos, perturbações climáticas e até estados desconhecidos nos próprios seres humanos.
Fico refletindo sobre as contundentes mudanças que vêm ocorrendo no comportamento das pessoas e me perguntando até que ponto essa barbárie contemporânea que estamos vivenciando estaria sendo sendo desencadeada por elas...(?)

domingo, janeiro 24, 2010

Errante (guacira maciel)

Próprio de mim
raízes
erros
auroras
horizontes
abismos
confrontos
vocação pra liberdade
fronteiras
caminhos
possibilidades
contradições.

sábado, janeiro 16, 2010

Ai de ti... (guacira maciel)

Ai de ti
Haiti
choros
ais
a vida esvai-se
vida breve
infante
furta-se
em breve idade
e a terra mãe
em profundas dores
se contorce
em estertores...

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Manga rosa (guacira maciel)

Escrevo
e assim faço parar o tempo
pra ficar no exato momento
em que estou com você
antes que a chuva suceda as nuvens
que a poeira retorne à terra
que a vazante suceda a cheia
que à paz suceda a guerra
pra ficar no exato momento
em que durmo com você
segura e aquecida em seus braços
sentindo sua pele cheirosa
colorida que nem manga rosa
depois
que se quebre a bilha na fonte
e regando a terra
a semente
se derrame em fio de prata
e o sol
após dourada orgia
ainda sonolento
apareça no horizonte.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Margens (guacira maciel)

A tua lembrança
suave ou caótica
prevalece em meu coração
em minha cabeça
à margem do encontro
entre o rio e o mar
sim
ali ela é possível
num tempo inexistente
como um interregno
estás sempre no limite.
Dos pores de sol
como das auroras
da penumbra
ou círculo de luz dos abajures
da metamorfose da crisálida
e do voejar das borboletas
entre a dor e a felicidade
entre a presença e a saudade
entre os rouxinóis
e os corvos
entre o aprisionar
e a liberdade
entre a aurora boreal
e a tropicália
entre a chegada
e o adeus
entre o zênite e o nadir
entre os demônios e Zeus...

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Zênite fecundo

Te alimentas
da nobreza da guerreira celta em seus opostos
intrépida fêmea
Boudicca rainha
Invencível Andraste
e fértil
como a terra bronze.
E liberta...
Entre a sombra e a luz
te fazes amor e morte.
Profunda literatura espiralada.
Em teus retornos
escondem-se limites insuspeitados
irreconhecidos.
Na volúpia das curvas orgânicas sensíveis,
acolhedora Xangai tresloucada
vaticínio de submersas águas
de torvelinhos de cristal divinizados
percebo-te o zênite fecundo.
Abertos
ofertados
arrulhas a mim
incontrolável
palavras aladas
versos...

domingo, janeiro 03, 2010

Orpheu (guacira maciel)

...deu-me figos e castanhas
vinho doce como água de regato
e nada precisou ser dito
por interferência dos deuses
nos uniu a Eternidade...