Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, outubro 21, 2010

Continuando... "Qual é a nossa história, afinal? - II -

O mito do “descobrimento” – acaso?
Existem algumas teorias de estudiosos que comprovam que o Brasil recebeu o primeiro visitante em 1498 ( ver Jorge Couto, Historiador da Universidade de Lisboa; José Manoel Garcia, pesquisador especializado em História dos Descobrimentos, do Centro de Estudos Históricos da Faculdade de Letras de Lisboa, para quem "a viagem de Cabral continua a ser considerada o descobrimento oficial do Brasil apenas por uma questão de tradição e de comodidade"; o pesquisador espanhol Juan Gil, da Universidade de Sevilha, e o francês Serge Gruzinski do Centre Nationale de Recherches Scientifiques). Trata-se do português Duarte Pacheco Pereira, um gênio da cartografia citado por camões em “Os Lusíadas”. Seu trabalho “Esmeraldo de situ orbis” é uma obra prima, um tratado dos registros dos novos lugares da Terra que estavam sendo explorados por seu povo durante aquele período chamado das grandes navegações, já iniciado. Entretanto, como não era estratégico divulgar a notícia por causa do ainda não definido “Tratado de Tordesilhas”, ela foi postergada. O rei D. Manuel considerou as informações contidas nessa obra tão valiosas, em relação às questões náuticas, geográficas e econômicas, que jamais permitiu que a mesma fosse publicada. A seguir transcrevo um trecho que, entendem os estudiosos, poderia ser considerado uma das provas desse acontecimento:
“Como no terceiro ano de vosso reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e o cabo dela. É achado nela muito e fino Brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados”
Mas existem outras hipóteses que colocam mais algumas figuras no cenário do "descobrimento" do Brasil: o navegador espanhol Vicente Pinzõn; uma armada chinesa, em 1421, segundo Gavin Menzies, e até os fenícios já transitaram por essas bandas tropicais por um período de 800 anos.
“Descobrimento” acidental por afastamento da costa em vista das “calmarias”? Ora, eles já sabiam que a nova terra era economicamente promissora; a Carta de Caminha fornecia o mapa da mina, literalmente, mas só após 30 anos os portugueses iniciaram suas investidas, num processo que chamaram de “colonização”, na tentativa de encobrir seu verdadeiro objetivo, que era dominar esse povo estranho para explorar a terra com mais segurança e menos problemas. Esse processo foi determinante para que fossem criados, em consequência, outros grandes mitos, a exemplo de Tiradentes/Inconfidência Mineira.
Vamos continuar...

Supermundo (guacira maciel)

Parece um sonho recorrente da humanidade, viver no mundo perfeito, embora historicamente o homem não venha fazendo nenhum esforço para que isso ocorra, apesar das tentativas infrutíferas de alguns grupos específicos em conscientizar a todos sobre a fundamental importância de conviver num mundo com menos injustiças, mais respeito à sua natureza ampla, mais sensibilidade, mais tolerância, com aspirações menos materialistas e mais nobres, e a compreensão de que a perfeição não existe, uma vez que o homem é insaciável em suas ambições.
Ao encontro dessas reflexões vieram outras, estimuladas por um filme que assisti sobre o Super Homem e sua parceira Louis Lane, em que o vilão encontrava-se terrivelmente entediado porque vivia no mundo perfeito da utopia, idealizado pelo casal em questão. A partir daí a cabeça deu voltas à imaginação e foi invadida por um turbilhão de pensamentos, de analogias e referências, principalmente no âmbito da Filosofia e da Literatura, que me deixaram meio tonta. Viver no mundo perfeito teria muitas implicações, vantagens e desvantagens, satisfações e insatisfações, que interfeririam também em suas relações e seus mistérios.
Por outro lado, algumas questões que hoje são alvo de muitas discussões, muitas de conotação ética, precisariam ser analisadas... Bem, a partir daí lembrei da maior pretensão de vida harmônica e fraterna considerada a grande referência da maioria das sociedades em se tratando de reformas sociais: a proposta de Platão em sua “República”, escrita mais ou menos em 370 a 380 a. C. , em que foi usado, inclusive, o Mito da Caverna como fundamento e forma de superação do caos da realidade, tendo a racionalidade como estrutura, o que já se poderia considerar um ritual de passagem em relação à percepção das realidades, porque ocorre aí uma profunda ruptura que encaminha o homem ao conhecimento de si mesmo e de outros universos possíveis.
Aliás, os diálogos de “O Banquete” ocorridos mais ou menos à mesma época (380 a. C.), são vistos por mim como um acalorado papo de ressaca em que se elocubrava não apenas sobre o amor, de certa forma antecede o que foi proposto para “A República”, levando a crer que o “Simposion”, uma resposta da Polis contra as acusações da Filosofia, propõe que as cidades se pautem por um novo modelo, baseado na civilização ocidental e governada pelos “politikos”, ou seja, homens nascidos naquele solo, livres e iguais. Lá no “quarto passo” da escada do amor, Platão retoma o amor mais abrangente conduzindo ao “quinto passo” que evidencia o modo de funcionamento de uma sociedade harmônica e equilibrada, que “A República” cita como sendo amor pelas instituições belas, incluindo o interesse pelo bem comum. No “sexto passo” estabelecem-se elos entre as leis que “governam o indivíduo, a família e a sociedade”, embora indo além desse universo; o discurso ultrapassa o que seria um modelo de sociedade ideal e se reveste de um caráter completamente utópico, bem evidente no livro IX, em que o ideal humano tem foco na figura do filósofo como sendo um ser de elite, acima e além do homem real, animal. Entretanto, também se percebe algum bom senso e, de certa forma, um retorno àquele homem ‘primitivo’ mais puro, que produzia para obter o necessário à sobrevivência, sem a valorização doentia do supérfluo, entendido como excesso de cobiça que governa os desejos levando-os à insaciedade nas conquistas materiais, e à violência.
Platão entende que esses homens seriam ideais como administradores; ele estava falando de uma classe específica de pessoas à qual poucos pertenciam. Não seria essa supremacia intelectual uma forma de eugenia? Que, embora não se refira à questão étnica, me leva a perguntar: a que classe social pertenceriam esses sujeitos? Seu pensamento também se aproxima do homem ideal de Nietzsche, marcado pela força de caráter e de personalidade. Mas um super homem, “salvador”, também seria um ser incomum, dotado de virtudes e talentos especiais com condição de conduzir os destinos da humanidade; nessa questão, me parece, embora ambos promovam algum tipo de restrição, também sonham com uma vida que se fundamenta no bem estar comum, sendo que para Nietzsche o super homem é tão autônomo e poderoso que nos encaminharia ao mesmo homem contemporâneo, ávido de poder e de conquistas materiais...

domingo, outubro 17, 2010

Estou fascinada pelo livro "Comer, amar, rezar"....

O livro “Comer, amar, rezar”, de Elizabeth Gilbert, se constitui, não apenas o relato das suas viagens pelo mundo, mas, principalmente, a sua busca por Deus e pelo próprio equilíbrio. Não o achei um livro ‘levinho’ para ser devorado, consumido como um best seller, aliás, nem sei porque se tornou um best seller (teria sido, realmente entendido?)e por isso, talvez não me interesse assistir ao filme; para não se perder em mim a sua essência. Uma essência que não vem aleatoriamente do que ela narra, mas das reflexões que essa narrativa me proporcionou.
Vou me permitir registrar aqui alguns desses momentos:
“A cultura balinesa é um dos sistemas de organização social e religiosa mais metódicos da terra, uma maravilhosa colméia de tarefas, papéis e cerimônias [...]. O cultivo do arroz em terraços de nível exige uma incrível quantidade de trabalho, manutenção e engenharia coletivos para poder prosperar e, portanto, cada vilarejo balinês tem o seu banjar, uma organização unida de habitantes que administra, por meio de um consenso, as decisões políticas, econômicas, religiosas e agrícolas do vilarejo. Em Bali, o coletivo é totalmente mais importante do que o individual, senão ninguém come”
“A pior coisa que se pode ser em Bali é rude e animalesco [por esta razão, numa das cerimônias de puberdade, os dentes caninos são lixados até a altura dos outros, porque esses dentes seriam remanescentes da nossa natureza mais brutal]. Toda a rede de cooperação de um vilarejo poderia ser destruída pela tendência assassina de uma só pessoa. Portanto, a melhor coisa que se pode ser em Bali, é alus, que significa “refinado” ou mesmo “embelezado”. A beleza em Bali é algo bom, tanto para mulheres como para homens” A beleza é reverenciada e representa segurança.
“Deus vive dentro de você, como você; como você. Exatamente da maneira como você é. Deus não está interessado em ver você executar uma pantomima de personalidade, de forma a corresponder a alguma idéia maluca que tenha sobre a aparência ou o comportamento que tenha de alguém espiritualizado. Nós todos parecemos ter uma idéia de que, para sermos sagrados, precisamos operar uma mudança dramática em nosso caráter, precisamos renunciar a nossa individualidade”. Segundo ela, um dos seus guias espirituais nessa busca disse que no Oriente isso é chamado de “pensamento errado”, pois a cada dia teríamos mais e mais coisas às quais renunciar, levando em geral a uma depressão, não à paz. O mais maravilhoso, segundo ele, é que para conhecer Deus, só precisamos renunciar a uma coisa: à noção de que somos algo distintos de Dele! Importante é aquietar a mente: “muitos de nós olham para o fogo e vêm apenas o inferno”...
Entretanto, não vou poder contar todas as maravilhosas oportunidades de refletir que encontrei nessa obra; desejo que a leiam. Mas vou finalizar aqui, com algo que também me fascinou, pois é o que penso sobre a felicidade. Para sua orientadora espiritual, um dos ensinamentos fundamentais é: “as pessoas tendem a pensar universalmente que a felicidade é um golpe de sorte, algo que talvez lhe aconteça se você tiver sorte suficiente, como o tempo bom. Mas não é assim que a felicidade funciona. A felicidade é conseqüência de um esforço pessoal. Você luta por ela, faz força para obtê-la, insiste nela, e algumas vezes viaja o mundo à sua procura. Você precisa participar o tempo todo das manifestações das suas próprias bênçãos. E, uma vez alcançado um estado de felicidade, nunca deve relaxar em sua manutenção; deve fazer um esforço sobrehumano para continuar para sempre nadando contra a corrente rumo a essa felicidade, para permanecer flutuando em cima dela”. O mais incrível é que a tristeza e a infelicidade são causadas por pessoas infelizes, e não “apenas no nível global (a exemplo de Hitler, etc...), mas no nível menor, pessoal de alguém”.
Essa busca, portanto, não é uma atitude egoísta, mas de doação, de generosidade, pois assim deixamos de ser um obstáculo para nós e para o outro, para o mundo...

sexta-feira, outubro 08, 2010

Qual é a nossa história, afinal? - I - (guacira maciel)

O frevo é africano. Qual não foi a surpresa do médico baiano Paulo Fernando de Moraes Farias (e a minha) - que entendendo que para conhecer a África como África e não como Brasil teria que ir lá - ao ouvir, paralisado (se isso for possível), numa festa de casamento no Mali, um grupo de músicos da Costa do Marfim tocar um frevo rasgado?
A partir daí comecei a questionar outros conhecimentos da nossa cultura; também me questiono se o nosso país é híbrido, ou profundamente ambíguo... O que, realmente, constitui a nossa identidade como povo, se o que consideramos nossos símbolos, não são apresentados em sua versão verdadeira, ainda que não genuinamente nossos?
A disseminação, e insistência em fazê-lo, de uma história distorcida por interpretações errôneas e tendenciosas, trouxe como legado a construção de uma memória com raízes flutuantes. Quem somos nós, povo brasileiro? Qual a nossa verdadeira história? O que, na nossa cultura é mito, lenda, distorção, ou fruto de interpretação, muitas vezes preconceituosa, já que, invariavelmente a versão se sobrepõe ao fato histórico, com a finalidade de atender interesses inconfessáveis?
Como educadora me pergunto ainda por que continuamos a divulgar entre nossos jovens uma história falsa, tendenciosa, mitológica e recheada de monstros sagrados inventados. A história contada nos livros didáticos é da carochinha, porque se fundamenta em “causos” sobre personagens fictícios. Urge dessacralizar essa construção contando a verdadeira, ainda que híbrida. Precisamos construir nossa identidade baseada numa verdade, e fincar nossas raízes em solo firme, para que elas possam se aprofundar, se fortalecer e ramificar, levando esse povo a ter orgulho do que realmente é. Partindo dessa compreensão e entendendo a necessidade de reunir coragem para isso, nomearei alguns mitos construídos por interesses historicamente referendados; neste caso, não procede o fato de que, por ser aceita por todo um povo através dos séculos, ela terminará por se tornar uma verdade.Assim, relatarei algumas dessas distorções que considero graves, porque se tornaram alicerce para uma grande mentira...

(vamos continuar...)

quarta-feira, setembro 22, 2010

Currículo e Juventude (Cap. do meu livro, "A importância da Arte na Aprendizagem; textos ressonantes)).

[...] De nada adiantará aumentar a carga horária anual, desterritorializar as disciplinas de seus universos íntimos onde ocorre o conhecimento específico deixando-as à deriva num currículo sem objetivos e sem significado para a juventude, nem amontoar os conhecimentos sem que exista um elo que os ligue; inchar a proposta curricular com disciplinas que já se constituem conhecimentos das que estão ali incluídas - temas que devem ser tratados transversalmente -; injetar recursos extras através de projetos e/ou programas; também não adianta criar novas escolas, e, muito menos, oferecer um currículo mínimo, ou uma proposta direcionada e refratária, o que considero um retrocesso na história da educação. Fundamental seria gastar melhor os recursos, evitando sua pulverização em remendos que, historicamente, não vêm dando certo.

Também não é mais possível abrir mão dos avanços já alcançados com a participação da sociedade, entidades e instituições nas discussões de propostas de políticas amplas para a educação, algumas questionáveis, leis de inclusão, aberturas para as questões regionais, etc., e termos atitudes determinísticas voltadas para um currículo nacional que se feche sobre ofertas eleitas a partir de interesses pessoais, ou de grupos (todos se acham com condição e direito de legislar sobre Educação), às vezes sem nenhuma experiência com educação pública básica, porque seria um grave equívoco.

É importantíssimo que se pare para pensar em fazer mudanças profundas e radicais, ao invés de investir no que sabemos não estar dando certo há muito tempo. Existem experiências comprovadas, nos Estados Unidos, por exemplo, no bairro do Harlem, de escolas conhecidas como “no excuses” (sem desculpas), que têm uma proposta específica para aquela juventude, cujos professores são avaliados e afastados caso não atendam aos seus objetivos. Ali, os jovens têm “apoio e o tempo necessários para trabalhar e se desenvolver”; essas escolas têm características de “charter schools”; independentes, atuando com o apoio público.
Não é desconhecido de nenhum segmento da sociedade, especialmente dos próprios jovens, que o Ensino Médio, especificamente, (principalmente da rede pública), é uma dupla fatalidade em suas vidas, uma situação limite na etapa da educação básica - embora a rede particular também não escape disso- porque, além de ser a etapa final da formação básica, sem a qual o jovem não pode ascender a outro nível de escolaridade, é também muito desinteressante e descontextualizada do seu universo e da vida contemporânea - no caso do sistema particular, o foco principal é o vestibular, que é um fenômeno na vida dos jovens; um fato absolutamente isolado, embora, paradoxalmente, encaminhe aos seus objetivos, às suas buscas pessoais - e, por isso, a dificuldade em estabelecer o diálogo entre as disciplinas[...]

Fragmento do meu livro...

Este trabalho seria apenas um sussurro, não fosse a ousadia de escapulir à “meia-voz”... uma transgressão fortalecida pela compreensão de que todo professor deveria ter apoio e incentivo para escrever, e, entre outras experiências, do que li em um prefácio, e ouvi pessoalmente de Edgar Morin numa conferência:
“Acredito que nos tornamos intelectuais quando enfrentamos
problemas humanos, morais, filosóficos, sociais, de
forma não especializada [... ]. É preciso ter coragem
intelectual”
Ressonância, entre outros, significa “fenômeno físico pelo qual o ar de uma cavidade é suscetível de vibrar com frequência determinada, por influência de um corpo sonoro, produzindo reforço de vibrações”. (BUENO, 2007)
Por esta razão, digo que são textos ressonantes; a transgressão extrapola a irreverência e se reveste de um caráter de transposição de si mesma, de ultrapassagem dos próprios limites quanto à sua natureza própria, indo além e induzindo a outros universos, outras possibilidades de representação no âmbito dos signos, dos ícones, representantes de realidades múltiplas. O “reforço de vibrações” é representado por essa multiplicidade, com uma “frequência determinada”, dentro do arcabouço que se configura o universo da educação (“cavidade susceptível de vibração”).

terça-feira, agosto 10, 2010

Impulso... (guacira maciel)


Saltou na Estação Rodoviária... que lugar é este? O inferno? A cabeça, zonza, deu-lhe uma sacudidela. Estava tonto por tantas horas sem o sono gostoso, que começava com as galinhas empoleirando-se no pé de caju, cuja raiz já nascera se arrastando feito cobra ao sol do sertão. Também acordava junto com elas; era bom ouvir o galo cantar de madrugadinha, aquilo tinha um gosto de café quentinho e de lida. Passou a mão sobre os olhos macerados para espantar a pasmaceira. Só então se deu conta da dor que lhe martelava o corpo em algum lugar. Não; ela estava por todo o corpo, mas era pior no ponto sobre o qual passou a mão calosa de trabalhador. É...é aqui que dói mais; deve ser fome, e pensou que não comia feito gente desde o início da viagem. Sentiu saudade e veio-lhe à boca o gosto do feijãozinho com carne seca feito por Dona Sebastiana. Bom, aquele gosto... gosto de mãe, gosto de terra do roçadinho que botava o pão na mesa da família. E gosto da feira do sábado, quando todos os vizinhos levavam seus produtos quase que para serem trocados por outros, como um escambo. A feira era colorida, parecia sempre o dia da festa da Padroeira. As meninas vestidas com suas “roupas de sair” passeavam grudadinhas com as mãos dadas feito corda de licuri, olhando como quem não quer nada, para os meninos que ajudavam os pais no trabalho pesado, fingindo não vê-las. Outra pontada o lembrou que precisava comer. Que dia é hoje? Perguntou pensando alto sem perceber; ainda assim olhou para os lados esperando uma resposta que não veio. Vixe! Aqui as pessoas não ouvem, não enxergam, nem falam? Só olham, olham para nós com estranheza, como se a gente fosse de outro planeta. A dor da fome deu-lhe outra fisgada e sentiu vertigem, vixe maria! E agora? Preciso comer, lembrou outra vez. Era fome, cansaço e saudade, tudo misturado. A coisa tá piorando...Sentou-se em um banco, uma média de café com leite num copo de plástico tão vagabundo que lhe queimava a mão, ocupava uma delas, mas isso lhe deu certo conforto; ainda estava vivo; na outra um pão com margarina; isso lá é manteiga!... Ficou olhando sem ver o vai e vem ensurdecedor. Em algum momento pensou...parecem formigas...as lágrimas quentes nublaram a vista ardida, cansada...o seu lugar não era ali...engoliu o pão com dificuldade, jogou o copo sujo no lixo e levantou já procurando o papelzinho com o endereço do primo Natanael.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Alma barroca do povo brasileiro (guacira maciel). Em: "A Impotância da Arte na Aprendizagem" . www.clubedeautores.com.br

[...] Aqui precisaria trazer uma compreensão sobre essa analogia, pois entendo que o barroco representa fortemente a alma do povo brasileiro, por sua profunda teatralidade expressada com muita ênfase, propriedade e força, entre outros exemplos, na obra do Aleijadinho, que externou esse fenômeno em suas esculturas. É uma obra plena de drama, de expressividade, de metáforas, de musicalidade, constituídas por olhares, postura corporal, gestos e movimentos que absorvem e partem da apropriação de elementos da natureza. Nela se encontra retratada, pioneiramente, e reconhecida, a identidade mestiça da alma e do sangue do povo brasileiro, evidenciada por esse caráter expressionista. Eu diria que na obra do Aleijadinho está o genoma da composição genética em cujos códigos se podem identificar o sangue indígena, nativo do país, acrescido daqueles outros que foram incorporados a posteriori, que são o do negro e do europeu, com marcantes características humanas e pleno de sensualidade, percebidos nos movimentos das suas esculturas.
[...]Com o olhar e as buscas, na tentativa compor uma identidade própria nesses espaços, encontramos referenciais bastante contemporâneos no hipertexto que se realiza na obra do artista, reconhecido, inclusive, como todo um potencial arquitetônico; eu iria mais longe ousando dizer que essa arquitetura se transmuta numa dimensão também imaterial, quando imagino o que consegue estimular na dimensão da criatividade, moldando essas características mestiças.
[...] Na montagem do seu teatro em pedra-sabão, ainda que em sua imobilidade material, fundado em 1957, na então Freguesia de Nossa Conceição das Congonhas – exemplo de uma história icônica, de que falei anteriormente -, o artista mineiro construiu o que os estudiosos denominam de “arquitexto” (arquitetura e texto), que eu diria também um texto de dimensões imaginárias colossais quanto às possibilidades, composto de um cenário e uma coreografia (movimentos) que conseguem nos transportar também à gênese da história humana. Ali existe a plenitude de outras linguagens, como a muda e imutável musicalidade, percebida sutilmente pelo movimento das posturas e roupagens que dão suporte a essa coreografia; nela os 12 Profetas, em sua imponente postura, realizam uma conferência imaginária que me transporta à não menos mágica Távola Redonda, do lendário Rei Artur.
[...]Esse caráter barroco da obra teatralizou a arte brasileira em suas características multirraciais, representando-as com nuances de musicalidade, que tanto têm em comum com o nosso caráter, expressão corporal, criação e imaginário, mas também ciência (cálculos e precisão). A maior marca dessa teatralidade, dessa dramaticidade, lhe é conferida magistralmente numa linguagem visual, através do movimento dançante das roupas enfunadas por um vento quase palpável e não menos imaginário e dramático; pela sugestão da impetuosidade e autoridade anunciadas por esses personagens/divindades, como um portal entre o divino e o humano, livre de qualquer crença específica. A dramaticidade do barroco está muito plena na obra, até pela similaridade com as condições físicas do seu criador, severamente mutilado pela lepra, enfermidade que foi consumindo sua carne e seus movimentos tão lenta e perversamente. Nela também estão registrados a dor e o sentimento de transitoriedade do homem, que o artista tão bem consegue comunicar; da impossibilidade da perfeição e do reconhecimento de que a arte capta um momento fugaz da condição de criar; portanto, do reconhecimento das suas limitações.
Talvez até possamos entender certa ‘crueldade’ ou desespero vistos nas deformações das esculturas de pedra-sabão, escolhida - sugerem alguns - por sua composição com ferro e, portanto, sujeita à oxidação, como uma forma de retratar seu estado físico legado pela inexorável enfermidade, ou ainda pela possibilidade de ter o controle ao roubar-lhes a integridade, a beleza e a vida, como acontece consigo mesmo, sem que possa interferir nesse processo. Pelo menos em sua obra poderia ter, ainda que fugazmente, o controle da sua vulnerabilidade; aqui volto a chamar a atenção para o que já foi mencionado sobre representações e a utilização da arte como possível expansão do ‘eu’.
[...] Segundo consta, há uma referência de que os Profetas também representariam os inconfidentes mineiros, tese desconsiderada com acidez por Waldemar de Almeida Barbosa em “O Aleijadinho de Vila Rica” (texto da Internet), que diz ser a hipótese “excesso de imaginação ou falta de assunto”. Entretanto, como entendo a criação um terreno sem paternidade e movido por amplas compreensões de mundo e caminhos do imaginário, não a desconsideraria, uma vez que aquela fase se constitui uma vivência histórica plena de muita dramaticidade da nossa história, pois naquele período Minas Gerais vivia um momento de grande exploração de suas riquezas e reivindicações sociais, atingindo o desfecho que conhecemos.
[...] A análise explicita com muita lucidez, com muita pertinência, a similaridade que busco explicar e entendo existir entre a teatralidade da fase barroca brasileira, especialmente o trabalho desse artista, em que está implícita uma lei rítmica e outras linguagens artísticas plenas de musicalidade, de dramaticidade, de movimento e envolvimento com o clima e a voluptuosidade dos relevos, como a nossa própria história, em que o elemento nativo, acrescido dos outros já mencionados e que compõem nossa genética tão múltipla, se fazem esplendidamente presentes, ampliando suas formas em nossos espaços

quarta-feira, julho 28, 2010

Educação, Literatura e Cidadania (guacira maciel)

Diante da solicitação de escrever sobre os três assuntos acima, pensei: como falar de coisas tão diferentes em seus mistérios?
Imediatamente me veio à cabeça o “Livro dos Mistérios”, de Clarice Lispector, onde se lê “só poderia haver encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões”.
Aqui temos três mistérios; não só porque de universos aparentemente diferentes, mas porque não sabemos ao certo o que fazer para que aconteçam. Ainda assim, buscarei mediar essa entrega de forma a que as compreensões pertinentes a cada um dos universos encaminhem os leitores a uma possível sintonia.
Para Einstein, “educação é o que permanece quando alguém esquece tudo o que aprendeu no colégio”. Podemos entender seu ponto de vista, uma vez que conhecemos a trajetória escolar desse gênio, similar ao que vem ocorrendo com a juventude nas nossas escolas, no seu processo de escolarização, em se tratando do prazer, como já nos refere Erasmo de Roterdam, em “De Pueris”, sem aprofundar, neste momento, outros aspectos também fundamentais. Sim, educar-se precisa, deve, ser um ato de prazer; nisto reside o seu mistério. Educar-se, porque cada sujeito é autônomo em seu processo de aprendizagem, cabendo ao professor o importante papel de mediador, e à escola, o de agente, de coadjuvante, através de uma proposta que reconheça e acolha as aprendizagens construídas fora dos seus espaços, plenas de prazer. As experiências construídas nas dobras e nas esquinas desse aparente “nonsense” se articularão no âmbito sensível cognitivo da experiência escolar, de forma a que esse conhecimento seja ampliado e aprofundado, numa entrega entre duas realidades complementares.
Essa atitude dará ao processo educativo um caráter libertário porque seu papel é instrumentalizar o jovem a detectar dificuldades e potencialidades que deverão encaminhá-lo à autonomia sob vários aspectos, de forma a possibilitar a afirmação de suas identidades, ainda que um processo em permanente construção. Aqui já estamos falando dos mistérios contidos na compreensão de cidadania, que é muito ampla, não implicando apenas em direitos, mas em compromissos: consigo, com o outro, com o patrimônio histórico cultural, natural, etc.
Quanto à Literatura, entendo ser uma prática humanizadora em seus mistérios, cuja premissa é instigar, seja na perspectiva do leitor, seja na do escritor.
Há muitos sentidos para Literatura, porém, fundamental é manter com ela uma relação de estranhamento, para que se preserve esse sentimento de mistério contido na subjetividade; a compreensão de que, em desprezando o literal, ela busca descobrir o subjacente, aquilo que está implícito; a nossa condição de humanidade, sem, no entanto, querer explicá-lo. Ela persegue o “valor mutante e mutável da palavra”, apenas questionando-o, buscando um sentido que lhe atenda naquele momento, o que se configura extremamente fugaz.
Embora exista a Literatura funcional e de entretenimento, o que não significa que o texto literário no qual se concentra a minha análise, não possa entreter ou informar, essa compreensão dependerá de quem lê, o objetivo da leitura e como se lê...essas diferentes formas de leitura deverão atender as necessidades e desejos de cada leitor.
O olhar poético não tem pressa em tirar conclusões, em interpretar, interferir intelectualmente no texto; num primeiro momento, apenas, se deixa afetar – relação de afeto que se estabelece entre os dois – neste momento o texto se deixa olhar sem pudor, e o leitor, como Augusto, o palhaço anárquico, se entrega à sua entrega.

quinta-feira, junho 17, 2010

Univerdal arbitrário (guacira maciel)


Passo...
dentro do meu carro
vidro fechado ar condicionado
porta travada som ligado
passo...
a música me traz lembranças
e divago...
mal me dou conta
do sinal fechado...
agora
quem passa é a massa
nem percebo vidas
apenas bundas
pernas e grávidas barrigas
me irrita o arbitrário do vermelho
e a massa passa...
lenta e colorida
ousando interromper minha corrida
pra mim agora
o verde sinaliza a liberdade
e à massa
que ansiosa aguarda
se impõe a arbitrariedade
do sinal vermelho
e que só percebo
na retrovisão do meu espelho...

domingo, junho 06, 2010

A Importância da Arte na Aprendizagem; textos ressonantes... (lançado em 04/06)

[...] Me pergunto qual seria, verdadeiramente, a natureza do homem e imagino que não temos a necessária compreensão da amplitude dessa natureza. Talvez isso explique por que buscamos na arte a possibilidade de um homem coletivo e menos solitário. Essa busca poderia admitir que ele se sente parte da totalidade que a humanidade (homem coletivo) representa, pela possibilidade de ser um com esse todo, ou o homem completo, remetendo-nos a uma visão algo mitológica, da busca da totalidade perdida, da sua outra metade(? ). Seria essa, também, uma função da arte? Em sendo assim, seria ela uma oportunidade de libertação de uma vida que subjuga e submete esse homem, podendo transformar-se numa espécie de redenção do observador, pela representação? Voltamos, então, à questão fundamental de que existe forte envolvimento da razão no trabalho do artista, como forma, inclusive, de controle da realidade e não, de um fenômeno delirante de pura imaginação(ver no livro, análise sobre o Aleijadinho).

sexta-feira, abril 30, 2010

A "fraude do aquecimento global" (guacira maciel)

As temperaturas atmosféricas e oceânicas já foram mais altas e mais baixas do que as atuais e a própria humanidade surgiu durante o período Quaternário, o de mais rápidas mudanças climáticas de toda a história da Terra. E antes que os estudos climáticos fossem capturados por uma agenda política, os períodos mais quentes que o atual eram denominados “ótimos climáticos”, pelas evidências científicas de que temperaturas moderadamente mais elevadas que as atuais são benéficas para a maior parte da biosfera, inclusive o Homem.

A fraude do aquecimento global supostamente causado pelo Homem está sendo manipulada para converter a atividade científica em um processo de “assembléia de consenso”, apoiado por uma mídia geralmente acrítica e anestesiada e pelos recursos técnicos de Hollywood. Por trás dela, encontram-se interesses políticos e econômicos inconfessáveis, que, enquanto promovem o aquecimento global como uma nova crença “ptolomaica”, empenham-se em faturar bilhões de dólares com a sua transformação em uma lucrativa indústria.
Por isso, é fundamental que o alarmismo “aquecimentista” seja devidamente neutralizado.
A discussão motivada pelo último relatório do Painel do Clima das Nações Unidas, quanto ao tema da mudança do clima, cria cada vez mais estranhas opiniões. Até o fim do mundo está sendo admitido seguidamente. Mas o fenômeno é tão velho como nosso planeta. Já desde sempre o clima da Terra está sujeito a variações que, em parte, ocorreram de maneira muito mais abrupta e dramática do que os agora geralmente prognosticados. Para o leigo, o debate atual sobre o efeito-estufa e aquecimento global é de difícil compreensão. O autor de bestseller, Kurt G. Blüchel, mostra os atuais caminhos errados, e expondo claramente as reais possibilidades da influência humana.

Nós vivemos hoje em um tempo de mudança. O período climático relativamente estável dos últimos 150 anos poderia chegar, dentro em breve, ao seu fim. Entretanto, os especialistas ainda não concordam sobre o que o futuro traz com mais probabilidade: frio gelado ou calor escaldante. Já os nossos antepassados precisavam suportar oscilações climáticas, deixando tudo o que é profetizado para os próximos cem anos, parecer uma leve brisa de primavera. Há 30.000 anos, o clima local da Europa oscilou, após mudanças das correntes marinhas, diversas vezes por quase dez graus Celsius dentro de uma única década – os homens de Neanderthal teriam gostado de trocar seus problemas de clima com os nossos.

Este medo de uma catástrofe do clima foi provocado principalmente pelo manuseio leviano de dados de medição totalmente insuficientes, aliado à confiança cega na capacidade prognóstica de supercomputadores. Desde então, conferências sobre clima são constantemente estilizadas para acontecimentos políticos grandiosos. Também muitos políticos parecem não ter certeza se, neste caso, trata-se realmente de um cenário global de fim de mundo ou somente de uma nova fonte lucrativa de impostos, que se pode sangrar com mais facilidade neste clima aquecido de debates.
(www.fakeclimate.com.br)

Perplexidade (guaciram maciel)

Sábado, fui andando com minha filha ao supermercado do Rio Vermelho, bairro onde moramos. Foi uma difícil decisão, porque o acesso à nossa rua é feito por uma ladeira de tirar o fôlego – na subida, é claro - porque na descida a gente só falta desembestar quebrando a cara lá embaixo e ainda dizem que pra descer todo santo ajuda...isso lá é ajuda de santo??
Pois é, entramos, compramos primeiro o que estávamos precisando e depois o que não estávamos, como por exemplo, um produto para o cabelo dela; aí, ficamos paradas em frente às prateleiras abarrotadas de produtos mágicos, que faziam as mais mirabolantes e mentirosas promessas. Decidimo-nos por um deles, e finalizamos nossa incursão pelo paraíso cosmético.
Quando, finalmente, chegamos ao caixa, minha filha disse:
__mãe, depois vamos ao caixa eletrônico tirar o dinheiro que você me deve, porque eu quero comprar um cartão para o meu celular.
__Pegue meu cartão do banco e vá lá, enquanto eu pago aqui, respondi.
__Ta bom. Antes, voltou-se para o rapaz do caixa:
__você tem cartão Vivo?
O rapaz olhou-nos de forma incompreensível; tendo no olhar uma interrogação, perguntou perplexo:
__ de quanto é a recarga?
__ De dez (reais), respondeu minha filha.
__Digite o número do celular, por favor.
__ Onde?
__ Aí, na maquininha...
__? Ta bom. Ela obedeceu.
__ Pronto! Disse ele.
__ Quer dizer que a recarga já está registrada no celular? Perguntou ela.
Eu, em total ignorância, permaneci muda.
__ Já! Disse ele, não entendendo nossa surpresa.
__ Você quer dizer, que a recarga foi direto dessa maquininha para o celular? Insisti.
Rindo com simpatia e um pouco de benevolência pela minha evidente ignorância, disse:
__ A senhora não sabia que isso já é possível?
__Nãããoo!...é fan-tás-ti-co!! Meu Deus...é legal, mesmo... Vou escrever uma crônica sobre isso. A-do-reei!! Como é simples, não dá trabalho...eu nem imaginava algo assim, tão simples e tão incrível...
__ É, sim, senhora. Não precisa raspar nada, disse ele.
__ É...Caramba!!... Bem, até logo e obrigada por me tirar da ignorância.
__ De nada, disponha, senhora. Até logo.
E aqui estou eu, ainda perplexa com o avanço da tecnologia, e escrevendo à mão, sobre todo esse progresso. Pode? ?

quarta-feira, abril 14, 2010

Uma tonalidade... (guacira maciel)

Bem...decidi que chega!
Chega de mentira, de enganação, de se ludibriar pessoas crédulas (ou sem educação??), e de manipular suas vidas...
Qual será a nossa capacidade de suportar essas mentiras? Até quando este pais vai fechar os olhos fingindo que tudo vai bem? que estamos vivendo o eldorado? o nosso pais está sendo roubado de nós, diante dos nossos olhos!... Não estamos vendo isto? Este pais é de todos nós; também somos responsáveis pelo que acontece agora. Meu Deus, estamos cegos, ou isso é pura covardia? Somos um país de povo pacífico ou covarde? Há uma enorme diferença entre os dois...
Após assistir um homem de ciência, DR. RICARDO AUGUSTO FELÍCIO (USP), nos abrir os olhos, em uma entrevista, sobre as questões mentirosas acerca do clima da terra, aliás, homens de ciência...homens que passaram (e passam)a vida estudando, e que precisam ter o nosso crédito; eles estão querendo nos abrir os olhos para que enxerguemos no que estão querendo transformar este grandioso país!
Para o Doutor Ricardo, tudo é uma questão de educação (ou falta dela)!

Sou educadora e gosto de escrever poemas...mas, por isso mesmo, me vejo na obrigação de falar o que postei aqui hoje, e peço que acessem os seguintes sites:

www.fakeclimate.com.br e www.midiaamais.com.br e REFLITAM!!

Só um flash do que estão deixando de saber, de aprender; leiam isto aqui...
Dr Ricardo Augusto Felício:
E na calada da noite, no período entre as festas, vemos o governo federal aprovar Leis de Mudanças Climáticas, mesmo com o fracasso total de Copenhague, pois os políticos brasileiros precisam, de qualquer forma, justificar[...], criação de novos impostos e cerceamento dos direitos civis do povo brasileiro. Ainda continuam com a conversa de metas de redução de emissões de CO2 (35 a 40%). Para quê? Ninguém no mundo assumiu nada e nós temos de estabelecer metas? E o pior de tudo: sabemos que tudo isso se baseia numa gigantesca mentira. O CO2 não é vilão de nada, não causa nenhum mal na atmosfera, muito menos aquece a Terra.
Dentre os vários absurdos, tivemos notícia de que [...]:
- Inspetores governamentais de agências fiscalizadoras fecharam diversas empresas (que eles diziam serem fajutas) e que fabricavam as lâmpadas incandescentes de R$1,00. Eram pequenas empresas, mas que a máfia do AGA, através de seus tentáculos, conseguiu colocar fora da “lei”. Vocês devem estar se perguntando: o que isso tem a ver? Simples: as grandes empresas não vão mais fabricar as lâmpadas incandescentes baratinhas "porque gastam muita energia". Só vão vender as caríssimas (e porcarias) fluorescentes de rosca (R$9,00) e as ultracaras LEDs (R$25,00). É assim que funciona: não mais a troca seletiva, voluntária e gradativa de tecnologias, mas a sua imposição por via legal. Quem não tem dinheiro, que fique no escuro! Menos liberdade de escolha e mais um ataque aos menos favorecidos, os mesmos que os políticos dizem defender.
E assim vamos. Enquanto o mundo começa a dizer não ao embuste do AGA, no Brasil não param de acrescentar novos problemas ao cotidiano das pessoas, isolando cada vez mais os que precisam de soluções simples e baratas. Assim são os nossos políticos, de qualquer partido, impondo dificuldades a todos para vender facilidades a alguns; tudo em nome do povo, é claro.

O autor é Professor do Departamento de Geografia-FFLCH/USP e Doutor em Climatologia

terça-feira, março 23, 2010

Cerebração (guacira maciel)

A sensibilidade presente em mim
transporta-me nas asas do “adágio em sol menor” de Albinoni
e na sonoridade etérea do mais puro cristal
a minha alma vagueia
percebo em meio ao desconsolo
dos tons pasteis
e do suave arfar do peito ainda dolorido
uma possibilidade de esquecimento
receosa
vasculho o universo
sem me deter em antigo porto
sou uma viajante do futuro
mas antigas paisagens
teimam em voltar sorrateiramente
guiando-me como uma cerebração
usando como cidadela
firme construção de pedras
da minha vontade consciente
rejeito-as todas
e logo salto na parada mais próxima
que hoje considero segura....

segunda-feira, março 08, 2010

Contrapondo... (guacira maciel)

(Este é parte do prólogo do meu próximo livro:A Importância da Arte na Aprendizagem, em fase final de revisão)

Meu trabalho, aqui exposto, é apenas um sussurro, embora ousado ao escapar da meia-voz...Uma transgressão fortalecida pela compreensão, entre outras experiências, do que li em um prefácio, e ouvi pessoalmente de Edgar Morin numa conferência:

"Acredito que nos tornamos intelectuais quando enfrentamos problemas humanos, morais, filosóficos, sociais, de forma não especializada [...]É preciso ter coragem intelectual"


O desejo não é o de entrar para o ‘seleto rol dos intelectuais’, mas o de poder me expressar sem que esteja ‘infligindo alguma lei do olimpo’, ou que o que digo aqui seja considerado um delírio. No presente é fundamental discutir a permanência da centralidade na ciência acadêmica como único caminho, assim como de seus métodos, sem diálogo com as percepções que levam por outros caminhos e respectivas comprovações. Este livro é o resultado do enfrentamento cotidiano de problemas humanos e, consequentemente, sociais, em anos e anos atuando na educação. Existirá problema mais humano e social que este?
Qualquer projeto de Educação precisa estar aberto aos questionamentos e às possibilidades do novo em todas as dimensões; em sendo assim, trago à discussão a percepção de que, como proposta de superação da fragmentação disciplinar, a Arte se constitui um riquíssimo e amplo caminho para ajudar a compreensão da possibilidade de expansão das idéias e do pensamento, na busca de evitar que os sujeitos, alvo dos sistemas, se tornem indecisos, frágeis e inconsistentes, para se tornarem libertos e “errantes”, na perspectiva de acolher essa possibilidade, e não uma verdade endurecida e única, comprovada e eternizada por uma ‘elite de pensadores’. Aliás, o próprio caminho é que deverá se constituir o objeto e o objetivo da proposta de educação para o momento em que estamos vivendo e para o que advirá, doravante sem condição de previsibilidade alguma. Precisamos nos colocar na condição de viajantes e observar que a paisagem muda à medida que caminhamos, apresentando novas exigências e que é preciso estar atentos, porque essa passagem nos acrescenta aprendizagens novas e outras formas de olhar, necessitando que mudemos a direção e observemos sob outras perspectivas. Isso ensina ao viajante.
Existem nuances do conhecimento que a ciência não explica, ou seja, não há como determinar que só é ciência o que a razão e o método explicam - mesmo porque os outros caminhos também têm sua lógica, sua filosofia e suas ‘razões’ - é imprescindível dialogar com a subjetividade e suas possibilidades; com os caminhos que só o são depois da passagem do viajante; aqueles que margeiam as ‘autopistas’, que acontecem de forma autodidata; além da própria Filosofia, porque somos sujeitos da história antes de tudo e essa se constitui uma condição primeira, uma condição antecedente, uma vez que temos experiências humanas comprováveis.
Sinto muita insatisfação, uma espécie de comichão, de inquietude muito apaixonada quando percebo o encaminhamento dessas questões com um determinismo que encerra a condição humana de extrapolar os cânones, as bitolas acadêmicas e o cientificismo, muitas vezes bastante estreitos, porque a vida é um arcabouço a ser preenchido quando percorridos os possíveis caminhos, e os sujeitos em suas vivências têm formas diferentes de caminhar, inclusive porque uma minoria não pode ditar regras para a multidão, nem encerrar o saber entre grades, se a cada segundo outras e outras formas diferentes se nos apresentam como possibilidade e se vão incorporando às identidades humanas, cuja porta precisará permanecer sempre entreaberta.
Nós, professores, precisamos nos desencaminhar; como viajantes precisamos observar o traçado dos 'cruzamentos', ou das 'encruzilhadas', como outras possíveis formas, criando elas mesmas uma nova retórica, sem essa institucionalização dos sistemas, que emperra, que endurece, que constrói grades, vindo a reinstalar uma ciência que no passado já percorreu um caminho único. É preciso lembrar que a (re)organização do cosmo partiu da sua própria desintegração; do caos. Então, propostas de políticas para uma educação que faça sentido, que tenha significado para a juventude só poderá ocorrer se percebermos a necessidade e tivermos a coragem e a força interior de desconstruir, de fazer ruir esse amontoado de propostas, e programas paliativos, sem consciência, compensatórios, emergenciais e inconsistentes, porque pouco profundos e filhos da falta de reflexão.
No pensamento de Jacques Derrida, ícone da teoria da abordagem Pós modernista, na Teoria das Organizações (TO), uma desconstrução que se fundamente no modo de construção original pode revelar significados ocultos, ou seja, possibilitar a construção de uma outra verdade/interpretação, ainda que temporária, que encaminhe para a pluralidade de discursos e conseqüente disseminação dessa outra 'verdade'.
A institucionalização, ou racionalidade com que impregnamos os instrumentos/sistemas, levam ao “aprisionamento das ações sociais, acabando por se refletir na concepção de justiça”.

Vem ocorrendo, de forma recorrente, uma situação que considero gravíssima nas nossas escolas brasileiras, como conseqüência da falta de conhecimento, compreensão dessa outra verdade/interpretação, e reflexão sobre as questões sociais, terminando por inviabilizar que a oferta de educação aconteça de forma irrestrita. Assim, as escolas se tornam reféns da institucionalização irracional dos sistemas. Aliás, a educação termina por se constituir uma oferta por força de lei, e não um direito anterior; o direito humano a educar-se.

E me veio ao pensamento Cecília Meireles:
“Renova-te.
Renasce em ti mesmo
Multiplica os teus olhos
para verem mais”.

quarta-feira, março 03, 2010

Ubiquidade (guacira maciel)


Não há melodia sem matizes
assim
obrigo-me a aceitar
a minha própria ubiquidade...
não sou sombra
não sou luz
há nesse não limite
um universo pessoal úbere
não percebido
subjetivo
límbico...
a minha própria morada
é transitória
onde eu mesma moro morro
e reacendo...
diluo-me
reencontro-me
e fujo para anular tormentos e delírios...
as palavras tintas
são corroidas pelas traças do tempo
e permaneço no compasso undívago...
então
não tenho morada
sou estrangeira em mim...
a minha alma permanece onipresente
caminhante ausente das vagas
numa complexidade indefinida
mas inexorável e definitiva...

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Sem objeção... (guacira maciel)

As cores eram mornas e suaves
como saidas de um sonho crepuscular...
não ousei perturbar a quietude
daquele quase sono
e permaneci imersa
rendida à natureza e sua mansidão...
o dia se diluia gris
sem objeção à luz do luar...
àquela paz não carecia me submeter
era branda...
abriguei-a...
não precisei correr atrás do sol
e suplicar que permanecesse mais um pouco
para derreter os cristais
pontiagudos de minh'alma
a noite era promessa de paz...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Aquece-te... (guacira maciel)

Não te apresses
não dilaceres
o eterno
nas garras fugases
da paixão
na voluptuosidade
não cabe a impaciência
aquece-te
arde
na gradual excitação
que antecede
o amor no ato
fundamental antes
amar
um estado de coragem
colhe a rubra
flor dos sentidos
na surpresa do toque
revelado em Vênus
mas tarde-se o fato...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Matizes (guacira maciel)

As palavras e seus significados têm matizes, têm nuances...os significados não mais impregnam indelevelmente as palavras com um unico sentido... Isso pode não ser validado pela ciência, mas tem uma lógica ou lógicas.
A loucura por exemplo, aquela loucura abissal, pode ser descrita e estudada pela ciência como um estado emocional patológico, mas existe uma outra loucura, um estado provisório, mas nem tão fugaz, de uma lucidez que nos conduz a especiais estados da alma...
A poesia, por exemplo, é um saber ao qual só uma espécie de loucura acometida permite acesso. Podendo ser uma nuance desta, mas não um processo psicótico. Sabemos, entretanto, que algumas das cabeças mais lúcidas que a humanidade já teve, por seu GÊNIO foram consideradas loucas e seus priviolegiados possuidores trancafiados em hospícios, porque não foram compreendidos pela boiada; ora, um búfalo entre vacas ou carneiros, sem dúvida causaria um estouro...
E mais, essas mentes mudaram conceitos, mudaram conhecimentos, de forma ampla e profunda; quem de nós, hoje, olha um girassol com o mesmo olhar de antes de ter conhecido os "Girassóis" de VanGogh? Poderíamos dizer com certeza que a coerência, a perfeição estética contidas nesta e em outras obras suas e de outros artistas seriam produtos da loucura? E quem teria um estado de tão perfeito equilíbrio e conhecimento das questões ligadas à subjetividade de cada um, a estados d'alma e aos seus próprios, a ponto de determinar esses limites?
Embora com uma genialidade diferente, Antonio Conselheiro já falara "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão..." ai já temos essa realidade, mas ainda veremos muito mais...o ultimo abalo ocorrido no Japão deslocou em 10cm o eixo da terra, mas está por vir um desses fenômenos que o deslocará em até 25 cm e, embora a teoria de Schumman seja desacreditada por alguns , ela nos aponta mudanças radicais e profundamente relacionadas com esta previsão, que dizem respeito às mudanças das pulsações do íntimo do nosso planeta; que seu coração estaria em absoluto descompasso, inclusive gerando todos esse desequilíbrios ecológicos, perturbações climáticas e até estados desconhecidos nos próprios seres humanos.
Fico refletindo sobre as contundentes mudanças que vêm ocorrendo no comportamento das pessoas e me perguntando até que ponto essa barbárie contemporânea que estamos vivenciando estaria sendo sendo desencadeada por elas...(?)

domingo, janeiro 24, 2010

Errante (guacira maciel)

Próprio de mim
raízes
erros
auroras
horizontes
abismos
confrontos
vocação pra liberdade
fronteiras
caminhos
possibilidades
contradições.

sábado, janeiro 16, 2010

Ai de ti... (guacira maciel)

Ai de ti
Haiti
choros
ais
a vida esvai-se
vida breve
infante
furta-se
em breve idade
e a terra mãe
em profundas dores
se contorce
em estertores...

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Manga rosa (guacira maciel)

Escrevo
e assim faço parar o tempo
pra ficar no exato momento
em que estou com você
antes que a chuva suceda as nuvens
que a poeira retorne à terra
que a vazante suceda a cheia
que à paz suceda a guerra
pra ficar no exato momento
em que durmo com você
segura e aquecida em seus braços
sentindo sua pele cheirosa
colorida que nem manga rosa
depois
que se quebre a bilha na fonte
e regando a terra
a semente
se derrame em fio de prata
e o sol
após dourada orgia
ainda sonolento
apareça no horizonte.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Margens (guacira maciel)

A tua lembrança
suave ou caótica
prevalece em meu coração
em minha cabeça
à margem do encontro
entre o rio e o mar
sim
ali ela é possível
num tempo inexistente
como um interregno
estás sempre no limite.
Dos pores de sol
como das auroras
da penumbra
ou círculo de luz dos abajures
da metamorfose da crisálida
e do voejar das borboletas
entre a dor e a felicidade
entre a presença e a saudade
entre os rouxinóis
e os corvos
entre o aprisionar
e a liberdade
entre a aurora boreal
e a tropicália
entre a chegada
e o adeus
entre o zênite e o nadir
entre os demônios e Zeus...

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Zênite fecundo

Te alimentas
da nobreza da guerreira celta em seus opostos
intrépida fêmea
Boudicca rainha
Invencível Andraste
e fértil
como a terra bronze.
E liberta...
Entre a sombra e a luz
te fazes amor e morte.
Profunda literatura espiralada.
Em teus retornos
escondem-se limites insuspeitados
irreconhecidos.
Na volúpia das curvas orgânicas sensíveis,
acolhedora Xangai tresloucada
vaticínio de submersas águas
de torvelinhos de cristal divinizados
percebo-te o zênite fecundo.
Abertos
ofertados
arrulhas a mim
incontrolável
palavras aladas
versos...

domingo, janeiro 03, 2010

Orpheu (guacira maciel)

...deu-me figos e castanhas
vinho doce como água de regato
e nada precisou ser dito
por interferência dos deuses
nos uniu a Eternidade...