Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, dezembro 20, 2009

O discurso da arte (guacira maciel)

A qualquer referência ouve-se dizer que arte não se discute, parecendo consenso que ela é para ser, apenas sentida, não oferecendo nenhuma possibilidade de estímulo à reflexão,  restringindo-se a atender especificamente as necessidades estéticas estando, portanto, sujeita ao sabor do gosto de cada um. Entretanto, contrariando essas afirmações, ouso dizer que a arte nos remete, sim, à reflexão, saindo da tirania dos sentidos e dos sentimentos, o que é comprovado quando, após vista e apreciada, uma obra de arte nos leva à tentação de ser tocada. Essa vontade, incontrolável às vezes, não é um estímulo puramente mecânico; ela é gerada no pensamento. Ao olhar sua beleza, sua plasticidade, refletimos, buscamos referências e fazemos conjecturas de como se nos parece macia, sensual, quente, viva...O que nos deixa loucos para tocá-la! Aliás, creio que a proibição de que levemos a efeito esse ato, deve ser, principalmente, para evitar a saciedade (eu acho mais expressivo saciamento) ou uma decepção, podendo seu autor manter o clima de dúvida e de mistério, fazendo com que se perpetue, assim, o estado de reflexão. O maior exemplo disto é o clima que envolve a Mona Lisa, um retrato de mulher que também não se tem certeza quanto à identidade (o mistério já começa ai...), tendo suscitado reflexões em todas as gerações, continentes e classes sociais em todos os tempos.
Com a arte literária ocorre um processo parecido, só que sem o estímulo da visão ou do toque, em busca da beleza; uma beleza que não precisa ser objetivada dessa forma, podendo permanecer na dimensão do refletido, o que significa uma outra estética, muito embora ela não esteja aprisionada no cérebro.
Realmente, a arte tem em sua essência a condição da transcendência, tornando o infinito possível.Porque ela lida com a construção de um universo estético, filosófico, sensorial, criar deve dar uma ilusão de poder, de Criador e, sendo a literatura uma maravilhosa e complexa arte, parte fundamental da cultura enquanto produção humana, constatando, informando, associando, comparando, contrapondo, ela expõe as mais variadas emoções e facetas das infinitas dimensões em que esse mesmo homem transita, porque quem escreve pode se movimentar no imaginário de quem lê. Essas emoções e sentimentos tão intrínsecos à sua natureza, à natureza humana, mostram uma impressionante atualidade, evidenciando o quanto o homem não evoluiu, o quanto suas questões sempre estiveram no presente, o quanto elas são universais desde sempre, sem qualquer aprisionamento, suscitando sentimentos de vulnerabilidade, algumas vezes dramáticos.
Estou querendo aqui, posicionar a literatura em especial, como um veículo de reflexão, sem deixar de ser arte, que nos possibilita a nós, milênios mais experientes e mais sofridos, a constatação do quanto abrigamos sentimentos e emoções ancestrais, primitivas. Às vezes chego a duvidar que partilhamos do divino em nossa essência. E isso muito me incomoda, porque, como pessoa que sempre acreditou na arte como possibilidade de busca e exposição do melhor ser humano que possamos ser, percebo, também, o quanto a nossa condição de “não-humanidade” é verdadeira. E não estou, absolutamente, me referindo às patologias; essas não são objeto de análise do artista, mas do médico.
Quero tomar como referência Marcos Palácios (Pilhagem dos imaginários, 1985), pela absoluta necessidade de demonstrar o quanto da Criatura Frankenstein, obra do Dr. Victor Frankenstein, temos todos nós. Tendo encontrado e lido obras literárias, esquecidas num canto por alguém, estando entre elas, “Os Sofrimentos do Jovem Worther”, de Goethe, o famoso monstro pode conhecer a dimensão do que seria “o humano”, através do discurso da arte e, para sua tristeza, pode também entender a dor da sua condição de “não-humanidade”. Também estou analisando o potencial da arte literária, enquanto elemento desencadeador de sensibilidades, a ponto de emocionar, ainda que por frações de segundo, essa Criatura, refém da vaidade ou genialidade de um ser (ou não ser) humano, e mais, analisando essas polaridades observamos o quanto de Criatura tem seu criador, isto é, o quanto um se aproxima do outro, embora em posições diferentes: o criador tendo o controle, o poder, o egoísmo se aproxima da monstruosidade da Criatura, e esta, embora condicionada e manipulada também querendo se aproximar da humanidade deste.
A intenção é expor uma inquietação; uma forma de alertar, de sinalizar a todos nós, humanidade, totalidade perigosamente sem identidade e abstrata, o quanto somos capazes de ferir, de destruir, o quanto somos egoístas, manipuladores, escravizadores e escravizados por sentimentos menores; mas também capazes de atos maravilhosos de amor, de desapego, de amizade, e, se somos capazes de produzir arte, é porque, como unidade, como ser individual, privado, obra-prima da criação, paradoxalmente criatura e criador, não somos um caso perdido...

3 comentários:

O Sibarita disse...

Oba! A moça postou! kkkkk Tava com preguiça, foi fia? Tava não? Ah, bom... kkkkkk

Sim, a arte nos leva a reflexão sim! Se assim não for, não é arte ou é?

Sinceramente, há de se perguntar e o que é arte? Sabe, tem tantas coisas porretas que não se olha com o olhar de como se fosse arte e é arte segundo os críticos.

Veja, uma pintura abstrata por ignorância ou não muitas das vezes não é considerada uma arte e é uma arte com certeza!

Realmente uma obra de arte aguça o desejo por vezes incontrolável de tocar, sentir, desejar...

A arte é o livre pensar, eis ai a confirmação do que você diz, a liberdade do tudo, a criação ninguém censura, a criação é livre arbítrio de cada um!

PORRETA SEU TEXTO!

Bom desejo-lhe um Ano novo vheio de vitórias, de conquistas, de paz, de harmonia, de fé, de caridade, de bondade e de felicidade!

Oi que bom! kkkkkk

bjs
O Sibarita

Guacira Maciel disse...

Obrigada meu amigo (oculto, rsss)
Venho tendo, mesmo, muita preguiça de postar aqui, porque percebo que meu objetivo ao criar o blogue, que era o de partilhar, discutir, realizar trocas, não vem ocorrendo...Ou o que escrevo não interessa, ou não me faço entender, ou escrevo muito mal...(risos).
FELIZ ANO NOVO!!!!!Que possa ter tudo o que desejar.
Beijo.

O Sibarita disse...

Ô sua menina! kkkk Você escreve é muitíssimo bem, faça fé!

Lá eu, não é poeta e nem me acho, mas, tenha certeza que você é uma das melhores que conheço!

O problema é que as pessoas na sua maioria que tem blog só vão naqueles que vão nos deles, é isso.

Não acho certo, mas, é assim que funbciona, eu não tenho esse problema, se vo num blog e gosto retorno sempre sem esperar que vão no Sibarita.

Oi sabe, eu acho você PORRETA! Tem pessoas que mesmo sem a gente conhecer pessoalmente nutre de cara uma grande simpatia pelo que escreve, você é uma delas.

Oculto por enquanto, como somos da mesma cidade quem sabe não nos conheçamos por ai?

Na realidade, sou uma pessoa simples, sou nascido e criado na cidade baixa, embora, não more mais lá.

bjs
O Sibarita