Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, dezembro 28, 2009

A quatro mãos (II) (guacira maciel)

Eu fui o porto
que abrigou
o desconforto pelas investidas
contra as frágeis velas enfunadas
por ventos infestos
na tormenta das grandes marés...
eu fui a enseada fértil e esmeralda
que acolheu na mornidade
a cópula de águas complementares
tornadas insalubres
o teu desejo em brasa...
eu fui abrigo
do impudor do teu amor
de inocência quase púbere
fui incentivo para as tuas asas coloridas
experimentadas sem perícia
em vôos de grandes altitudes
destroçadas pela incompreensão...
mas à calidez do regaço da pequena ecologia
ao abrigo silencioso da preamar na madrugada
às rendas brincalhonas feitas pela luz do sol
nas superfícies cristalinas
preferiste a solidão
bronze do alto mar
as investidas superficiais e inférteis
do fausto e do brilho do navio pirata
cujo casco é arremessado contra a aridez das ondas sólidas do nada afinal
que no entardecer
errante
sobrevive da nostalgia
da frieza do assalto fortuito
buscando na frágil linha do horizonte
uma promessa ilusória...

domingo, dezembro 20, 2009

O discurso da arte (guacira maciel)

A qualquer referência ouve-se dizer que arte não se discute, parecendo consenso que ela é para ser, apenas sentida, não oferecendo nenhuma possibilidade de estímulo à reflexão,  restringindo-se a atender especificamente as necessidades estéticas estando, portanto, sujeita ao sabor do gosto de cada um. Entretanto, contrariando essas afirmações, ouso dizer que a arte nos remete, sim, à reflexão, saindo da tirania dos sentidos e dos sentimentos, o que é comprovado quando, após vista e apreciada, uma obra de arte nos leva à tentação de ser tocada. Essa vontade, incontrolável às vezes, não é um estímulo puramente mecânico; ela é gerada no pensamento. Ao olhar sua beleza, sua plasticidade, refletimos, buscamos referências e fazemos conjecturas de como se nos parece macia, sensual, quente, viva...O que nos deixa loucos para tocá-la! Aliás, creio que a proibição de que levemos a efeito esse ato, deve ser, principalmente, para evitar a saciedade (eu acho mais expressivo saciamento) ou uma decepção, podendo seu autor manter o clima de dúvida e de mistério, fazendo com que se perpetue, assim, o estado de reflexão. O maior exemplo disto é o clima que envolve a Mona Lisa, um retrato de mulher que também não se tem certeza quanto à identidade (o mistério já começa ai...), tendo suscitado reflexões em todas as gerações, continentes e classes sociais em todos os tempos.
Com a arte literária ocorre um processo parecido, só que sem o estímulo da visão ou do toque, em busca da beleza; uma beleza que não precisa ser objetivada dessa forma, podendo permanecer na dimensão do refletido, o que significa uma outra estética, muito embora ela não esteja aprisionada no cérebro.
Realmente, a arte tem em sua essência a condição da transcendência, tornando o infinito possível.Porque ela lida com a construção de um universo estético, filosófico, sensorial, criar deve dar uma ilusão de poder, de Criador e, sendo a literatura uma maravilhosa e complexa arte, parte fundamental da cultura enquanto produção humana, constatando, informando, associando, comparando, contrapondo, ela expõe as mais variadas emoções e facetas das infinitas dimensões em que esse mesmo homem transita, porque quem escreve pode se movimentar no imaginário de quem lê. Essas emoções e sentimentos tão intrínsecos à sua natureza, à natureza humana, mostram uma impressionante atualidade, evidenciando o quanto o homem não evoluiu, o quanto suas questões sempre estiveram no presente, o quanto elas são universais desde sempre, sem qualquer aprisionamento, suscitando sentimentos de vulnerabilidade, algumas vezes dramáticos.
Estou querendo aqui, posicionar a literatura em especial, como um veículo de reflexão, sem deixar de ser arte, que nos possibilita a nós, milênios mais experientes e mais sofridos, a constatação do quanto abrigamos sentimentos e emoções ancestrais, primitivas. Às vezes chego a duvidar que partilhamos do divino em nossa essência. E isso muito me incomoda, porque, como pessoa que sempre acreditou na arte como possibilidade de busca e exposição do melhor ser humano que possamos ser, percebo, também, o quanto a nossa condição de “não-humanidade” é verdadeira. E não estou, absolutamente, me referindo às patologias; essas não são objeto de análise do artista, mas do médico.
Quero tomar como referência Marcos Palácios (Pilhagem dos imaginários, 1985), pela absoluta necessidade de demonstrar o quanto da Criatura Frankenstein, obra do Dr. Victor Frankenstein, temos todos nós. Tendo encontrado e lido obras literárias, esquecidas num canto por alguém, estando entre elas, “Os Sofrimentos do Jovem Worther”, de Goethe, o famoso monstro pode conhecer a dimensão do que seria “o humano”, através do discurso da arte e, para sua tristeza, pode também entender a dor da sua condição de “não-humanidade”. Também estou analisando o potencial da arte literária, enquanto elemento desencadeador de sensibilidades, a ponto de emocionar, ainda que por frações de segundo, essa Criatura, refém da vaidade ou genialidade de um ser (ou não ser) humano, e mais, analisando essas polaridades observamos o quanto de Criatura tem seu criador, isto é, o quanto um se aproxima do outro, embora em posições diferentes: o criador tendo o controle, o poder, o egoísmo se aproxima da monstruosidade da Criatura, e esta, embora condicionada e manipulada também querendo se aproximar da humanidade deste.
A intenção é expor uma inquietação; uma forma de alertar, de sinalizar a todos nós, humanidade, totalidade perigosamente sem identidade e abstrata, o quanto somos capazes de ferir, de destruir, o quanto somos egoístas, manipuladores, escravizadores e escravizados por sentimentos menores; mas também capazes de atos maravilhosos de amor, de desapego, de amizade, e, se somos capazes de produzir arte, é porque, como unidade, como ser individual, privado, obra-prima da criação, paradoxalmente criatura e criador, não somos um caso perdido...

domingo, dezembro 06, 2009

Em botão... (guacira maciel)


A mucosa da minha boca
ainda retém o gosto
das palavras em botão
agora flor despetalada
ditas em fluxo rubro
hemorrágico
nascido das tuas profundezas
ora barcos a vela
ora preamares
em horizontes sem limites
abertos selváticos
expostos à pálida luz
restos nostálgicos
da recente cópula de outro poema
vivida entre o sol e a lua
na pele do meu rosto
ainda escaldante
as impressões das tuas mãos suaves
pérfida seda
cujos toques eram sonoros
em minh’alma
acima das nossas cabeças
o teto de infinito azul
gazebo imaginário
não abrigava dos ventos oceânicos
os meus cabelos
refrescados intempestivamente
cegando meus olhos
se derramaram lágrimas
nascidas no coração
como enchentes dos teus
nossos segredos revelados
na geografia das nossas almas
cujas aversão à solidão
nos fizeram voltar e voltar
são o enigma que nos fascina
e nos obriga a retornar das auroras
ao crepúsculo
como pequeninos pontos
imóveis ao olhar de quem fica.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Sem âncoras... (guacira maciel)

Batido ao vento
barcos à deriva
sem âncoras
entremeados
da solenidade dos verdes dos musgos
agarrados aos cascos
como crustáceos à pedra
já não tem sentido o cais
ventos pagãos
roçam a tua tez
e saboreio nela a brisa escorrida
com cheiro de maresia
misturado ao teu arfar cansado
aceso
o hálito doce
impede-me o sono
atormentada anseio
por te ter na boca
à madrugada
pelas janelas escancaradas
como sinto teus poros,
lavradas em cristal,
penetram-me borbulhas de mar
antegozando o favo
e meus pés entrelaçados aos teus
cansados
mornos
divindade
casto
louco
pousas
mergulhas
danças
avaporas-te

terça-feira, dezembro 01, 2009

Menina iris (guacira maciel)

Olha-me...
grava na retina
um semblante dolorido
perplexo
a surpresa da compreensão do nada afinal...
olha-me hoje
aguardo-te verter
um vislumbre de luz
sobre esta imagem
que já estará perdida
nos escombros
que construíste como proteção
e percebe que sou
a outra parte da tua alma
perdendo-se...
não quero mais a fúria da verdade
aliás não há verdade
há corpos vazios
que secam no presente
e se esvaem...
insisto na maldade de dizer tudo
e busco os signos
de algum entendimento.
a menina iris
dos meus olhos
se curvou cabisbaixa
abraçando os joelhos
sobre a antiga balaustrada
alegre dos seios fartos
angustiada e solitária
estás cego...
não há circo
nem palhaços no picadeiro
a ribalta está escura.
desce
já trocaste a tua máscara
pela definitiva face
está escuro...