Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, outubro 23, 2009

Sereias; fragmento de "Penélope". (guacira maciel)

As Sereias sempre exerceram e continuam a exercer um tremendo poder de sedução comum a todos - não apenas aos homens - por sua natureza misteriosa; uma espécie de chave de uma incógnita: duas metades de seres completamente estranhos um ao outro (mulher e peixe). No episódio da volta de Ulisses à casa, a sedução do canto das Sereias punha em grande perigo sua vida, e ele só lhe resistiu por encontrar-se amarrado ao mastro da embarcação. Na tentativa de explicar a questão poderíamos nos reportar aos mitos, como já fizeram outros autores, fazendo algumas interessantes analogias sujeitas às possibilidades de interpretação e, neste caso, as submissões do homem quanto a suas necessidades/ dificuldades de assumir uma identidade, também já analisado por Freud.
Isso é tão forte, talvez pela própria ausência de explicação, de desvendamento, que apesar de meu foco aqui ter sido, inicialmente, a mulher Penélope e seu comportamento naquela sociedade, me vi seduzida e fascinada também pelo que ocorreu com Ulisses (o meu canto da sereia...).
Sabe-se que após retornar do Hades, ele voltou à mansão da feiticeira, que, preocupada, o instruiu a resistir ao perigoso e mortífero canto das Sereias no caminho de volta para casa, embora ele mesmo não tivesse demonstrado preocupação, talvez pela ânsia de reencontrar a mulher e o filho.
O que representava o verdadeiro perigo não eram as Sereias, mas o seu canto; portanto, a sedução, o encantamento se dava através dele; razão pela qual a deusa dissera a Ulisses que os ouvidos dos seus tripulantes deveriam ser tapados com cera, e ele amarrado ao mastro da embarcação, já que decidira ouvi-lo. E recomendou que não poderia ser desamarrado fosse qual fosse o apelo que fizesse. Entretanto, na hora em que a melodia embriagadora lhe chegou aos ouvidos, Ulisses, desesperado, bradou, gritou ordens superiores aos homens, que, tendo os ouvidos tapados não puderam obedecer-lhe. Também acho importante chamar a atenção para a sedução que a música (o canto, no caso), a arte, vem exercendo sobre as pessoas através dos tempos e não vou resistir em fazer uma analogia com o que disse em sua obra, tanto Erasmo, como Nietishe e tantos outros e até o próprio Platão (embora contraditório), sobre sua influência na vida das pessoas.
O mais importante, uma vez que os mitos se constituem um dos caminhos de desvendamento das nossas questões, é que a obra nos apresenta muitas possibilidades de análise: Adorno e Horkheimer, por exemplo, nos conduzem ao Iluminismo/Esclarecimento e aos processos de submissão/dominação do mito pela razão; as angústias da natureza interior e exterior do homem, como o medo da morte, sua fragilidade perante a natureza e perante o poder de poucos exercido sobre a maioria. Percebendo-se que o Esclarecimento, em “em vez de livrar os homens do medo e investi-los na posição de senhores” como era a proposta do Iluminismo, submete-os à dominação pelas várias formas de poder...