Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, abril 05, 2009

Fantasmas... (guacira maciel)

Estou escrevendo sobre uma saga de família, da Chapada, mas não posso continuar sem tomar partido, sem optar por uma tonalidade, fingindo que todas as cores são iguais; preciso parar e voltar um pouco sobre uma história que já foi vivida.

Hoje, aquela parece uma terra sem filhos; terra cujos seios foram sugados até sangrar; cujo ventre teve suas víceras expostas, reviradas e devoradas por batalhões de formigas gigantes, predadoras, silenciosas, vorazes, que lhe sugaram os mais íntimos sucos, deixando-a calcinada, exangue, murcha, exaurida e caída sobre as próprias dobras de pele ressequida, onde se formaram enormes buracos que expunham como fantasmas esfarrapados, as entranhas de uma terra sem orgulho, sem pudor.
Foram dedos sangrentos pelas marretadas cujas articulações mais pareciam antigas dobradiças, já invisíveis por causa do inchaço, que faziam lembrar garras; dentes podres em bocas de hálito fétido, somado ao oco de estômagos completamente vazios há dias, famintos, donde só se ouviam os ecos dos gases que os empanzinavam e iludiam. Eram olhos cuja menina se transformara em raios febris, ardentes, que se perdiam nas noites orbitais, fundas, sem brilho, vítreos, vermelhos por causa da graça do sono que não lhes fora concedida, assentados sobre caras mascaradas pelo pó que esculpia novos seres, e tão permanente nas escavações, que não poupava nem o terceiro olho que, por vezes, se lhes acrescentavam, fazendo lembrar os terríveis ciclopes. Eram restos de unhas ocres, purulentas, que rasgavam a nu a terra, ferindo e infectando sua mucosa antiga, brilhante, acetinada, buscando usufruir de um cio que não lhes era devido.
E os corações? deles o grito ensaiado para a hora esperada e temida, que sequer lhes chegava à garganta por ausência da saliva lubrificante; apenas um choro seco vertido por corpos desidratados, quase mumificados, que se arrastavam com seus dorsos alquebrados sobre a desistência da terra e seu silêncio dolorido. O mais inacreditável é que pareciam não se deixar afetar ao término do dia, do qual já nem lembravam o brilho, a cor, a luz. Não se queixavam, não desanimavam de alcançar o objetivo primeiro; só a morte os arrancava dali; não desistiam do seu sonho; mas de si, via-se que sim! Porém, pareciam já anestesiados, não exibiam a dor que lhes oprimia o peito, fazendo abater a alma...