Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, dezembro 28, 2009

A quatro mãos (II) (guacira maciel)

Eu fui o porto
que abrigou
o desconforto pelas investidas
contra as frágeis velas enfunadas
por ventos infestos
na tormenta das grandes marés...
eu fui a enseada fértil e esmeralda
que acolheu na mornidade
a cópula de águas complementares
tornadas insalubres
o teu desejo em brasa...
eu fui abrigo
do impudor do teu amor
de inocência quase púbere
fui incentivo para as tuas asas coloridas
experimentadas sem perícia
em vôos de grandes altitudes
destroçadas pela incompreensão...
mas à calidez do regaço da pequena ecologia
ao abrigo silencioso da preamar na madrugada
às rendas brincalhonas feitas pela luz do sol
nas superfícies cristalinas
preferiste a solidão
bronze do alto mar
as investidas superficiais e inférteis
do fausto e do brilho do navio pirata
cujo casco é arremessado contra a aridez das ondas sólidas do nada afinal
que no entardecer
errante
sobrevive da nostalgia
da frieza do assalto fortuito
buscando na frágil linha do horizonte
uma promessa ilusória...

domingo, dezembro 20, 2009

O discurso da arte (guacira maciel)

A qualquer referência ouve-se dizer que arte não se discute, parecendo consenso que ela é para ser, apenas sentida, não oferecendo nenhuma possibilidade de estímulo à reflexão,  restringindo-se a atender especificamente as necessidades estéticas estando, portanto, sujeita ao sabor do gosto de cada um. Entretanto, contrariando essas afirmações, ouso dizer que a arte nos remete, sim, à reflexão, saindo da tirania dos sentidos e dos sentimentos, o que é comprovado quando, após vista e apreciada, uma obra de arte nos leva à tentação de ser tocada. Essa vontade, incontrolável às vezes, não é um estímulo puramente mecânico; ela é gerada no pensamento. Ao olhar sua beleza, sua plasticidade, refletimos, buscamos referências e fazemos conjecturas de como se nos parece macia, sensual, quente, viva...O que nos deixa loucos para tocá-la! Aliás, creio que a proibição de que levemos a efeito esse ato, deve ser, principalmente, para evitar a saciedade (eu acho mais expressivo saciamento) ou uma decepção, podendo seu autor manter o clima de dúvida e de mistério, fazendo com que se perpetue, assim, o estado de reflexão. O maior exemplo disto é o clima que envolve a Mona Lisa, um retrato de mulher que também não se tem certeza quanto à identidade (o mistério já começa ai...), tendo suscitado reflexões em todas as gerações, continentes e classes sociais em todos os tempos.
Com a arte literária ocorre um processo parecido, só que sem o estímulo da visão ou do toque, em busca da beleza; uma beleza que não precisa ser objetivada dessa forma, podendo permanecer na dimensão do refletido, o que significa uma outra estética, muito embora ela não esteja aprisionada no cérebro.
Realmente, a arte tem em sua essência a condição da transcendência, tornando o infinito possível.Porque ela lida com a construção de um universo estético, filosófico, sensorial, criar deve dar uma ilusão de poder, de Criador e, sendo a literatura uma maravilhosa e complexa arte, parte fundamental da cultura enquanto produção humana, constatando, informando, associando, comparando, contrapondo, ela expõe as mais variadas emoções e facetas das infinitas dimensões em que esse mesmo homem transita, porque quem escreve pode se movimentar no imaginário de quem lê. Essas emoções e sentimentos tão intrínsecos à sua natureza, à natureza humana, mostram uma impressionante atualidade, evidenciando o quanto o homem não evoluiu, o quanto suas questões sempre estiveram no presente, o quanto elas são universais desde sempre, sem qualquer aprisionamento, suscitando sentimentos de vulnerabilidade, algumas vezes dramáticos.
Estou querendo aqui, posicionar a literatura em especial, como um veículo de reflexão, sem deixar de ser arte, que nos possibilita a nós, milênios mais experientes e mais sofridos, a constatação do quanto abrigamos sentimentos e emoções ancestrais, primitivas. Às vezes chego a duvidar que partilhamos do divino em nossa essência. E isso muito me incomoda, porque, como pessoa que sempre acreditou na arte como possibilidade de busca e exposição do melhor ser humano que possamos ser, percebo, também, o quanto a nossa condição de “não-humanidade” é verdadeira. E não estou, absolutamente, me referindo às patologias; essas não são objeto de análise do artista, mas do médico.
Quero tomar como referência Marcos Palácios (Pilhagem dos imaginários, 1985), pela absoluta necessidade de demonstrar o quanto da Criatura Frankenstein, obra do Dr. Victor Frankenstein, temos todos nós. Tendo encontrado e lido obras literárias, esquecidas num canto por alguém, estando entre elas, “Os Sofrimentos do Jovem Worther”, de Goethe, o famoso monstro pode conhecer a dimensão do que seria “o humano”, através do discurso da arte e, para sua tristeza, pode também entender a dor da sua condição de “não-humanidade”. Também estou analisando o potencial da arte literária, enquanto elemento desencadeador de sensibilidades, a ponto de emocionar, ainda que por frações de segundo, essa Criatura, refém da vaidade ou genialidade de um ser (ou não ser) humano, e mais, analisando essas polaridades observamos o quanto de Criatura tem seu criador, isto é, o quanto um se aproxima do outro, embora em posições diferentes: o criador tendo o controle, o poder, o egoísmo se aproxima da monstruosidade da Criatura, e esta, embora condicionada e manipulada também querendo se aproximar da humanidade deste.
A intenção é expor uma inquietação; uma forma de alertar, de sinalizar a todos nós, humanidade, totalidade perigosamente sem identidade e abstrata, o quanto somos capazes de ferir, de destruir, o quanto somos egoístas, manipuladores, escravizadores e escravizados por sentimentos menores; mas também capazes de atos maravilhosos de amor, de desapego, de amizade, e, se somos capazes de produzir arte, é porque, como unidade, como ser individual, privado, obra-prima da criação, paradoxalmente criatura e criador, não somos um caso perdido...

domingo, dezembro 06, 2009

Em botão... (guacira maciel)


A mucosa da minha boca
ainda retém o gosto
das palavras em botão
agora flor despetalada
ditas em fluxo rubro
hemorrágico
nascido das tuas profundezas
ora barcos a vela
ora preamares
em horizontes sem limites
abertos selváticos
expostos à pálida luz
restos nostálgicos
da recente cópula de outro poema
vivida entre o sol e a lua
na pele do meu rosto
ainda escaldante
as impressões das tuas mãos suaves
pérfida seda
cujos toques eram sonoros
em minh’alma
acima das nossas cabeças
o teto de infinito azul
gazebo imaginário
não abrigava dos ventos oceânicos
os meus cabelos
refrescados intempestivamente
cegando meus olhos
se derramaram lágrimas
nascidas no coração
como enchentes dos teus
nossos segredos revelados
na geografia das nossas almas
cujas aversão à solidão
nos fizeram voltar e voltar
são o enigma que nos fascina
e nos obriga a retornar das auroras
ao crepúsculo
como pequeninos pontos
imóveis ao olhar de quem fica.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Sem âncoras... (guacira maciel)

Batido ao vento
barcos à deriva
sem âncoras
entremeados
da solenidade dos verdes dos musgos
agarrados aos cascos
como crustáceos à pedra
já não tem sentido o cais
ventos pagãos
roçam a tua tez
e saboreio nela a brisa escorrida
com cheiro de maresia
misturado ao teu arfar cansado
aceso
o hálito doce
impede-me o sono
atormentada anseio
por te ter na boca
à madrugada
pelas janelas escancaradas
como sinto teus poros,
lavradas em cristal,
penetram-me borbulhas de mar
antegozando o favo
e meus pés entrelaçados aos teus
cansados
mornos
divindade
casto
louco
pousas
mergulhas
danças
avaporas-te

terça-feira, dezembro 01, 2009

Menina iris (guacira maciel)

Olha-me...
grava na retina
um semblante dolorido
perplexo
a surpresa da compreensão do nada afinal...
olha-me hoje
aguardo-te verter
um vislumbre de luz
sobre esta imagem
que já estará perdida
nos escombros
que construíste como proteção
e percebe que sou
a outra parte da tua alma
perdendo-se...
não quero mais a fúria da verdade
aliás não há verdade
há corpos vazios
que secam no presente
e se esvaem...
insisto na maldade de dizer tudo
e busco os signos
de algum entendimento.
a menina iris
dos meus olhos
se curvou cabisbaixa
abraçando os joelhos
sobre a antiga balaustrada
alegre dos seios fartos
angustiada e solitária
estás cego...
não há circo
nem palhaços no picadeiro
a ribalta está escura.
desce
já trocaste a tua máscara
pela definitiva face
está escuro...

segunda-feira, novembro 30, 2009

Aquece-te... (guacira maciel)

Não te apresses
não dilaceres
o eterno
nas garras fugazes
da paixão
na voluptuosidade
não cabe a impaciência
aquece-te
arde
na gradual excitação
que antecede
o amor no ato
fundamental
antes
amar
um estado de coragem
colhe a rubra
flor dos sentidos
na surpresa do toque
revelado em Vênus
mas tarde-se o fato

quarta-feira, novembro 25, 2009

"A bofetada..." (guacira maciel)



Até agora nunca havia pensado em escrever nada relacionado com a dramaturgia sob qualquer aspecto e muito menos sobre novelas de televisão, porque é um assunto que não ocupa a minha cabeça e também porque não tenho paciência para acompanhá-las por meses a fio...
Porém, como por acaso havia assistido o capítulo “da bofetada”, no domingo, em frente ao mar, pude participar de um papo bem interessante sobre a questão, envolvendo o ultimo número (47 de 26 de nov. 2009) da Revista Veja, e fui acometida de uma estranha comichão que me levou a fazer estas ponderações aqui, acerca de algumas questões recorrentes no cenário brasileiro, a partir da novela “Viver a vida”.
O mote da nossa discussão foi o posicionamento, “no site da CUT, da Sra. Maria Júlia Nogueira, secretária da central sindical” de que “a Globo humilha os negros no mês da consciência negra”, trazendo à tona, mais uma vez, essa incapacidade de superação que mantém reféns pessoas que precisam por si mesmas se sentir iguais, sem nenhum sentimento de comiseração por parte de outrem. Pois não é isso que buscamos no nosso país mestiço? Não é essa consciência de igualdade entre os seres? Por que, então, sempre tendemos a voltar no tempo, parecendo que gostamos de nos sentir menores?
Por maioria as pessoas do grupo, indignadas, consideraram um despropósito o comentário dessa senhora. A um dos presentes, negro, pareceu que fora do mês da consciência negra seria admissível tal desrespeito(? ). Para ela a bofetada levada por Helena a colocaria numa posição qualificada como tipicamente do escravo em posição de submissão diante do escravizador(?). E por que, quando ela (Helena) deu um sonoro tabefe em sua chatíssima enteada, Luciana, ninguém manifestou qualquer sentimento de abuso, ou de segregação?

O diferencial é que a atriz que encarna Helena foi escolhida para protagonista em um horário nobre, representando uma mulher de sucesso numa carreira difícil, sem ter tido necessidade de levantar nenhuma bandeira; só isso!
Agora, achei de péssimo gosto (no mínimo) um ser humano se quedar ajoelhada diante de um semelhante a pedir perdão...horrível, seja o sujeito da etnia que for! até porque, ambas estavam impregnadas de dores anteriores e, portanto, de culpas intimas, pessoais, não cabendo ali tal pedido. Por que Tereza (a ex mulher) colocou sobre ombros alheios tamanha responsabilidade? na verdade, por ter identificado em Helena uma culpa muito semelhante à sua? Muita coisa a ser repensada...
Entretanto, uma outra análise, isenta, precisa ser feita acerca do trabalho da atriz (que encarna Helena), até agora sem qualquer consistência, em que pese seus bons desempenhos em trabalhos anteriores, principalmente um bem recente, na pele da dolorida e rebelde filha de um personagem muito conhecido da vida real brasileira, o corrupto político (um deputado.....). A Helena vem sendo representada com absoluta brandura (em uma nota só), fato que atribuo ao pouco tempo para elaboração interna das boas experiências anteriores vividas pela atriz, de forma a que pudesse amadurecer o necessário para protagonizá-lo com plenitude.
Aliás, não fora a percepção (ou não) do autor de precisar conferir mais dramaticidade ao papel da moça - que já implorava o próprio óbito, e nem digo-o por causa das Helenas anteriores, quem sabe até sofrendo ela mesma, o acidente em lugar da mimada Luciana - terminando por dar uma guinada no destino da novela, a nossa Helena, de qualquer jeito, terminaria por morrer afogada no próprio vale de lágrimas...

terça-feira, novembro 03, 2009

Geografias... (guacira maciel)

Conheço a geografia física do teu corpo
que se integra ao meu na química
mágica da alquimia
conheço o teu relevo
desde as texturas que protegem a tua pele
as nuances de cores que suaves
aprofundam o encontro das nascentes
até o gosto de cada região
me banho na fluidez
que escorre da tua emoção represada
tentando conter o empuxo natural
que prefere cumprir o vaticínio do encontro
na ondulação das marés
conheço os sinais das mudanças de estação
no teu semblante
e na desarmonia do toque apressado dos teus dedos
posso tocar o esgarçar de nuvens suaves no teu sorriso
correr atrás das borboletas azuis do teu olhar
e me retrair aos nimbos escuros do teu medo
mas
sobretudo
reconheço a antiga
e eterna geografia da tua essência
refletida nos raios dourados
que teimosos colorem
as frestas azuis
por onde escapa tímida a tua alma

sexta-feira, outubro 23, 2009

Sereias; fragmento de "Penélope". (guacira maciel)

As Sereias sempre exerceram e continuam a exercer um tremendo poder de sedução comum a todos - não apenas aos homens - por sua natureza misteriosa; uma espécie de chave de uma incógnita: duas metades de seres completamente estranhos um ao outro (mulher e peixe). No episódio da volta de Ulisses à casa, a sedução do canto das Sereias punha em grande perigo sua vida, e ele só lhe resistiu por encontrar-se amarrado ao mastro da embarcação. Na tentativa de explicar a questão poderíamos nos reportar aos mitos, como já fizeram outros autores, fazendo algumas interessantes analogias sujeitas às possibilidades de interpretação e, neste caso, as submissões do homem quanto a suas necessidades/ dificuldades de assumir uma identidade, também já analisado por Freud.
Isso é tão forte, talvez pela própria ausência de explicação, de desvendamento, que apesar de meu foco aqui ter sido, inicialmente, a mulher Penélope e seu comportamento naquela sociedade, me vi seduzida e fascinada também pelo que ocorreu com Ulisses (o meu canto da sereia...).
Sabe-se que após retornar do Hades, ele voltou à mansão da feiticeira, que, preocupada, o instruiu a resistir ao perigoso e mortífero canto das Sereias no caminho de volta para casa, embora ele mesmo não tivesse demonstrado preocupação, talvez pela ânsia de reencontrar a mulher e o filho.
O que representava o verdadeiro perigo não eram as Sereias, mas o seu canto; portanto, a sedução, o encantamento se dava através dele; razão pela qual a deusa dissera a Ulisses que os ouvidos dos seus tripulantes deveriam ser tapados com cera, e ele amarrado ao mastro da embarcação, já que decidira ouvi-lo. E recomendou que não poderia ser desamarrado fosse qual fosse o apelo que fizesse. Entretanto, na hora em que a melodia embriagadora lhe chegou aos ouvidos, Ulisses, desesperado, bradou, gritou ordens superiores aos homens, que, tendo os ouvidos tapados não puderam obedecer-lhe. Também acho importante chamar a atenção para a sedução que a música (o canto, no caso), a arte, vem exercendo sobre as pessoas através dos tempos e não vou resistir em fazer uma analogia com o que disse em sua obra, tanto Erasmo, como Nietishe e tantos outros e até o próprio Platão (embora contraditório), sobre sua influência na vida das pessoas.
O mais importante, uma vez que os mitos se constituem um dos caminhos de desvendamento das nossas questões, é que a obra nos apresenta muitas possibilidades de análise: Adorno e Horkheimer, por exemplo, nos conduzem ao Iluminismo/Esclarecimento e aos processos de submissão/dominação do mito pela razão; as angústias da natureza interior e exterior do homem, como o medo da morte, sua fragilidade perante a natureza e perante o poder de poucos exercido sobre a maioria. Percebendo-se que o Esclarecimento, em “em vez de livrar os homens do medo e investi-los na posição de senhores” como era a proposta do Iluminismo, submete-os à dominação pelas várias formas de poder...

domingo, agosto 02, 2009

CONVITE...(aceito!)

Whohub para mim
mostrar detalhes 27 jul (6 dias atrás)

Olá Gdocumenta:

Entramos em contato através de referências que encontramos online.

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Convidamos você a realizar esta entrevista. É grátis.
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Você pode encontrar mais informação sobre o Whohub em nosso site.

domingo, junho 21, 2009

Mas afinal, quem somos nós? (guacira maciel)



Se tivesse esta resposta (e como gostaria...), acho que teria todas as outras, porque ela é a grande pergunta; a pergunta fundamental e também a resposta fundamental. A nossa grande questão é não criar mais nada na natureza entendendo-se que ela é única: humana ou qualquer outra...está tudo criado e terminado; perfeito! A nós, cabe agora, usar o seu centro, a ‘caixa preta’ da criação, que é o cérebro, onde tudo está registrado, e pensar; este é o grande saque! Tudo é possível se soubermos compreender isso. Todos os grandes homens, cientistas, pensadores, mas principalmente os filósofos entenderam essa questão e nos deixaram a gênese da compreensão ampla, a possibilidade. Na verdade, nos foi legado como herança um grande e mágico puzzle a ser montado peça por peça; um verdadeiro enigma a ser desvendado. Os caminhos serão muitos e cada um encontrará o seu; as possibilidades, infinitas; mas só uma resposta final, a partir da qual teremos as subsequentes.
Não tenho o conhecimento específico necessário para elaborar uma hipótese, conformando-me em usar a minha sensibilidade e possibilidade de subjetivar para procurar respostas, uma vez que penso, que me conduzam a um caminho que possa suavizar minhas angústias.


Entretanto, tomo como referência o que o cientista Sir Fred Hoyle, antes de mim (risos), já concluiu: que a vida não poderia ter sido (acontecido) em conseqüência de uma atividade aleatória, ainda que todo o Universo tivesse sua composição “de massa pre-biótica” (não pude entender muito isso aí), mas cheguei à mesma conclusão por outros caminhos. Portanto, ao que pude entender, aquela hipótese matemática de 1em1.050 é considerada pelos próprios cientistas como impossível, uma vez que em termos de tempo, do Big Bang, se considerarmos sua ocorrência como tendo sido a mais de 15 milhões de anos, passaram-se, 1.018 no tempo total, e o úmero total de átomos do Universo ser de, apenas, 1.010 (essas medidas têm um registro que não foi possível aqui).
Outra improbabilidade, pelo que pude entender, refere-se àquela teoria da possibilidade de vida pela formação de uma “sopa pré-biótica” composta pelos aminoácidos, porque não existem evidências disto nas referências geológicas já pesquisadas. E mais, seria improvável também, que nessa sopa se formasse, apenas, um conjunto de proteínas, quanto mais o que seria preciso delas para suprir toda a vida, entre outras necessidades. Quanto ao processo aleatório ou acidental de formação da vida, seriam necessários mais alguns milhões de anos para que ocorresse e temos a informação de que a terra tem, só, 4,6 milhões de anos, e a vida, menos tempo. Além disso, a criação espontânea é muito caótica para criar algo tão perfeito como a VIDA.
A essas teorias, as quais pude entender, juntam-se outras ainda mais complicadas, como uma baseada na Lei da Termodinâmica, etc., etc. A minha compreensão disso tudo, que alguns considerarão até simplista, é que, mentalmente, somos criaturas e criadores, à imagem semelhança do Criador, porque Ele nos legou como herança essa condição. No entanto, ainda não saímos do estágio de amadores; ainda não entendemos isso, não sabemos usar esse potencial para criar, porque não conseguimos ultrapassar nossos próprios limites (como a velha mariposa que não consegue ultrapassar o círculo de luz que lhe restringe o vôo); talvez por medo, não saibamos soltar nossas amarras, que são verdadeiros grilhões; âncoras que nos imobilizam. Até agora, a única possibilidade de criar, de se soltar, que o homem já utiliza com alguma familiaridade, inclusive na tentativa de criar uma realidade própria, é partindo da subjetividade, aquela que realiza através da arte. Mas que fenômeno é esse? Como alguns seguem esse processo e outros não? Quais seriam os caminhos? Isso é pouco se considerarmos o número reduzido de pessoas que o fazem, dentro de um universo tão grande, ainda que considerados privilegiados ou "loucos".
Posso entender que só aos poucos, gradativamente, à medida que avançamos nossas buscas, vamos também entrando em contato com esse potencial de dimensões inimagináveis, que é a nossa mente; creio que o caminho deva ser esse. Até porque ainda não temos o acesso liberado, talvez por ser entendido que não suportaríamos ter nas mãos essa formidável máquina de uma só vez (para mim, a teoria quântica seria uma possibilidade...). Não saberíamos o que fazer com ela, ou faríamos muita besteira, sei lá... Somos frágeis e houve necessidade que tudo ocorresse dessa forma para que esse conhecimento fosse absorvido e processado como uma digestão. Na verdade, somos a representação ou a síntese de cada processo interno nosso, mesmo... Mas, ainda assim, me parece, temos medo de nós, do que somos ( desse ser desconhecido), algo parecido com aquela situação em que sabemos da existência, mais adiante, de algo que não reconhecemos, com que não sabemos lidar, e fechamos os olhos como crianças, como se não vendo anulássemos um perigo iminente. Encontro-me num momento de profunda perplexidade com o que estou conhecendo, e isso não é nada; eu não sei nada! Antes tinha numa das mãos um saco de interrogações e na outra um mundo de respostas, o que poderia trazer conforto; hoje, tenho uma galáxia de interrogações e nas duas mãos nenhuma resposta.
Quem somos nós? Ta todo mundo procurando esse sujeito!




domingo, abril 05, 2009

Fantasmas... (guacira maciel)

Estou escrevendo sobre uma saga de família, da Chapada, mas não posso continuar sem tomar partido, sem optar por uma tonalidade, fingindo que todas as cores são iguais; preciso parar e voltar um pouco sobre uma história que já foi vivida.

Hoje, aquela parece uma terra sem filhos; terra cujos seios foram sugados até sangrar; cujo ventre teve suas víceras expostas, reviradas e devoradas por batalhões de formigas gigantes, predadoras, silenciosas, vorazes, que lhe sugaram os mais íntimos sucos, deixando-a calcinada, exangue, murcha, exaurida e caída sobre as próprias dobras de pele ressequida, onde se formaram enormes buracos que expunham como fantasmas esfarrapados, as entranhas de uma terra sem orgulho, sem pudor.
Foram dedos sangrentos pelas marretadas cujas articulações mais pareciam antigas dobradiças, já invisíveis por causa do inchaço, que faziam lembrar garras; dentes podres em bocas de hálito fétido, somado ao oco de estômagos completamente vazios há dias, famintos, donde só se ouviam os ecos dos gases que os empanzinavam e iludiam. Eram olhos cuja menina se transformara em raios febris, ardentes, que se perdiam nas noites orbitais, fundas, sem brilho, vítreos, vermelhos por causa da graça do sono que não lhes fora concedida, assentados sobre caras mascaradas pelo pó que esculpia novos seres, e tão permanente nas escavações, que não poupava nem o terceiro olho que, por vezes, se lhes acrescentavam, fazendo lembrar os terríveis ciclopes. Eram restos de unhas ocres, purulentas, que rasgavam a nu a terra, ferindo e infectando sua mucosa antiga, brilhante, acetinada, buscando usufruir de um cio que não lhes era devido.
E os corações? deles o grito ensaiado para a hora esperada e temida, que sequer lhes chegava à garganta por ausência da saliva lubrificante; apenas um choro seco vertido por corpos desidratados, quase mumificados, que se arrastavam com seus dorsos alquebrados sobre a desistência da terra e seu silêncio dolorido. O mais inacreditável é que pareciam não se deixar afetar ao término do dia, do qual já nem lembravam o brilho, a cor, a luz. Não se queixavam, não desanimavam de alcançar o objetivo primeiro; só a morte os arrancava dali; não desistiam do seu sonho; mas de si, via-se que sim! Porém, pareciam já anestesiados, não exibiam a dor que lhes oprimia o peito, fazendo abater a alma...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

seria Judas, um traidor? (guacira maciel)

Existiu um plano divino para Judas Iscariotes, a exemplo de Salomão e outros? Teria sido ele o grande traidor ou um instrumento? Estaria aprisionado nesse plano sem possibilidade de escolha?
Essas são dúvidas que vêm ocupando a minha cabeça desde muito tempo... agora elas se avolumaram, em função do acirramento das discussões sobre o comportamento desse discípulo de Cristo, por causa da publicação do seu evangelho, dito apócrifo. Entretanto, as dúvidas são inúmeras e gostaria de fazer aqui algumas reflexões; aliás, tudo neste assunto são dúvidas, são especulações; por essa razão, aqui não serão encontradas respostas ou certezas... Trata-se, tão somente, das minhas indagações.
Penso, por exemplo, no quanto o cumprimento do que anunciara durante a ceia teria sido importante para Jesus Cristo, a ponto de: Primeiro ter tido a confiança de pedir a alguém que tanto amou que fizesse uma doação dessa monta; sim, porque perante parte da humanidade em todos os tempos, Judas sempre será olhado como um traidor; traidor do filho de Deus! Isso não é pouca coisa, não! Também poderia ser que, como é referido na literatura, esse tivesse sido, efetivamente, o discípulo mais amado (a ponto de causar certos desconfortos aos outros), uma vez que não se pede grandes sacrifícios a alguém em quem não tenhamos enorme confiança e certeza da reciprocidade no amor que lhe dedicamos... Segundo, conhecer profundamente o grau de humildade dessa pessoa, pois era sabido que a seita gnóstica à qual pertencia Judas tinha como fundamento a aniquilação, a morte do eu, proposta disseminada, também, em outros continentes e que referendava o que o próprio Mestre pregava; o evangelho de Judas compunha documentos comprobatórios desse pensamento. Em sendo assim, me questiono sobre essa relação, no mínimo, curiosa, mas que considero muito coerente, considerando-se que Jesus dedicava um amor especial a Judas e sabia-se correspondido, além do conhecimento de que seu discípulo pertencia a essa seita. Não existe, no entanto, muita clareza entre tudo isso e o pedido que Judas afirma ter sido feito por Jesus - apesar de ele ter tido a lealdade de avisar que o discípulo seria execrado pelos homens por todo o sempre - o de entregar-se ao sacrifício de “trair” o Mestre, vendendo-o, para que a história se cumprisse. Em não sendo assim, como isso se faria? Haveria alternativa para que o Filho de Deus pudesse finalizar a sua estada na terra como um homem comum?
Outra grande dúvida que me incomoda: poderia Judas, ter dito 'não' a Jesus, ainda que o amasse muito, fosse por medo das conseqüências advindas desse ato de amor e exercício de humildade (mesmo que os homens não o creiam) ou por, apenas, medo do desconhecido, comum a todos nós, ainda que pertencendo à referida seita? Ou, exatamente o medo o fez aceitar o pedido, que, segundo consta em seu evangelho, Jesus lhe fizera? E mais, teria Jesus feito um pedido, ou determinado que assim seria, para que a história se cumprisse? Neste caso, a predestinação existe? Teríamos, todos nós, homens comuns, o livre arbítrio e os predestinados não, ou ninguém o tem, verdadeiramente?
Se há predestinação, qual teria sido o mérito (ou demérito) de Judas perante o Pai, para ser o escolhido como o caminho através do qual Jesus nos ensinaria? Não teria sido realmente, amor, um imenso amor do Pai para com ele? Mas não entendendo assim, poderia Judas, ter dito 'não', mudando tudo, toda a trajetória do cristianismo, e outro seria escolhido por Deus? Nesse caso, existiriam níveis de predestinação? Ou cumpre-se o que Mateus 26, 1-5 e 14-16; Lucas 22, 3; Marcos 14, 1-2 e 10-11; João 6,70 e 12, 4-6 e 13, 21-30 dizem em seus Evangelhos?
Teria Judas sido avisado sobre qual seria o curso da história, e tivera, por um momento - o da “traição”- sido privado da consciência, do sentido de realidade? Segundo os evangelistas Lucas e João, ele fora possuído pelo demônio naqueles momentos... ou, como já referido em documentos, teria “traído” o Mestre por ver ruírem seus planos de glória e ambição de riqueza junto a Cristo, gerando ressentimentos, por este ter feito morrerem os seus sonhos ao renunciar ao seu reinado “temporal”? Mas alguém cuja proposta de vida seria a humildade a ponto de desistir do seu próprio 'eu', venderia um amigo tão amado, e por tão pouco? Se Judas fosse, realmente, tão ambicioso, teria seguido uma pessoa cuja vida de pobreza, como a de Jesus, não era desconhecida por ninguém?
Consta que Jesus entregou a Judas a administração das finanças do grupo; teria sido por confiança ou, como é referido, por sabê-lo um ladrão e querer recuperá-lo? Na primeira hipótese, como se explicaria, então, uma mudança tão radical: de amigo fiel - a quem queria recuperar - a “traidor”? Na segunda, teria, a meu ver, implícito no olhar de Jesus um pré-julgamento e conseqüente condenação, além de uma cilada maldosa, para justificar a posterior “traição”; e esse não é o Jesus que conheço!... Mas não seria essa imagem que se queria fabricar sobre Judas, para que depois, a ganância fosse utilizada como o motivo da "traição"? Entretanto, na hora da entrega, com um beijo, Jesus pareceu surpreso... ver Mateus 26, 50 e Lucas 22, 48.
Bem... as dúvidas não param por aqui, mas precisamos nos manter num caminho, pois se nos prolongássemos, apenas, em especulações, poderíamos sair do foco das reflexões que aqui proponho.
Mesmo que o evangelho de Judas fosse parte de documentos comprobatórios desse pensamento, ele, principalmente, punha em cheque princípios cristãos e seu próprio ato de “traição”, visto que a pedido de Jesus, aceitara fazer o grande sacrifício como exercício de humildade e mortificação, e mais, poderia ser visto como um mártir!! Isso não interessaria à manutenção da imagem que a humanidade tem dele, para assegurar dogmas que o catolicismo pretende manter...
Bem... trago, agora, uma outra questão muito complicada, que envolveria alguns desses dogmas: a justiça. Sabendo-se que Judas 'tem' o que dizer em seu Evangelho sobre essa questão, não seria justo ouvi-lo? Os olhares não deveriam se ampliar, uma vez que vivemos tempos de revisões e novos olhares são postos sobre a Vida, o Universo, a Ciência, em que até a todo poderosa academia, tem olhares menos ortodoxos sobre suas questões, aceitando novos posicionamentos que ampliam e aprofundam o conhecimento construído, através da aceitação da existência de outras possibilidades que, aliás, a própria ciência nos ensina?
Bem, prega-se a justiça, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade, entre ouros nobres sentimentos, como novos paradigmas para o mundo contemporâneo; dessa forma, porque o olhar unilateral e duro sobre a existência do Evangelho de Judas? Sobre sua existência já não há dúvida, vez que o próprio Santo Irineu, teólogo e primeiro Bispo de Lyon, em seu texto “Contra as Heresias”, no ano 180, teria dito que “os hereges dizem possuir mais Evangelhos do que aqueles que realmente existem” e que o Evangelho de Judas seria uma ficção que a seita dos Cainitas havia escrito, acreditando que ele teria conhecimentos que poderiam abalar “céus e terra”.
Na verdade, tanto os Cainitas, como os Marcionitas eram seitas gnósticas independentes, sendo que esta última tinha seus princípios fundamentados no Evangelho de Judas, na mesma raiz fundante estavam também os Iscariotis, exterminados pela “Santa” Inquisição. Sabe-se que o Evangelho de Judas faz revelações surpreendentes, inclusive, dizem os pesquisadores, que para ele não pareceu mais importante a morte e ressurreição, mas a necessidade de que Jesus se livrasse do corpo humano que adquirira para vir à terra; teoria que parece coerente, uma vez que seu Evangelho pára abruptamente na entrega de Jesus, como se a partir daí a história já não envolvesse alguma responsabilidade de sua parte e devesse recomeçar em outras bases e que ele, Judas, teria dado seu contributo de forma humilde e profunda.
E mais, segundo documentos lidos, tanto Judas quanto Pedro tinham um olhar muito 'humano' sobre Jesus e sua própria missão junto a este; consta que Pedro era um homem colérico, presunçoso, auto-suficiente e fraco, tendo sentido muito medo de sofrer ao declarar-se amigo e companheiro de Jesus em sua jornada, e tendo ficado “vulnerável”, justificativa encontrada para a sua “negação”, visto que se afastara de Jesus (talvez até movido por esse receio...) e deixando de se fortalecer, agindo irrefletidamente e relutante a crer na morte de Jesus... Entretanto, penso em como Judas continuou seu lento caminhar junto ao Mestre... haveria tanta premeditação quanto à intenção de trair? uma vez que, quando foi escolhido para seguir a Jesus, mesmo que seu coração tivesse as ambições normais de todo ser humano, sabia que o Mestre era pobre! Teria sido movido por tanta maldade?
Ainda assim, consta que Pedro foi perdoado, e quanto a Judas? Ninguém se refere a essa possibilidade, mesmo que seja dito que se arrependeu... por que? Isso viria a amenizar perante a humanidade a figura do “traidor” que interessa ser divulgada por religiões? Para assegurar o quê? A quem? Teria o anti-semitismo, alguma coisa a ver com esse olhar sobre Judas, um judeu, extensivo a todo um povo, mesmo sabendo-se que Jesus foi morto e profundamente humilhado pelos romanos e crucificado numa cruz romana?

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Voltando ao "Elogio da loucura..." (guacira maciel)

Neste momento gostaria de começar, fazendo não exatamente uma defesa, mas a exposição de uma constatação – não conseguiria calar-me – acerca do bom senso feminino, tomando como referência o amor do Rei Salomão e a Rainha de Sabá e o que diz o famoso e polêmico filósofo holandês Erasmo de Rotterdam, em seu Elogio da Loucura, sobre a mulher: assim falou a irreverente personagem (a loucura): “Tendo o homem nascido para o manejo e administração dos negócios, era justo aumentar sua pequeníssima dose de razão, mas querendo Júpiter prevenir melhor esse inconveniente achou de me consultar a respeito, como, aliás, costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim – Senhor, disse-lhe eu: dê uma mulher ao homem, porque embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do mesmo”.
Vejamos apenas dois pontos fundamentais na nossa argumentação, para evidenciar a configuração dessa trama, dessa urdidura; disse a loucura: “tendo o homem nascido para o manejo e administração dos negócios...” Ora, o que observamos na história dos nossos famosos reis foi exatamente o oposto; uma absoluta demonstração de inaptidão masculina para administração dos negócios, visto que ele, conhecido por sua sabedoria, naufragou fragorosamente o destino do reino sob sua responsabilidade, por não ter tido equilíbrio ao lidar com a perda da mulher amada. Uma coisa seria sofrer por essa perda e outra colocar em perigo a segurança do reino e do seu povo, até porque essa foi, segundo consta, uma herança advinda de uma promessa do Criador a seu pai. O outro ponto revelou a mais absoluta contradição sobre o que foi dito sobre a mulher: “embora seja a mulher um animal inepto e estúpido...” Mas vimos que a rainha deu um inegável exemplo de equilíbrio, quando tão sabiamente soube trabalhar a perda do seu amor, aliada ao fato de estar a esperar dele um filho, e mais, voltando à governança do seu reino, por avaliar com muita lucidez a importância dos seus deveres de soberana para com o seu destino e o destino do seu povo. Logo...
Continuando, gostaria de pedir um pouco – não seria justo pedir total - de imparcialidade em relação às questões religiosas para que pensássemos juntos sobre o universo implícito na dimensão humana de Salomão, mesmo que ele não soubesse disso. Teria ele, sido um homem de fé convicta, ainda que já tenha nascido sem possibilidade de escolher a vida que gostaria de ter? Teria tido a condição de refletir ou possibilidade de autonomia para mudar o imutável? Sabemos que fora prometido a Davi, seu pai, a governança daqueles reinos, por ele e seus descendentes. Quais sentimentos, verdadeiramente, o teriam movido a pedir apenas conhecimento e sabedoria, quando lhe fora oferecida a possibilidade de pedir tudo o que quisesse? Ou não teria sido assim, e uma profecia teria que ser cumprida, para que a história chegasse ao desfecho previsto? Teria sua humanidade sido pilhada por um sentimento incontrolável como o amor, apesar de toda disposição de cumprir seu destino junto a seu povo e a promessa feita ao Senhor?
Essas seriam só perguntas iniciais para desencadear nosso diálogo e incitar a análise, porque precisarei usar uma metodologia que me mantenha, o mais possível, com os pés no chão para não me perder, visto ser esse um assunto tão rico e polêmico.
Nossos reis tiveram contra si mesmos (ou a favor), nessas circunstâncias: Em ralação a ele, perceber vaidoso (afinal era humano)a grande admiração, o encantamento que causara a uma mulher tão sensível, jovem e bela, o que envaidece sempre os homens, além de, falando-se de forma bastante contemporânea, ver a possibilidade de testar o mito da superioridade masculina, ainda que naquela época não se tivesse acesso a esse conhecimento da forma como o temos hoje, mas o tivesse Salomão, implícito na sua condição de humanidade.
Quanto a ela, colocando-me em seu lugar como mulher, e tão jovem, consideraria um privilégio essa oportunidade, e mais, constatar que estava havendo reciprocidade nessa atitude. Ele estava encantando-se com ela, mesmo sendo tão inexperiente e sequiosa de saber. Quer dizer: seu herói estava considerando sua existência, porque, convenhamos viajar naquela época, com tanta pompa e circunstância, só mesmo por uma motivação muito grande.
Aqui me reporto ao êxtase de Louis Lane, ao constatar que o Super-homem ao menos lhe dedica um olhar, percebendo que ela existe, ainda que não o soubesse como mulher. Quanto mais ser carregada em seus braços até o infinito. Querida leitora tenha a idade que tiver - isso hoje já não tem importância (as coisas boas da modernidade) - ponha-se nesse exato lugar: os braços do Super-homem e reflita sobre o que sente.
Bem, saiamos do espaço infinito e voltemos a nossa análise. Temos ainda que considerar todo o clima de intimidade estabelecido entre nossos soberanos, porque era um convívio diário e a sós quase todo o tempo. No recolhimento da sua condição de servo, deveria ele orar agradecendo ao Senhor pela oportunidade de realizar Sua obra. Mas sua humanidade deveria estar gritando o quanto era bom estar tão próximo e constatar a admiração de uma mulher jovem e bela como aquela.
Ela, por seu turno, deveria encontrar-se em permanente estado de êxtase ao perceber que um homem tão famoso por sua sabedoria e conhecimentos, com quem teria ido aprender, estivesse lhe dedicando tanta atenção...
Finalizando, quero crer que, na dimensão desse ser individual, muitas vezes entregue ao próprio desamparo e sensibilidade enquanto homem, seria muito difícil identificar algum perigo ou possibilidade de sofrimento em algo tão bom, num sentimento tão gostoso de ser sentido e, ao mesmo tempo, tão sem sentido, sem nexo.
Quem poderá dizer que Salomão, sendo um instrumento de Deus, jamais poderia se ter deixado levar por um sentimento tão pouco espiritual, ou tão carnal? Qual ser humano, de forma ampla, poderá dizer que jamais seria surpreendido por um sentimento tão incontrolável, porque indetectável aos tentáculos da razão, como o amor?
Talvez jamais tenha de vocês essas respostas, porém eu, pessoalmente, tenho cá a minha tese (e se não perceberam, venho sendo tendenciosa desde o começo).
Classificaria este, o que é minha proposta em ralação aos outros sentimentos que permeiam o amor, como sendo um amor especificamente de renúncia. A mais dolorosa de todas elas. Renunciar a um amor é profundamente doído e cruel.
Porém, reflitamos, para que isso serviu, terá valido a pena? Não haveria uma possibilidade de ser diferente? Qual o saldo positivo desse ato? Salomão, principalmente, se destruiu com ele. Seria ainda possível a seu povo, olhá-lo como exemplo, no estado de degradação em que se recolheu ao mundo dos vícios, da licenciosidade, da adoração de deuses pagãos?
Perceberam a consistente trama, a fortíssima urdidura sobre a qual essa história repousa, seja ela verdadeira ou não? É possível, com a maior clareza, detectar-se a grande variedade de fios usados na sua composição; fios que se entrelaçam, não importando a origem ou época, formando uma base argumentativa sólida sobre a qual se assentará o texto; o tecido, como resultado.
Ainda que sua origem não seja nosso objeto de análise - ambos se confundem – e percebendo-se que a própria dúvida faz parte da sua urdidura. De qualquer forma, seja qual for o ângulo analisado, chegaríamos a uma trama ainda mais intrincada e mais rica, com vários ângulos a serem observados, tornando-se, para usar uma linguagem e uma visão de mundo bastante atual, um verdadeiro hipertexto, o que nos leva a constatar uma realidade irreversível, que é a impossibilidade de tratar-se qualquer conhecimento, qualquer dimensão humana de forma unilateral, porque as relações se vão estabelecendo naturalmente, tirando-nos das mãos a condição de continuar a fragmentá-la, senão vejamos: seria essa uma história verossímil? E qual seria essa verdade? Se a contássemos sob o ponto de vista bíblico, supondo-se que fosse esse o nosso objetivo, como já me referi, chegaríamos à historicidade do próprio Continente Africano, que fala da fundação do reino da Etiópia, pelo filho do casal em questão, que, por sua vez, teria recebido do pai as Tábuas da Lei; e aí voltamos outra vez à história bíblica. Por outro lado, se começássemos pela historicidade africana, tratando da existência dos grandes impérios, sua organização política e sócio-econômica, as formas culturais de escravidão praticada, etc., retornaríamos, inevitavelmente, às referências bíblicas, porque a fundação do imponente império etíope nos traria de volta ao filho do discutido romance entre Salomão e a rainha de Sabá. Ainda bem que não é essa a nossa missão e sim, analisar a imensa teia, enquanto construção, que essa história de amor – seja bíblica ou puramente histórica – representa, assim como a grande variedade de fios que compõem sua urdidura, a base que sustenta texto final.
Quanto a Salomão, ser um sábio de nada lhe valeu. Sua sabedoria não o instrumentalizou, não o capacitou a lidar com sua mais humana dimensão: a do amor, transversalizado por outro sentimento (outro fio) tão intrínseco à natureza humana e tão difícil de ser sublimado, porque arrebatador como ventos fortes, como tempestade: a paixão, o encantar-se. E mais, os homens não sabiam àquela época, nem aprenderam ainda, a renunciar, apesar de ser quase consenso no mundo contemporâneo que eles são mais racionais, porque teriam mais neurônios e os usariam melhor, o que após nossa análise ficou evidente não ser verdadeiro.
Concordam que tudo isso não passa de um grande mito?
E eu adoro os homens...Que jeito?

quarta-feira, janeiro 28, 2009