Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, outubro 27, 2008

Impulsos Primitivos; reflexões. (guacira maciel).

Tomando como referência a Teoria dos Genes Egoístas, de William Hamilton, comecei a fazer algumas reflexões e vieram-me à cabeça muitas dúvidas. O fato de escrever me faz realizar incursões em assuntos que não estão no meu campo direto de ação, mas me causam perplexidade, como a violência entre pessoas de uma mesma família. Genes egoístas é uma metáfora para explicar a teoria dos genes de sucesso, em que, segundo seu autor, todo ser humano compete por territórios tentando ampliar ou se apoderar de espaços à custa do outro, inclusive se utilizando de “manobras psicológicas”. Entretanto, em sua evolução o gene também nos apresenta a possibilidade da cooperação e o altruísmo como algo benéfico nessa competição, ou reações diferenciadas.
Ao contrário das tartarugas, que põem ovos/filhos aos milhares de uma só vez e os abandonam à própria sorte, nós, seres humanos, tendemos a ter poucos filhos e investimos fortemente neles, os protegemos para garantir sua sobrevivência, num processo de altruísmo, que se evidencia pela seleção; seleção em família. Mas há insetos sociais que também são exemplo desse tipo de seleção demonstrando o quanto ela pode afetar o comportamento. Entretanto, essa seleção não segue rigidamente um padrão; há apenas uma predisposição de que os seres poderiam por a própria vida em perigo para salvar suas crias. Na contemporaneidade, não teria referência de casos anteriores, está ocorrendo um processo que ratifica ser esta, tão somente, uma tendência – e eu não ousaria chamar isso de evolução sob nenhuma hipótese – que é chamada de “seleção anti-familiar”. Em todos os continentes, ultimamente, vem acontecendo de forma recorrente e persistente, atos de violência com morte, entre membros unidos por laços familiares tão fortes como pais e filhos, tios, avós, irmãos, pelos mais banais motivos, predominantemente pela ganância de bens materiais (por dinheiro). Esses fatos me levaram a refletir com alguma preocupação sobre o instinto humano. Embora entendendo que o processo de altruísmo em família seja uma predisposição, como já referido e não uma constante ou um comportamento genético obrigatório, eu diria.
Aliás, sem dúvida alguma os dois casos mais recentes desse tipo de violência ocorridos, um no Brasil (o assassinato de Isabela Nardoni) e outro na Áustria (o encarceramento e sucessivos estupros de Elisabeth Fritzl), deixaram estarrecida e indignada a população mundial e, sem dúvida alguma, ficarão na história dos dois países como um dos atos de violência mais doentios e inacreditáveis até agora cometidos, que se tenha notícia.
A violência doméstica praticada entre familiares geralmente se dá entre cônjuges, filhos e pais, e inclui diversas práticas indo desde as agressões físicas, com pancadas, uso de objetos para ferir, violência sexual, entre outros, contra crianças, mulheres e idosos, mas também contra os homens, embora em pequena escala. Contudo, não é só física, a violência, talvez, mais destruidora que é cometida principalmente contra crianças, no meu entender, se constitui a psicológica; esse tipo de violência doméstica, geralmente se estabelece como um padrão de comportamento e continua a causar sofrimento, mesmo depois de praticado o ato em si, como é o caso de Elisabeth, da Áustria.
A face mais cruel disso tudo, é que essa violência ocorre de forma silenciosa, dissimulada e, por vezes, com a conivência de outro membro adulto da família, tornando ainda mais avassaladora essa atitude, porque, principalmente a criança, não tem meios de defesa; aquele adulto que a violenta deveria protegê-la! A quem recorrer? E isso tem desdobramentos nocivos e desumanizadores, porque, como pode ser praticado por anos a fio, interfere no seu desenvolvimento físico/emocional / psicológico e mental. Esses seres terminam por apresentar um tão baixo nível de auto estima, que se permitem ser violadas pelo fato de existir um vínculo familiar e, em conseqüência, uma dependência material e emocional. E pior, o agressor, em muitos casos acusa sua vítima de ser a responsável pela agressão, tornando-a também uma vítima da culpa e da vergonha de ter tido aquela atitude que termina por assumir.
Trazendo a questão para o foco das relações familiares, precisamos analisar o velho chavão, aparentemente inocente, utilizado pelos pais: “faço o que é melhor pra você”. Talvez, se eles se restringissem a fazer o que é bom, o que podem, por seus filhos, não chegássemos às situações inadmissíveis e absurdamente violentas que conhecemos quanto a essas questões. Que conceito de “melhor” estaria implícito aí? Esse melhor, é melhor pra quem, atende às demandas de quem?
No caso em destaque aqui, do famigerado Josef Fritzl, que confessou ter aprisionado a filha por 24 anos, para “livrá-la das drogas”, seria, no meu entender, um caso típico do faço a você o que é melhor pra mim, uma vez que esse monstro, como uma besta, seviciou , violentou e violou os mais elementares direitos de Elisabeth para saciar seus instintos mais animalescos; aqui não vou analisar se seria isso uma patologia, não me interessa, no momento, vê-lo como um doente; ele planejou tudo com perfeição, nos mínimos detalhes e requintes...seria ele tão doente, uma vez que realizou viagens suspeitas para a Tailândia? E sabemos o que acontece naquela região...
Agora, voltando um pouco, precisarei expor aqui uma dúvida que vem me incomodando, retomando uma questão que parece simples numa primeira análise, embora não seja: a do que os pais dizem entender ser melhor para seus filhos. Sabe-se que é a sociedade que define as características dos diversos papéis sociais e às pessoas cabe assumí-los e atender o que delas é esperado pelos diversos grupos, sob pena de serem deles excluídos ou sofrerem penas (de forma ampla), e também porque esses papéis costumam nascer dentro do núcleo familiar. Fico muito preocupada se não estaria, nesse caso, refletida a forma como essa jovem – a Elisabeth – teria se comportado durante 24 anos em que foi mantida em cativeiro, em condições subumanas pelo próprio pai, que confessou à polícia tê-lo feito “para livra-la das drogas”? Sabe-se lá o que teria dito esse homem, único contato dela e dos três filhos fruto do incesto, com o mundo exterior, sobre a importância de atender a esse papel da filha boa e bem comportada, atenciosa, terminando por incutir-lhe a idéia de ser seu salvador, de estar livrando-a de pessoas más, como homens ruins e policiais sem escrúpulos, já que parece que ela seria usuária de drogas, terminando por estabelecer um clima menos agressivo e dolorido entre eles? Até atendendo ao esquema de um jogo familiar estabelecido?
Voltando às referências que tomei para elucidar as dúvidas aqui expostas, uma vez que me estimulam as análises, precisarei fazer algumas delas sobre a “Hipótese do Grande Erro”, de John Tooby e Leda Cosmides, que se contrapõe a essa tendência de comportamento, cujo entendimento é de ser a relação em família a força por trás dos nossos instintos de cooperação em grande escala no mundo moderno. Segundo essa teoria, estaríamos mais propícios a cooperar com todos os membros de um grupo, porque no período plistoceno (nas savanas), a maioria dos membros estaria ligada por laços de sangue ou por vínculo de “casamento” (parceiros sexuais ou na criação de filhos). Então, mentalmente teríamos mais vínculos com essa sociedade do que com as atuais, por seu tamanho e complexidade e assim, estaríamos fazendo uma confusão entre as duas. Dessa forma, a compreensão é a de que a “sociedade moderna” seria uma resultante da má adaptação da “seleção em família”, relacionada ao gene egoísta; este, por conseguinte, se constituiria o “grande erro”.
Logo, não haveria significado genético em cooperar com grande número de pessoas estranhas, que, obviamente não possuiriam nossos genes, assim como essas pessoas também não teriam interesse em retribuir a ajuda; o que me leva à compreensão de que seríamos todos relativamente cooperativos, apenas, pelo fato de vivermos a mesma situação distorciva. Neste raciocínio se configuraria essa teoria como pouco convincente, uma vez que, se membros de uma grande família em todos os graus de parentesco fossem criados juntos, ficariam sem informações acerca dessa ligação específica existente entre eles, a partir de um sistema interno de detecção. Foi relatado que crianças israelenses, criadas em kibbutzen, demonstraram pouco interesse sexual uns pelos outros; isso vem evidenciar que é possível que a familiaridade entre pessoas na infância seja mais forte que as “ligações biológicas” e poderia ser usada para evitar o incesto. Finalizando esta discussão, fica também evidenciado que o “comportamento moderno” contraria a teoria aqui analisada.

Teoricamente, cria-se um filho sem infligir-lhe obrigações de retornos posteriores; teoricamente, seria esse um ato social incondicional ; entretanto, vimos detectando ultimamente situações que contradizem este “pacto”, se sabemos que a todo momento são detectados atos sociais condicionantes, a exemplo das pressões, chantagens emocionais, ou seja, que dos filhos espera-se retornos; ou seja, ajudar condicionalmente (há pais que oferecem algumas condições aos filhos se forem atendidos em outras), e ferir condicionalmente (eu sou seu pai/mãe posso castiga-lo). Percebe-se, ao final, que há enorme decadência na família nuclear, grande mobilidade e desagregação por inúmeras razões, o que vem tornando esses laços muito débeis.