Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, agosto 06, 2008

Em botão (Guacira Maciel)

A mucosa da minha boca
ainda retém o gosto
das palavras ditas em botões
agora flor despetalada
como fluxo hemorrágico
rubro
brotado das tuas profundezas...

eram mares
eram barcos à vela
horizontes sem limites
abertos selváticos
expostos à pálida luz
restos nostálgicos
da recente cópula de outro poema
vivida entre o sol e a lua
na pele do meu rosto
ainda escaldante as impressões
das tuas mãos suaves
pérfida seda
cujos toques eram sonoros
em minh’alma.
acima das nossas cabeças
o teto de infinito azul
como gazebo irreal
não abrigava dos ventos oceânicos
meus cabelos refrescados intempestivamente
cegando meus olhos
se derramavam lágrimas
nascidas no coração
como enchentes dos teus.

Nossos segredos revelados
na geografia das nossas almas,
cujas aversão à solidão
nos fizeram voltar e voltar...

Enigma que nos fascina
e nos obriga a retornar das auroras
ao crepúsculo
como pequeninos pontos,
imóveis, ao olhar de quem fica.

2 comentários:

Nina Araujo disse...

Guacira é uma alegria grande conhecer o seu verso! Estou também lá no Escritartes!Parabéns!Abraços,Nina Araújo

guacira disse...

Oi, Nina!

Obrigada pela visita e pelo comentário; volte sempre, ficarei feliz com isso.
Bom que tenha vindo juntar-se a nós no Escritartes.
Abraços,
Guacira.