Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, agosto 28, 2008

Sem âncoras (guacira maciel)

Batido ao vento
barcos à deriva
sem âncoras
entremeados
da solenidade dos verdes
dos musgos agarrados aos cascos
como crustáceos à pedra
já não tem sentido o cais
ventos pagãos
roçam a tua tez
e saboreio nela a brisa escorrida
com cheiro de maresia
misturado ao teu arfar cansado
aceso
o hálito doce
impede-me o sono
atormentada anseio
por te ter na boca
à madrugada
pelas janelas escancaradas
como sinto teus poros
lavradas em cristal
penetram-me borbulhas de mar
antecipando o favo
e meus pés entrelaçados aos teu
cansados
mornos
divindade
casto
louco
Pousas
mergulhas
danças
avaporas-te

domingo, agosto 24, 2008

Entrelinhas... (guacira maciel)

Quão doido
vaga o pensamento
pelas entrelinhas do tempo
poderoso
reconstrói em imaginárias aquarelas
pálidas por vezes
tão breves quanto o alvorecer
um cenário novo
para cenas perdidas
devoradas pelas sombras gulosas
que ajuntam tudo ao seu legado
o pensamento
ileso
escorrega mutante
e busca nas cores inundadas de sol
a suavidade pastel
de um lume novo
sonoro noturno
respostas
saídas
retornos
caminhos
é a curiosidade do homem pelo homem
e dele pela vida
este é um enigma seu
eterno

quarta-feira, agosto 06, 2008

Em botão (Guacira Maciel)

A mucosa da minha boca
ainda retém o gosto
das palavras ditas em botões
agora flor despetalada
como fluxo hemorrágico
rubro
brotado das tuas profundezas...

eram mares
eram barcos à vela
horizontes sem limites
abertos selváticos
expostos à pálida luz
restos nostálgicos
da recente cópula de outro poema
vivida entre o sol e a lua
na pele do meu rosto
ainda escaldante as impressões
das tuas mãos suaves
pérfida seda
cujos toques eram sonoros
em minh’alma.
acima das nossas cabeças
o teto de infinito azul
como gazebo irreal
não abrigava dos ventos oceânicos
meus cabelos refrescados intempestivamente
cegando meus olhos
se derramavam lágrimas
nascidas no coração
como enchentes dos teus.

Nossos segredos revelados
na geografia das nossas almas,
cujas aversão à solidão
nos fizeram voltar e voltar...

Enigma que nos fascina
e nos obriga a retornar das auroras
ao crepúsculo
como pequeninos pontos,
imóveis, ao olhar de quem fica.