Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, novembro 24, 2007

Hibernar (guacira maciel)

Me fecho em mim,
me dobro e me guardo
em silêncio, para dentro...
me corre sobre a pele um calafrio;
há prenunciar de chuva,
trovejar e vento frio...
me aquieto cuidadosa,
usando meias,
guarda-chuva e cobertor;
é, esse momento,
um gestar intenso,
um tormento...
hiberno e penso,
com a mesma força
que a terra faz
ao mover-se sobre o próprio eixo,
em rotação.
E isso me refaz
e só então
eu sou capaz
de arriscar uma olhadinha da janela,
e muito devagar,
como se o chão
me escaldasse os pés,
pisar mansinho e regressar.

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