Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, novembro 24, 2007

Hibernar (guacira maciel)

Me fecho em mim,
me dobro e me guardo
em silêncio, para dentro...
me corre sobre a pele um calafrio;
há prenunciar de chuva,
trovejar e vento frio...
me aquieto cuidadosa,
usando meias,
guarda-chuva e cobertor;
é, esse momento,
um gestar intenso,
um tormento...
hiberno e penso,
com a mesma força
que a terra faz
ao mover-se sobre o próprio eixo,
em rotação.
E isso me refaz
e só então
eu sou capaz
de arriscar uma olhadinha da janela,
e muito devagar,
como se o chão
me escaldasse os pés,
pisar mansinho e regressar.

Aurorar... (guacira maciel)

Ah!... trago madrugadas no coração
tenho cristais e essências nas mãos
das verdes entranhas dos vales
nasci
nas doces nascentes
a água dos rios bebi
conheci o começo
e o meio dos tempos
vivi sucessão de luares
e solstícios,
e a força dos elementos.
ouvi fábula em noite de lua
e o cortar da palavra crua.
lutei sempre a mesma guerra
o mesmo pranto sentido
verti
e caí sobre a mesma terra
mas sentí carícia de pele macia
sonhei a duração de um sorriso
e em remanso vi aurorar o dia...