Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, outubro 27, 2007

Ecologias...divagando (guacira maciel)

Sentada no consultório do oftalmologista, a quem fora levar em consulta uma pessoa da família, me veio à mente algo que escrevera em resposta a um e-mail recebido na noite anterior...
Lá estava escrito “Buda somos nós”. Sim, somos parte dele; do Cristo; só que enquanto discípulos dos seus ensinamentos. Não podemos estar no seu lugar. Em sua mensagem estão implítas lições de um amor que pressupõe mansidão, humildade, doação e temperança, é o que temos que aprender.
Migrando o pensamento para o contexto do e-mail, acerca de rios e mares, e de como se misturam para serem UM, mais profundo e mais rico, também me veio à cabeça uma curiosa imagem desse processo evolutivo, que eu diria quase perfeito e absoluto; sim, porque cada um desses dois elementos contribui com o seu melhor, para o ser (estar) comum (como resultado dessa simbiose). Logo, existe um rio e um mar com características próprias; existe o todo que ambos compõem ao se unirem (um oceano), além de uma terceira dimensão como resultado desta, constituído nessa interseção, ou seja, uma terceira ecologia integrada para a VIDA de outro ecossistema (plantas, peixes e outros), os quais se misturam outra vez, voltando a crescer... Isso vem ao encontro do que nos mostra a Física Quântica: as realidades não se excluem; a VIDA no Universo não é excludente; somos parte de um TODO. Não podemos nos eximir, nos isolar! A nossa ecologia íntima, precisa realizar trocas (receber e dar, para evoluir). Definitivas caminhadas solitárias são estéreis; nada acrescentam à vida, porque não GERAM.
Assim entendo, quando penso o que Cristo, ou Buda e outros iluminados falaram e ensinaram, seguindo, eles mesmos, o caminho do MEIO (temperança), aquele que acontece a partir de dois outros. Não creio que se possa crescer num caminho solitário... sem trocas sensíveis; é fundamental saber se dar; o resto acontece natural e de forma pura. Quando esperamos tudo do outro, e permanecemos numa ecologia íntima estéril, não é possível fazer nada crescer. É necessário, nem que por um momento, se colocar no lugar desse outro (sentimento de empatia), para entender como ele se sente. Apostar por inteiro, com a COMPREENSÃO DE QUE SOMOS TODOS VULNERÁVEIS E IMPERFEITOS, embora preservando nossa própria essência (micro mundo, ou ecossistema), onde nos desenvolvemos, para poder ir em direção ao outro - uma semente não brota na solidão, sem o acréscimo de água, terra, luz... – ai, é possível o nascimento de uma terceira como resultado dessa união, isto é, UM TEMPO NOVO! O maior exemplo disso é a própria concepção da vida de todos os seres...
Isso traz o prazer de estar vivo, o prazer da partilha, de não se sentir só, o prazer do amor... tudo muito forte!
O que é prazeroso em alguns momentos, sem entrega, é também fugaz, embora belo, como uma aurora, por exemplo, mas com uma temporalidade prevista, como ela. É possível ter momentos prazerosos com um amigo, um professor, um parceiro de trabalho, um filme, uma cama, até... Mas há algo de temporário nisso, como o há no que entendo prazeroso.
Mas o PRAZER!...o PRAZER, não! Este nasce mais fundo, chega a tocar a alma... por ser um dos componentes do próprio amor...Dá um PRAZER indescritível estar com quem nos toca o coração; esse sentir habita camadas mais profundas, traz uma alegria!...a alegria de estar vivo! De perceber as cores da vida em suas mais diluídas nuances; às vezes nem é preciso mais que receber e olhar; apenas olhar, ver essa pessoa caminhar em sua direção e saber, com o coração, que ela está vindo pra você... Então, mesmo quando o prazer pode se completar na carne, é atemporal, é incontável, imedível... seu gosto “fica na boca”, nas mãos, no ar...porque está plantado, nascido e acomodado na alma; é ali o seu lugar.
O rio não corre sempre em paralelo, para o vazio; ele corre para algum lugar, para aquele encontro que, finalmente, o fará maior, mais rico, mais profundo, menos egoísta. E ele sabe disso, e enfrenta dificuldades, contorna obstáculos... em alguns momentos do caminho se arredonda, vira lagos, lagoas, ribeirões e até córregos, mas isso não importa.. ao fim do leito onde repousa e amadurece, ele sabe que tem um encontro que mudará sua vida finalmente, pra repousar em outro leito e isso não implica morte, perda de identidade; ao contrário, uma forma nova de ser e estar na Natureza, de ampliar sua forma, de participar...Até o Negro, resistente, acata as leis do Universo; ainda que não se dilua, se integra e se entrega sem sofrimentos, porque se sente como parte de algo muito maior que ele. Assim entendo a VIDA.
A finalidade última do Universo é a integração total e perfeita entre os reinos, e só quando isso ocorrer, teremos uma compreensão mais ampla e profunda da vida e uma convivência pacífica entre os seres. Entendo que só a partir daí, teremos também as respostas que buscamos para as nossas mais profundas e difíceis questões.