Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, junho 01, 2007

O mito e o amor (Síntese; guacira maciel)

Seria o amor apenas um mito?
Talvez fosse mais prudente permanecer nas minhas conjecturas pessoais sobre este sentimento, mas “navegar é preciso” e elas se constituiriam fios outros para ampliar o olhar sobre algumas reflexões mais amplas.
Em nossa sociedade alguns descreveriam o mito como uma história sem fundamento. Outros diriam que através deles contamos histórias verdadeiras; que através deles nos é revelado o que os homens têm em comum; que seria esta uma forma de buscar o real sentido da vida, ou o relato da “experiência da vida”... Mas, qual seria o sentido da vida? Penso que o sentido (a essência) de qualquer coisa que tem vida é o amor; qualquer manifestação da natureza, simplesmente ser; existir, é a própria manifestação do amor.
Por que estamos sempre na periferia das coisas? Da sua essência? Na periferia de nós mesmos? Da nossa existência e sua vibração? Posso dizer que os mitos nos apontam caminhos de busca; de possibilidades; caminhos de temperança... Nas histórias contadas a adultos, citaria como exemplo, dentre inumeráveis outros, a incessante procura do santo Graal (como temos visto nos filmes); que se revela uma história de busca para a cura de uma terra devastada, aliás, uma história recorrente no caminhar da humanidade e eu diria, terrivelmente sintomática da beirada do caos... e não já estamos, nós, vivendo esses tempos de profunda e ampla devastação? Penso que cada um precisa buscar o seu próprio Graal, sua própria cura, o que nos instalaria num mundo melhor para todos...
Por que teria Buda tomado o caminho do meio? E quanto a Jesus Cristo, por que se deixaria crucificar entre dois homens que tomaram caminhos diferentes naquela última hora? Não seriam ambas as histórias, a representação da temperança, do amor? O que elas nos estariam querendo dizer? E quanto à riqueza dos rituais de passagem, o que poderíamos entender da sua importância para as culturas? Ainda hoje acontecem e se constituem uma consistente urdidura, enraizada nos mitos, até como práxis pedagógica para que o conhecimento ancestral seja relatado e entendido pelos mais jovens.
Quanto ao amor, esse sentimento indescritível, do ponto de vista filosófico, seria um fenômeno metafísico, portanto algo que não se realiza concretamente, permanecendo uma experiência do nosso imaginário. Entretanto, sabemos por experiência própria, que quando sentimos amor, que é uma experiência do corpo, ocorrem mudanças de ordem biológica, física, bioquímica, evidenciadas no fluxo sanguíneo, tônus muscular (batimentos cardíacos), respiratório... mas como conseqüência de um processo emocional, advindo da consciência da simples existência/aproximação (até não física) do alvo do nosso amor. Então, essas são duas realidades acontecendo simultaneamente (como nos refere a Física Quântica!); dois lados da mesma moeda, que não se excluem; uma soma da emoção e do corpo.
O poeta Aristófanes, em O Banquete, de Platão, se utilizou de um mito para explicar o amor, segundo o qual duas pessoas que se amam não sabem dizer o que uma espera da outra, porque em tempos ancestres os humanos teriam sido um só ser; a saudade desse outro eu e a vontade de reintegrá-lo é o que chamamos amor. Com isso o poeta quis dizer que a vontade de estar junto não seria apenas uma manifestação do corpo, mas da alma, da essência; a consciência da incompletude. Seria essa a solução do “puzzle” da vida? Seria esse o fim ultimo do amor, encontrar sua outra metade perdida e retornar à sua natureza primitiva?
Há um grande equívoco em relação ao entendimento do “amor platônico”; para o filósofo, amar não se restringiria a desejar, de longe, de forma assexuada, o objeto do seu amor. Para ele o amor sexual é um ato natural, com infinitas e profundas raízes, que aconteceria num processo de gradação, iniciando-se com o amor físico até a sua forma mais universal e superior. Diz ele do amor: “é uma loucura que é dádiva divina, fonte das principais bênçãos concedidas ao homem...” E eu concordo! Esse é um estado de graça, sem deixar de ser um misto de encanto e amor/verdade, desde que nos disponhamos a entender as vulnerabilidades, os medos, as humanidades do outro; no amor também é preciso que se realize o exercício da empatia, para que se obtenha a tão cobiçada cumplicidade.
Diante dessas reflexões posso concluir que, embora exista uma tendência da sociedade em sublimar as realidades do corpo, podemos viver plena e responsavelmente essas experiências sem nos tornarmos seres do instinto ou da selvageria; não havendo nada de errado nisso! Então, mitologia e sentimento se completam, na medida em que decidamos viver essas imagens, essas histórias, tornando-as uma experiência pessoal plena de possibilidades, já que entendo que transitamos em dimensões que se completam; não é o ser que se completa no outro, porque somos únicos e inteiros; não somos frações de seres; não somos metade de absolutamente nada, uma vez que não concebo colocar nos ombros de outrem a responsabilidade da minha felicidade! Seria o mito ajudando-nos a estruturar a experiência do corpo. E como isso é bom, gente!...

2 comentários:

Mãos de Fada disse...

Boa noite, Guacira!
Gostei do seu Blog. Especialmente deste post que fala de Amor... Parabéns!
Vejo que não me fica atrás no que toca à sensibilidade!
Beijo grande!

P.S. - A minha resposta ao seu comentário está lá no meu Blog... Será uma honra receber a sua visita novamente!

guacira disse...

Olá, querida...

Obrigada por sua participação e por seu comentário.Creio que esses contatos nos deixam mais fortalecidos e nos ensinam lições de solidariedade e de amor...
Foi um prazer e volte mais vezes.
Beijo.