Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, junho 08, 2007

Fuga (guacira maciel)




Não adormeça ainda
é cedo
o tempo nosso
é tão pequeno
é cedo
ainda não é finda
a abstração crepuscular

Não adormeça ainda
é cedo
nosso futuro é tão fugaz
tão temporariamente
contido no presente
não dormeça ainda
é cedo
deixa que eu sinta
a minha pele arrepiar-se
nos pêlos louros
do teu braço
no teu abraço
não adormeça ainda
é cedo
ao dormir te vais de mim
e vagas por onde
não me leva a tua mão
o teu olhar
ao dormir jazes à mercê
sabe-se lá de quê
um outro amor
talvez
não adormeça ainda
é cedo
no teu dormir te vais
e o que amo em ti
nos braços de Morfeu se esvai
esse é o fundamento
do meu medo
o teu regresso
te traz vazio de volta a mim
não adormeça ainda
é cedo
não adormeça ainda...

3 comentários:

Mãos de Fada disse...

Amei este poema! Conseguiu emocionar-me ao ponto de ficar arrepiada... Obrigada, Guacira!
Um abraço!

guacira disse...

Meu Deus!

Você nem sabe o quanto me custou escrevê-lo!! pelo jeito, consegui ser muito real na poética... (rs)

Agradeço e me sinto honrada com seu comentário.
Um abraço...

Mãos de Fada disse...

Querida...

A honra é toda minha! Volto sempre ao seu cantinho, para poder saborear, aos poucos, as suas palavras...
Identifico-me, em especial, com este poema, talvez pela sua fragilidade...

Beijo grande!