Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, junho 26, 2007

Insonia (guacira maciel)

A partir de ti
tudo se inflama
enrubesce brota
entumesce explode
e a lava quente se derrama
desperta
nessa monotonia insone
que as energias
e reservas tornam fome
a labareda vira chama
vira inferno incontido
rubro como sangue
mas o caminho é longo
tudo engrossa e coagula
e o fogo à chama torna
e se consome

segunda-feira, junho 25, 2007

Auto retrato (guacira maciel)

Num instante
sou sensibilidade
delirante retórica
sou libertar, "perestroika"
sou lucidez sou razão

ambiguamente abelha rainha zangão
sou ferida uma grande inflamação
mas sou também cicatriz
sou fogo fogueira motriz
e logo logo sou chama mortiça sou cinza
insônia febril gota d'água
e já cachoeira chafariz
sou locomotiva arranque
sou barco a vela nessa guerra sou tanque
sou vento frio sou final de pavio
chuva fina furacão vendaval
sou alegria do frevo
e marchinha de carnaval
outras vezes vazante preamar maré cheia
sutileza de espuma beijando areia
sou prata da lua cheia sou minguante
mas sob o sol do deserto
sou beduíno errante
ao final sou criança inocente
rastro de estrela cadente
sou tudo isso e sou nada
sou teu passado presente

quarta-feira, junho 20, 2007

Teus olhos (Guacira Maciel)

A última vez que olhei teus olhos
não os encontrei
perplexa
os teus olhos não estavam lá
naquelas órbitas não havia nada
elas estavam vazias de ti
o que estava ali
eram órbitas ocas
pupilas congeladas
mortas
O teu olhar de antes
era similar ao horizonte
promessa enigma antigo
um misterioso mar
no teu morno e manso olhar
Ah e o teu sorriso
o teu sorriso prolongava o teu olhar
e me lembro bem ele era úmido
ora fogo labareda azul
que me queria devorar
ora chuva fina diáfana asa de borboleta
era uma aurora boreal o teu olhar
Mas o teu olhar já não tem alma
ele passa por sobre mim
sobre o meu eu inexistente
com olhos errantes fugidios febris
buscando outro lugar
O teu olhar me desilude
está quase perverso aquele olhar
sinto frio quando olho teus olhos vítreos
no teu olhar vazio branco nenhum
O teu olhar também já desistiu
o teu olhar como o último náufrago
também se foi
o teu olhar se foi
ele também partiu
sem ti.

terça-feira, junho 19, 2007

Constatações (guacira maciel)

Você é im
a presença implacável do ser
o impossível
o imponderável

o improvável;
e eu imprevidente
absurdamente aqui
você é ir(r)

o encontro irresponsável
a presença irrequieta
a falta irreparável
a mudança irreversível
e a perda irrecuperável
a mim a oferta irrecusável..
mas ao final
desesperadamente in

o desejo incontrolável
a realização inevitável
o adeus inegociável
em mim
a lembrança inesquecível

sexta-feira, junho 08, 2007

Fuga (guacira maciel)




Não adormeça ainda
é cedo
o tempo nosso
é tão pequeno
é cedo
ainda não é finda
a abstração crepuscular

Não adormeça ainda
é cedo
nosso futuro é tão fugaz
tão temporariamente
contido no presente
não dormeça ainda
é cedo
deixa que eu sinta
a minha pele arrepiar-se
nos pêlos louros
do teu braço
no teu abraço
não adormeça ainda
é cedo
ao dormir te vais de mim
e vagas por onde
não me leva a tua mão
o teu olhar
ao dormir jazes à mercê
sabe-se lá de quê
um outro amor
talvez
não adormeça ainda
é cedo
no teu dormir te vais
e o que amo em ti
nos braços de Morfeu se esvai
esse é o fundamento
do meu medo
o teu regresso
te traz vazio de volta a mim
não adormeça ainda
é cedo
não adormeça ainda...

quinta-feira, junho 07, 2007

As tuas mãos (guacira maciel)

As tuas mãos são grandes
as tuas mãos são grandes
como asas
as tuas mãos são belas
se olho as tuas mãos
elas me fazem flutuar
até perder o chão
as tuas mãos acolhem
as tuas mãos afagam
as tuas mãos são fundas
como grandes conchas
elas carregariam a água
que mataria a minha sede
sinto as tuas mãos
elas poderiam conter
partes de mim
abrigar-me do frio
amparar a chuva
mesmo que caísse em torrentes
as tuas mãos me abrigariam
do zênite solar
amo as tuas mãos de asas
grandes
belas
fundas
pródigas

sexta-feira, junho 01, 2007

O mito e o amor (Síntese; guacira maciel)

Seria o amor apenas um mito?
Talvez fosse mais prudente permanecer nas minhas conjecturas pessoais sobre este sentimento, mas “navegar é preciso” e elas se constituiriam fios outros para ampliar o olhar sobre algumas reflexões mais amplas.
Em nossa sociedade alguns descreveriam o mito como uma história sem fundamento. Outros diriam que através deles contamos histórias verdadeiras; que através deles nos é revelado o que os homens têm em comum; que seria esta uma forma de buscar o real sentido da vida, ou o relato da “experiência da vida”... Mas, qual seria o sentido da vida? Penso que o sentido (a essência) de qualquer coisa que tem vida é o amor; qualquer manifestação da natureza, simplesmente ser; existir, é a própria manifestação do amor.
Por que estamos sempre na periferia das coisas? Da sua essência? Na periferia de nós mesmos? Da nossa existência e sua vibração? Posso dizer que os mitos nos apontam caminhos de busca; de possibilidades; caminhos de temperança... Nas histórias contadas a adultos, citaria como exemplo, dentre inumeráveis outros, a incessante procura do santo Graal (como temos visto nos filmes); que se revela uma história de busca para a cura de uma terra devastada, aliás, uma história recorrente no caminhar da humanidade e eu diria, terrivelmente sintomática da beirada do caos... e não já estamos, nós, vivendo esses tempos de profunda e ampla devastação? Penso que cada um precisa buscar o seu próprio Graal, sua própria cura, o que nos instalaria num mundo melhor para todos...
Por que teria Buda tomado o caminho do meio? E quanto a Jesus Cristo, por que se deixaria crucificar entre dois homens que tomaram caminhos diferentes naquela última hora? Não seriam ambas as histórias, a representação da temperança, do amor? O que elas nos estariam querendo dizer? E quanto à riqueza dos rituais de passagem, o que poderíamos entender da sua importância para as culturas? Ainda hoje acontecem e se constituem uma consistente urdidura, enraizada nos mitos, até como práxis pedagógica para que o conhecimento ancestral seja relatado e entendido pelos mais jovens.
Quanto ao amor, esse sentimento indescritível, do ponto de vista filosófico, seria um fenômeno metafísico, portanto algo que não se realiza concretamente, permanecendo uma experiência do nosso imaginário. Entretanto, sabemos por experiência própria, que quando sentimos amor, que é uma experiência do corpo, ocorrem mudanças de ordem biológica, física, bioquímica, evidenciadas no fluxo sanguíneo, tônus muscular (batimentos cardíacos), respiratório... mas como conseqüência de um processo emocional, advindo da consciência da simples existência/aproximação (até não física) do alvo do nosso amor. Então, essas são duas realidades acontecendo simultaneamente (como nos refere a Física Quântica!); dois lados da mesma moeda, que não se excluem; uma soma da emoção e do corpo.
O poeta Aristófanes, em O Banquete, de Platão, se utilizou de um mito para explicar o amor, segundo o qual duas pessoas que se amam não sabem dizer o que uma espera da outra, porque em tempos ancestres os humanos teriam sido um só ser; a saudade desse outro eu e a vontade de reintegrá-lo é o que chamamos amor. Com isso o poeta quis dizer que a vontade de estar junto não seria apenas uma manifestação do corpo, mas da alma, da essência; a consciência da incompletude. Seria essa a solução do “puzzle” da vida? Seria esse o fim ultimo do amor, encontrar sua outra metade perdida e retornar à sua natureza primitiva?
Há um grande equívoco em relação ao entendimento do “amor platônico”; para o filósofo, amar não se restringiria a desejar, de longe, de forma assexuada, o objeto do seu amor. Para ele o amor sexual é um ato natural, com infinitas e profundas raízes, que aconteceria num processo de gradação, iniciando-se com o amor físico até a sua forma mais universal e superior. Diz ele do amor: “é uma loucura que é dádiva divina, fonte das principais bênçãos concedidas ao homem...” E eu concordo! Esse é um estado de graça, sem deixar de ser um misto de encanto e amor/verdade, desde que nos disponhamos a entender as vulnerabilidades, os medos, as humanidades do outro; no amor também é preciso que se realize o exercício da empatia, para que se obtenha a tão cobiçada cumplicidade.
Diante dessas reflexões posso concluir que, embora exista uma tendência da sociedade em sublimar as realidades do corpo, podemos viver plena e responsavelmente essas experiências sem nos tornarmos seres do instinto ou da selvageria; não havendo nada de errado nisso! Então, mitologia e sentimento se completam, na medida em que decidamos viver essas imagens, essas histórias, tornando-as uma experiência pessoal plena de possibilidades, já que entendo que transitamos em dimensões que se completam; não é o ser que se completa no outro, porque somos únicos e inteiros; não somos frações de seres; não somos metade de absolutamente nada, uma vez que não concebo colocar nos ombros de outrem a responsabilidade da minha felicidade! Seria o mito ajudando-nos a estruturar a experiência do corpo. E como isso é bom, gente!...