Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, maio 16, 2007

Sísifo contemporâneo (guacira maciel)

Já havia lido há algum tempo o Mito de Sísifo, de Albert Camus, que o escreveu aos 24 anos; quanta lucidez para tão pouca idade!...
Dias atrás, pesquisando na Internet, encontrei-o e tive curiosidade de ler alguns trechos e, como sempre faço com trabalhos lidos há muito tempo, comecei a repensar o tema sob o olhar que hoje tenho de velhas questões inseridas num contexto novo.
Li, inclusive, o comentário de Mauro Gama, que seria interessante colocar aqui, como referência para o âmago desse pensar. Em sua análise, ele fala dos profundos e devastadores conflitos do homem contemporâneo, que superariam os de todas as épocas anteriores. Os desdobramentos destes, com os quais convivemos hoje, tendo como precursores os grandes pensadores e homens de ciência, nos remeteram a uma tão profunda solidão e desespero, que somos inexoravelmente impelidos à busca de valores aos quais nos apegar.
Não saberia, eu, se valores novos, se os há, ou aqueles dos quais nos distanciamos tanto, que nos saíram, até, da lembrança e assim, os imaginamos novos.
Esse ser contemporâneo tão só e sem amigos, conta apenas consigo mesmo; com medo das ciladas do cotidiano ele tenta desesperadamente manter-se lúcido. A partir da análise que hoje faço de Sísifo, a história da mitologia grega, que, segundo Homero, ousada e inteligentemente acorrentou a morte ( eu faria o mesmo se pudesse), apreendo uma nova realidade; uma formulação do absurdo da sua condição. Com perplexidade percebo o quanto a condição do herói absurdo se ampliou e se estendeu, chegando ao absurdo do homem (anti-herói) que nos é referido pelo comentário acima; adquirindo novas máscaras ele se posta fora, sem lucidez alguma; Sísifo, ao menos tem consciência do seu trágico e inevitável destino, conseqüente, por ter-se rebelado e usado a inteligência.
Assim, falo aqui do absurdo do homem; a teia em que se viu aprisionado sem ao menos se dar conta que foi devorado por “obrigações e incumbências inúteis”; atitudes inócuas, porque individuais e egoístas. Esse homem contemporâneo se impõe rolar a pedra morro acima como única forma de manter-se um vivo/anestesiado e assim, pensando-se protegido, imune... Porque nem ao menos nos intervalos, depois que a pedra rola ladeira abaixo, até que a pegue de novo, ele reflete, se renova, ou toma consciência. Ao contrário, prefere a intimidade da pedra, que muitas vezes o impede de enxergar, e está tão bom nisso que chegará a passar à sua frente até que ela acabe por esmagá-lo! “É preciso imaginar Sísifo feliz...”.

OBS. No início do século XX, Maiakovski, poeta russo escreveu sobre esse homem; assim como Bertold Brecht; Marin Niemoller, símbolo de resistência aos nazistas, e mais recentemente, em fevereiro de 2007, Cláudio Humberto, um brasileiro, nos fala da indiferença em relação ao outro, no cotidiano, até que a violência o atinja também.
Ou seja, estamos “aperfeiçoando” esse homem; estamos inertes e submetidos, vivendo a ruína moral quase absoluta.