Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, outubro 26, 2006

Quem somos nós? quem somos nós: ? (guacira)

Se tivesse esta resposta (e como gostaria..), acho que teria todas as outras, porque ela é a grande pergunta; a pergunta fundamental e também a resposta fundamental. Se nosso ser é intangível, a realidade também o será e sua captura será temporária, uma vez que nada é terminado; permanente. Ainda existem muitos mistérios a serem desvendados e isso é bom, estimula a busca e dá à vida um sabor de aventura...
Creio na teoria do criacionismo, não apenas porque é óbvio que só uma inteligência infinita e inimaginável como Deus, poderia compor uma obra tão perfeita, irretocável, como o ser humano, paradoxalmente a unidade/síntese mais complexa em sua natureza.Tampouco vou aqui deter-me em expor evidências sobre isto, como , por exemplo, da completa máquina que é o nosso organismo, perfeitamente calculada para funcionar em sincronia e em sintonia com o Universo. A nossa grande questão não é criar mais nada na natureza humana ou qualquer outra...está tudo criado, e perfeito! A nós, cabe agora, usar o seu centro, o núcleo dessa criação, que é o cérebro, e pensar. Na verdade, nos foi legado como herança um grande e mágico “puzzle” a ser montado peça por peça; um verdadeiro enigma a ser desvendado. Os caminhos serão muitos e cada um encontrará o seu; as possibilidades, infinitas; mas só uma resposta final, a partir da qual teremos as subseqüentes.
Não tenho o conhecimento científico específico, necessário para elaborar uma hipótese, conformando-me em usar a minha sensibilidade e condição de subjetivar, para procurar respostas, uma vez que penso, com condição de conduzir-me a um caminho que possa suavizar minhas angústias.
Entretanto, sei que o cientista Sir Fred Hoyle, antes de mim (risos) , já concluiu que a vida não poderia ter sido (acontecido) conseqüência de uma atividade aleatória, ainda que todo o Universo tivesse sua composição de massa pré-biótica (não pude entender muito isso aí), mas cheguei à mesma conclusão por outros caminhos. Portanto, ao que pude entender, aquela hipótese matemática de 1 em10(50) é considerada por eles mesmos como impossível, uma vez que em termos de tempo, do Big Bang, se considerarmos sua ocorrência como tendo sido a mais de 15 milhões de anos, passaram-se, 10(18) no tempo total, e o úmero total de átomos do Universo ser de, apenas, 10(10) .
Outra improbabilidade, pelo que pude entender, refere-se àquela teoria da possibilidade de vida pela formação de uma “sopa pré-biótica” composta pelos aminoácidos, porque não existem evidências disto nas referências geológicas já pesquisadas. E mais, seria improvável que nessa sopa se formasse um conjunto de proteínas, quanto mais o que seria preciso delas para suprir toda a vida, entre outras necessidades. E mais ainda, se, como refere Hubert Yockey, o menor organismo vivo contém muito mais informações genéticas do que o conteúdo descoberto nas leis da Física, qual a origem do fantástico conteúdo de informação contido na vida? Como a teoria da "auto-organização" resolveria este impasse, uma vez que defende as leis da Física como formadoras da matéria viva?
Quanto ao processo aleatório ou acidental de formação da vida, seria preciso mais alguns milhões de anos para que ocorresse e sabe-se que a terra tem, só, 4,6 milhões de anos, e a vida, menos tempo. Alem disso, a criação espontânea é muito caótica para criar algo tão perfeito como a VIDA.
A essas teorias, as quais pude entender, juntam-se outras ainda mais complicadas, como uma baseada na Lei da Termodinâmica, etc., etc.
A minha compreensão disso tudo, que alguns até poderão considerar simplista, é que, mentalmente, somos criaturas e criadores, à imagem semelhança de Deus, porque Ele nos legou como herança a condição de ser também um criador. No entanto, não saímos do estágio de amadores; não entendemos isso ainda; não sabemos usar esse potencial para criar, porque não conseguimos ultrapassar nossos próprios limites; talvez por medo, não sabemos soltar nossas amarras, que são verdadeiros grilhões; âncoras que nos imobilizam. Até agora, a única possibilidade de criar, de se soltar, que o homem já utiliza com alguma familiaridade, inclusive na tentativa de criar uma realidade própria, ainda que partindo da subjetividade, é a que realiza através da arte. Mas isso não é pouco se considerarmos o número reduzido de pessoas que o fazem, dentro de um universo tão grande, que considerados privilegiados ou loucos.
Posso entender que só aos poucos, gradativamente, à medida que avançamos nossas buscas, vamos também entrando em contato com esse potencial de dimensões inimagináveis que é a nossa mente; creio que o caminho deva ser esse. Até porque ainda não temos o acesso liberado, talvez por ser entendido que não suportaríamos ter nas mãos essa formidável máquina de uma só vez. Não saberíamos o que fazer com ela, ou faríamos muito mais besteiras, sei lá... Somos frágeis e houve necessidade que tudo ocorresse dessa forma, para que esse conhecimento fosse absorvido e processado, como uma digestão.Na verdade, somos a representação ou a síntese de cada processo interno, nosso mesmo.
Mas, ainda assim, me parece, temos medo de nós, algo parecido com aquela situação em que sabemos da existência, mais adiante, de algo desconhecido, com que não saberíamosmos lidar, e fechamos os olhos, qual crianças, como se não vendo anulássemos um perigo iminente.
Encontro-me num momento de profunda perplexidade com o que estou conhecendo, e isso não é nada; eu não sei nada! Antes tinha nas mãos um saco de interrogações e na outra um mundo de respostas, o que poderia trazer conforto; hoje, tenho uma galáxia de interrogações e nas duas mãos nenhuma resposta.

QUEM SOMOS NÓS? Tá todo mundo procurando esse sujeito!

segunda-feira, outubro 23, 2006

Os outros...para não cansá-los. (guacira)

Os poetas...
Este é um pais de gente criativa, eu sei. Entretanto, hoje gostaria de falar de um poeta português chamado José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis. Ele também foi romancista, ensaísta e crítico, mas como poeta foi arrebatador: por vezes extremamente amargo, angustiado, em consequência de sua visão de mundo, outras ácido, sarcástico, contraditório, mas também doce, suave e até ingênuo, como uma criança...
O meu olhar aqui, é um olhar que extrapola fronteiras... transcendendo todas as questões comezinhas, históricas, as violências cometidas e, embora entenda que não podemos retirar capítulos sofridos da nossa vida, também entendo que a Arte não pode ser preconceituosa, não pode estar a serviço dos rancores, dos revides, ou mesmo das reparações que, eventualmente, devam ser feitas (o que não será tratado aqui).
O poema desse grande autor que, indiscutivelmente, é um dos maiores representantes da poesia portuguesa a ser aqui comentado é "Cântico Negro" , meu predileto, por considerá-lo uma viagem à alma humana, com todas as suas contradições, necessidades, dores e propostas; uma espécie de confronto entre o ser individual e o coletivo, numa tentativa de afirmação, pela recusa em seguir a "manada" que desumaniza e despersonaliza o ser humano, na dimensão da sua individualidade, sua identidade mais intima; sua essência.
Repito que terei o cuidado de ser isenta de paixões menores, mas terei que ser justa e verdadeira, ao colocar as questões pretendidas.
Já no título do poema começam as referidas contradições...vejamos:
A palavra cântico ( do latim canticu) pressupõe uma homenagem; canto em honra da divindade; hino; ode; poema.
Negro ( do latim nigru) de cor preta; indivíduo de raça negra, preto; sujo; encardido; (algo) muito triste; lúgubre; maldito; sinistro.
No poema em questão, está implícita uma idéia de maldição, condenação, submissão, escravidão...então, logo a partir daí, percebe-se uma intensa contradição, pensamento e sentimento que permeia toda esta obra (especificamente). A idéia foi a de um grito de dor, assim representado: canto, ode = grito... e negro = dor, negação, onde reencontro certa consciência da analogia ente a cor negra e o sofrimento...
Há um antagonismo implícito, uma vez que cântico e negro não se combinam, por sua natureza diversa. Seria essa a representação do olhar do poeta José Régio sobre a vida: contradição, desencontro, negação, mas também esperança e sensação de incompreensão.
Outra evidência de negação do sujeito, de insegurança é demonstrada por sua indeterminação: "dizem"; "alguns", como se aí não fosse assumida a identidade do ser, a sua opção por uma individualidade...e sim , o sujeito indeterminado, ou todos as dimensões desse mesmo sujeito.
Mais uma forte contradição relaciona-se à resistência em obedecer regras (coletivo), demonstrando a vontade de seguir os próprios instintos (individual)...ou uma espécie de submissão do "eu", pelo qual optara, a estes, à impulsividade: "prefiro escorregar nos becos lamacentos"...como farrapos arrastar os pés sangrentos"...
Todo o tempo demonstra a guerra íntima dessa opção do "eu" (do que sente ser naquele momento) , com o mundo em que tem que viver, na perspectiva de propostas novas, de romper paradigmas para construir ou, antes, instalar o seu olhar sobre a vida.
Em meio a todas essas inconformidades, contradições e segurança do que não quer, volta e, ingenuamente, como uma última esperança, diz: "se ao que busco saber nenhum de vós reponde"... como se naquela condicional "se" esperasse, ainda, uma resposta às incompreensões: "porque me repetis vem por aqui?"
Aí, perante todas as impossibiliddes de respostas em si mesmo e no outro, entrega-se ao acaso, às forças da natureza, como uma saída para a opção primordial (ou uma quase morte...?), transcendendo o humano.
Mais adiante volta às forças opostas e incompatíveis ao evocar Deus e o Diabo, em que continua a busca das identidades antagônicas do 'eu' individual pelo qual optara e o 'eu' coletivo; o bem (Deus - eu, opção por si mesmo) e o mal (Diabo - humanidade, sujeito indeterminado). Tendo, mesmo percebendo outras possibilidades, que fazer opção por um , apenas...
Ao final, fica evidente a reafirmação deste; a opção pelo sujeito individual: "ninguém me peça definições (...) sei que não vou por ai". Uma proposta nova de vida , uma vontade de escrever a própria história, evidenciando a incompatibilidade entre forças poderosas, entre valores, que , mesmo na convivência, não se integram, ao contrário se distanciam...porque machucam...