Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, agosto 27, 2006

A urdidura do texto: cultura africana (guacira)

Falando-se de histórias de amor, não poderia deixar de registrar aqui uma homenagem à Cultura Africana, que se constituiu, ainda que de forma compulsória, o fio perfeito para que pudéssemos tecer a urdidura sobre a qual este país escreveu seu texto, mesmo que ainda precise de alguns nós que dêm a necessária firmeza à sua estrutura.
Cabe aqui uma referência importante ao período colonial brasileiro, em que havia toda a influência de outras culturas interagindo para configurar uma base tremendamente forte para o texto que se estava formando sobre ela: a nação brasileira. Esse período ao qual me referi enquanto cenário da mestiçagem - entrelaçamento semelhante ao da urdidura , com fios que se cruzam em todas as direções - evidencia uma forte relação entre tecido e texto.
A fazenda - lugar onde se faz; o fazer - em que o escravo se constituiu a sustentação da economia naquele período, portanto sua urdidura, é a base sobre a qual tudo foi construído. Foi sua força de trabalho que determinou a configuração e a continuidade daquela sociedade, com todos os seus defeitos, fundamental para a que temos hoje; seu elemento básico, o fio estrutural cultural, porque foi com ele que se teceu a fibra do homem brasileiro, o povo forte e mestiço que somos.
A influência das mulheres naqueles espaços domésticos, principalmente as mulheres portuguesas e negras, cujos fios trazidos da Europa e de África, ajudou a tecer a urdidura, o suporte sobre o qual construímos nosso tecido sócio/econômico/cultural, enquanto brasileiros . A matriz, no sentido de fundamento, em que se converteu essa mulher - também como fecundo útero - determinou as características desse texto enquanto cultura brasileira; na verdade seus fios construíram vários outros textos. Nos momentos em que teciam ou costuravam naqueles ambientes eminentemente femininos dos salões de costura e das camarinhas, as escravas e suas donas contaram e ouviram histórias, estreitaram relações, compartilharam dores, falaram de suas vidas, ou seja, elaboraram urdiduras com fios tecidos nessa relação, lançando os fundamentos de uma identidade criada nesse novo espaço, o da intersessão; outras tramas básicas foram urdidas com outros fios que estruturaram também a gramática dos nossos falares e a geografia dos nossos corpos. E esta nação é o texto final.

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