Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, agosto 28, 2006

Sonho da Chapada (guacira maciel)

Julho - 2005
Um dos meus mais acalentados sonhos era conhecer a Chapada Diamantina, porque desde muito pequena ouvia histórias fantásticas sobre a região, contadas por meu pai, que era de lá, e tinha um excepcional talento como narrador. Já havia quase desistido, quando meu psicanalista predileto fez O Convite...quase não acreditei! Daí em diante foram só planos; faltavam ainda 15 dias para a tão esperada caminhada - a proposta era essa: caminhar na Chapada - e eu já não conseguia dormir...Comecei a preparar roupas apropriadas, porque nesta época do ano aquela região, como de resto todo o interior da Bahia, é muito frio; era julho. Claro que nada disse ao realizador do meu sonho, porque ele poderia me achar muito ansiosa e estressada, coisas assim...sabe como são os psicanalistas, não? começam logo a enxergar um monte de paranóia na gente!
O grupo era composto de pessoas que eu não conhecia e isso foi surpreendentemente rico e prazeroso; houve uma sintonia absoluta, imagino até, que muito favorecida pelo próprio astral do lugar, em que o homem se integra ao seu habitat /gênese; a natureza. Engraçado observar o quanto somos afetados por essas coisas; o quanto mudamos nosso comportamento e nos tornamos mais humanos em ambientes mais ligados à natureza e desligados do nosso cotidiano desesperador vivido na urbanidade... Sem dúvida, por ser essa a nossa essência, a nossa natureza verdadeira.
Jamais vou poder esquecer esses dias, ainda que lá volte muitas vezes. Na verdade, existem momentos únicos na vida da gente; momentos irrepetíveis (podem acontecer outros até melhores); como se um portal se abrisse no Universo para nos dar de presente a magia que só pode ser percebida se estivermos muito atentos para pegá-la no ar, naquele exato momento!
Nunca pensei em praticar uma caminhada tão radical; escalei pedras que tinham três vezes a minha altura; pulei sobre formações rochosas, sob cachoeiras, que tinham verdadeiros abismos líquidos entre si; levei uma queda caindo dentro de um buraco arenoso, que me deixou as costas feridas e doloridas por dias após retornar. Porém nada disso foi mais importante do que viver aquela experiência.
Trouxe de lá guardados importantes, que, passados mais de quatro anos, ainda me alimentam; me levam a reavaliar algumas coisas...uma consequência deles é este poema que aqui vai, como resultado das minhas observações, da paisagem e sua velhíssima história, contada pelo nosso interessante e sádico guia, a quem apelidei de Fred Krueger (deu pra entender? rsrs), um verdadeiro compêndio da história, da geografia e da biologia da região, além das relações com alguém muito especial:

PEDRA DE FOZ

És como o grande abraço antisséptico
das imponentes pedras de foz
presença forte de eternas guardiãs
que são começo
mas também limites
tens imutável e frio o olhar
embora invejoso
sobre os seixos que rolam sensuais uns sobre os outros
ao sabor do vai e vem das correntes
as pequenas pedras que se deixam envolver
nesse aconchego
nem por isso brilham menos
mas não te sinto a grande rocha fria
tens o não assumido íntimo
louco pelo abraço
pelo perder-se do sujeito
e misturar-se na inconsistente massa
se deixar lamber
e se deixar levar pelo canto úmido das águas
e conhecer seu leito.

domingo, agosto 27, 2006

A urdidura do texto: cultura africana (guacira)

Falando-se de histórias de amor, não poderia deixar de registrar aqui uma homenagem à Cultura Africana, que se constituiu, ainda que de forma compulsória, o fio perfeito para que pudéssemos tecer a urdidura sobre a qual este país escreveu seu texto, mesmo que ainda precise de alguns nós que dêm a necessária firmeza à sua estrutura.
Cabe aqui uma referência importante ao período colonial brasileiro, em que havia toda a influência de outras culturas interagindo para configurar uma base tremendamente forte para o texto que se estava formando sobre ela: a nação brasileira. Esse período ao qual me referi enquanto cenário da mestiçagem - entrelaçamento semelhante ao da urdidura , com fios que se cruzam em todas as direções - evidencia uma forte relação entre tecido e texto.
A fazenda - lugar onde se faz; o fazer - em que o escravo se constituiu a sustentação da economia naquele período, portanto sua urdidura, é a base sobre a qual tudo foi construído. Foi sua força de trabalho que determinou a configuração e a continuidade daquela sociedade, com todos os seus defeitos, fundamental para a que temos hoje; seu elemento básico, o fio estrutural cultural, porque foi com ele que se teceu a fibra do homem brasileiro, o povo forte e mestiço que somos.
A influência das mulheres naqueles espaços domésticos, principalmente as mulheres portuguesas e negras, cujos fios trazidos da Europa e de África, ajudou a tecer a urdidura, o suporte sobre o qual construímos nosso tecido sócio/econômico/cultural, enquanto brasileiros . A matriz, no sentido de fundamento, em que se converteu essa mulher - também como fecundo útero - determinou as características desse texto enquanto cultura brasileira; na verdade seus fios construíram vários outros textos. Nos momentos em que teciam ou costuravam naqueles ambientes eminentemente femininos dos salões de costura e das camarinhas, as escravas e suas donas contaram e ouviram histórias, estreitaram relações, compartilharam dores, falaram de suas vidas, ou seja, elaboraram urdiduras com fios tecidos nessa relação, lançando os fundamentos de uma identidade criada nesse novo espaço, o da intersessão; outras tramas básicas foram urdidas com outros fios que estruturaram também a gramática dos nossos falares e a geografia dos nossos corpos. E esta nação é o texto final.

guacira1