Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, novembro 05, 2006

Sobre plágio... (guacira maciel)

Dia desses estive lendo na Internet sobre uma homenagem dos EEUU a Machado de Assis; entrei para entender qual o interesse desse país no assunto, mas não lembro o porquê de ter continuado sem resposta. Entretanto, me interessei por ser autora e pela ênfase dada a uma colocação que o autor brasileiro, segundo a reportagem, teria feito: de que as pessoas que escrevem seriam plagiadores...
Bem...Podemos olhar a questão sob vários ângulos; só não podemos interpretar ao pé da letra, como se diz, mesmo porque Machado já não poderia dar explicações complementares, nem tampouco considerar assunto encerrado sem uma análise mais aprofundada, num contexto cultural contemporâneo, completamente diferente daquele em que viveu o referido autor.
Começarei indo ao Aurélio buscar o conceito de plágio:

Plágio – Ato ou efeito de plagiar.
Plagiar – v. t. direto. 1. Assinar ou apresentar como seu (obra artística ou científica de outrem).
2. Imitar (trabalho alheio).

No primeiro conceito, acredito, não poderá ser incluída a situação à qual se referiu Machado de Assis, porque é muito grave assinar ou apresentar como sua, a obra, o trabalho de outrem; isso se chama roubo, usurpação e é caso de justiça. Mas a segunda, sim. Entretanto, teríamos um outro olhar e muitas nuances a serem consideradas numa análise.

Que tenha conhecimento, Machado teria dito que “o autor é um reflexo do que lê”; para ele, o autor é “antes de tudo um grande leitor”. Mais tarde José Saramago disse que “os autores são filhos de suas leituras”; já de acordo com o escritor argentino Jorge Luis Borges “o escritor é um leitor que só escreve porque esqueceu o que leu”. Para Harold Bloom, crítico americano, os grandes autores, na verdade, interpretam de forma “tendenciosa” as pessoas que leram num passado próximo ou longínquo.

A partir deste ponto, farei, eu, algumas considerações sobre essa história de plágio: Desde o momento em que, por uma questão puramente pedagógica, comecei a escrever sobre interdisciplinaridade, para ajudar nosso professor a mudar a sua “práxis”, abrindo-se para a realidade do mundo contemporâneo e ampliando o olhar sobre novos paradigmas, deparei-me com algo muito maior do que eu pudesse imaginar e, em sendo assim, me dei um tempo para estudar um pouco mais.
Será necessário abrir-se para essa compreensão nova de realidade; de mundo. A natureza é una, não podendo ser entendida como feita de elementos independentes; de sistemas desvinculados em sua gênese; sobre isso o austríaco Fritjof Capra, Doutor em Física, tem uma interessante teoria, que classifica como ecologia profunda.... Mas essa discussão ficará para outro momento, porque entraríamos em muitas outras questões fantásticas, interessantes e curiosas, que precisaríamos analisar. Voltemos à nossa: o que disseram que Machado falou sobre plágio...ou entenderam que ele teria dito, a partir de um posicionamento pessoal, que é o ponto onde pretendo chegar. Já a partir daqui, posso dizer, com o meu olhar, que essa colocação foi “tendenciosa”, se tomarmos Harold Bloom como referência, isto é, o olhar que, imagino, deva ter sido o de um jornalista sobre a questão. Então, poderíamos nos perguntar: qual teria sido o seu objetivo ao colocar essa notícia na Internet? Má fé? Mentira? Loucura? Acho que não! Apenas a sua forma de interpretar o que leu em Machado ou sobre ele, e com um objetivo específico, sem dúvida. Inclusive numa linguagem jornalística, que tem implícita uma intencionalidade. Tudo precisa ser considerado.
Machado teria dito que o “autor é um reflexo do que lê” e que ele é, “antes de tudo um grande leitor”. Que eu saiba, Machado era um homem razoavelmente equilibrado (se tomamos como referência o mano Caetano: “de perto ninguém é normal”) e não poderia dizer que, mesmo ele, que é grande, estaria isento de influências. Acho até que quando falou, referia-se à sua própria obra; ele foi um homem de muitos contatos, inclusive fora do país e não poderia achar-se um gênio ou o primeiro grande criador...Nós somos um reflexo de todas as nossas vivências, sejam experiências pessoais, sejam nas relações com o mundo; tudo está sistêmica e radicularmente unido; somos um, com os outros e com o Universo. Por exemplo, se estou aqui, agora, escrevendo sobre esse assunto, é porque li algo sobre essa querela; eu iria inventar que alguém falou isso pra poder escrever? Nem a ficção mais rica e criativa está isenta de reflexões e reflexos de outra coisa ou de alguém.
Gabriel Perissé, defende a tese do "plágio criativo", mas Saramago teria dito que os autores são “filhos de suas leituras” e por acaso não foi isso mesmo que Machado disse? Aliás, se Saramago tivesse vivido antes de Machado, eu teria dúvida de quem o teria dito primeiro. Ambos sabiam que qualquer coisa que tenham dito como autores, alguém, em alguma parte do mundo, já teria dito, fosse em que idioma fosse.
Aliás, sabe quem já teria dito isso antes desses dois? O meu caríssimo Einstein! Segundo ele, até os dezoito anos o ser humano cria e a partir daí, o que fala ou pensa é fruto da pesquisa de outrem; aqui já estou acrescentando alguma coisa minha...
Pode um autor sofrer influência, forte influência de alguém que admira ou que exerce, em determinado momento histórico, um fascínio sobre outros autores, iniciantes ou não. Por exemplo, é sabido que Machado de Assis foi um tradutor de Vítor Hugo para o nosso idioma, tendo, inclusive, traduzido um dos seus maiores romances e, à época, se referido aos autores brasileiros seus contemporâneos, que eram influenciados por este. Aliás, ele próprio, isso não é ignorado, sofreu influência de Vitor Hugo, ocorrência que está clara em sua obra. Sobre isso fala Eugênio Gomes, em relação à “ As Ocidentais”, de Machado, onde identifica uma “alusão” (termo muito aceito nestes casos) a um dos conhecidos livros de Hugo, “As Orientais”, outro livro por ele traduzido. Mas este não é o único onde são identificadas “alusões”; e seria de admirar que não terminasse por ocorrer, uma vez que Machado era, como já colocado, seu conhecido tradutor por essas bandas de cá, embora percebamos diferenças marcantes, resultantes dos traços de personalidade de cada um: Hugo, mais entusiasmado, uma exuberante e quase explosiva eloqüência; Machado, mais suave e discreto, algo pessimista e descrente, muito embora possamos também observar-lhe uma certa melancolia. Outro autor em cuja obra Machado buscou algumas pinceladas foi Thomas Hardy, segundo Hélio Pólvora , que encontra similaridade na descrição do olhos da polêmica Capitu com a personagem daquela obra.
Saindo um pouco da experiência específica de Machado, e ampliando mais o foco sobre esse polêmico assunto, diria que só imitamos alguém que admiramos, por considerá-lo grande ou, no mínimo, que nos chama a atenção por alguma razão, inclusive por dizer o que gostaríamos; um exemplo nos vem do século XII (isto, lógico, li em algum lugar...) na experiência de John Salisbury, que dizia a seus alunos que o segredo para escrever bem, estaria na leitura da obra dos mestres do passado e depois a busca da condição de escrever como se os tivesse em sua própria alma, por considerar esta forma uma justa homenagem (o que os falecidos achavam, jamais saberemos). Ou seja, em linguagem bem contemporânea e pedagogicamente correta, estamos falando em contextualizar o conhecimento apreendido.
Acredito que se algum autor houver, que imagine poder dizer algo inédito em sua obra, tiro aqui suas esperanças; jamais o fará, porque lá um dia alguém aparecerá com um precursor seu, encontrado em algum cantinho deste vasto mundo, que já terá dito a mesma coisa ou quase. Logo, é mais saudável e honesto admitir de uma vez o que aqui e em muito outros trabalhos está posto.
A originalidade não consiste em dizer coisas inéditas, isto é impossível; mas em dizer coisas já ditas, da sua forma, do seu jeito próprio, a coisa mais banal se tornará nova. Só considero inédito o que eu mesma disse da minha forma, antes de torná-la pública.
Há poucos dias alguém escreveu num site: nada é novo sob o sol. Bem...Em Eclesiastes 9 e 10 está escrito: “Não há nada de novo debaixo do sol” Em parte concordo, mas há uma sutil diferença entre o que há no texto bíblico e o que li no site... Para mim, a cada amanhecer tudo, absolutamente tudo, é novo!
Continuando, pode-se realizar um trabalho partindo de uma idéia de outra pessoa, de um fragmento do trabalho de outro autor, podem ser usadas palavras ditas por alguém, usar metáforas, frases até; só que ditas de forma tão pessoal, que se consiga torná-la original , fazendo com que o autor “imitado”, ou tomado como referencia, nem seja lembrado por quem lê o novo texto.
Há uma assimilação que ocorre de forma subreptícia atavés da leitura; eu sou parte do que vivencio, e ler é experienciar uma realidade que não vivemos, mas que nos traz ganhos, nos amadurece...então, por que leríamos os clássicos? A isto chamamos cultivar; e cultura tem o mesmo significado de cultivo da Agricultura, isto é, fazer crecer, desenvolver sementes; por acaso, a obra de outros autores não são sementes para quem escreve? o que leio da obra de outro autor, se torna um patrimônio meu... a originalidade está implícita na arte de redigir de cada um; de dizer o que alguém já disse, de forma original.
Ninguém começa nada do zero, ainda que todas as luzes se apaguem, que saiamos da ribalta e nos isolemos numa ilha deserta. Nossos referenciais nos acompanharão, porque estão em nós; somos UNOS com os outros... Quando me entendo como sujeito; como ser estando; com uma identidade íntima, já incorporei saberes; primeiro através da herança genética, depois espiritual (ou a ordem é inversa?) e, ao lado destas, outras com o mesmo grau de importância. Com certeza não começamos na infância, embora nesta fase se constituam, se organizem importantes fundamentos que serão básicos para toda a vida; a nossa estrutura primeira, o nosso chão; e será com o pé nele fincado que poderemos erguer-nos e desabrochar.
Não podemos tomar a decisão de começar do zero, nem de nós mesmos. Aonde iríamos buscá-lo? Em que lugar?
Depois de todas essas reflexões, saio, eu mesma, com mais certeza que a originalidade do autor está no olhar que tem sobre cada coisa e a forma de colocar no seu texto. Existe um legado da humanidade, construído por muitos, que se constitui patrimônio de cada um de nós em todas as gerações que vão surgindo. O artista, o autor não é mais dono de sua obra a partir do momento em que ela lhe escapa das mãos, passando a incorporar esse acervo. Por outro lado, não poderá ser pretensioso a ponto de pensar que pode anular tudo o que já foi pensado, dito e construído, e, simplesmente, imaginar (haja imaginação...) que é um grande gênio criador, até por uma questão de respeito ao trabalho do seu semelhante.
Quando disse o que está aqui registrado, deixei de dizer mil outras coisas, tão importantes quanto estas, que me viriam à cabeça, não tivesse que fazer opções. Isso, alguém também já disse antes de mim, com outras palavras; mas estarei "cometendo" plágio?
As palavras são elos, como pontes erguidas entre as pessoas e o eterno; um (dos) caminho que poderemos utilizar para nos comunicar; caminho que nos leva ao outro... Se no meu texto, cito um outro autor, tomando-o como referência para o que quero dizer, estou respeitando-o; estou buscando apoio; estou apoiando-o, reforçando o seu pensar (dizendo: olha, fulano também pensou como eu...)e, acima de tudo, estabelecendo elos, criando laços que manterão um ecossistema nessa "ecologia profunda" da qual nos fala Capra.
Se escrever é uma arte (como entendo) preciso fazê-lo de forma original e criativa; buscar a forma mais “tendenciosa”, como referiu Harold Bloom, para dizer do meu jeito o que já foi dito por alguém , em algum lugar. Sendo uma busca dupla da arte: dizer alguma coisa com sensibilidade, erguendo caminhos imaginários que nos levem a alguém, e fazê-lo de forma, esta, sim, inédita, levantando novos véus e descortinando novos e insondáveis horizontes, que também poderão servir-lhe de caminho. Assim, na literatura (neste caso específico), em que pese a força da subjetividade e criação, a idéia que explode numa obra, já foi pensada e/ou dita por, pelo menos, uma outra pessoa.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Quem somos nós? quem somos nós: ? (guacira)

Se tivesse esta resposta (e como gostaria..), acho que teria todas as outras, porque ela é a grande pergunta; a pergunta fundamental e também a resposta fundamental. Se nosso ser é intangível, a realidade também o será e sua captura será temporária, uma vez que nada é terminado; permanente. Ainda existem muitos mistérios a serem desvendados e isso é bom, estimula a busca e dá à vida um sabor de aventura...
Creio na teoria do criacionismo, não apenas porque é óbvio que só uma inteligência infinita e inimaginável como Deus, poderia compor uma obra tão perfeita, irretocável, como o ser humano, paradoxalmente a unidade/síntese mais complexa em sua natureza.Tampouco vou aqui deter-me em expor evidências sobre isto, como , por exemplo, da completa máquina que é o nosso organismo, perfeitamente calculada para funcionar em sincronia e em sintonia com o Universo. A nossa grande questão não é criar mais nada na natureza humana ou qualquer outra...está tudo criado, e perfeito! A nós, cabe agora, usar o seu centro, o núcleo dessa criação, que é o cérebro, e pensar. Na verdade, nos foi legado como herança um grande e mágico “puzzle” a ser montado peça por peça; um verdadeiro enigma a ser desvendado. Os caminhos serão muitos e cada um encontrará o seu; as possibilidades, infinitas; mas só uma resposta final, a partir da qual teremos as subseqüentes.
Não tenho o conhecimento científico específico, necessário para elaborar uma hipótese, conformando-me em usar a minha sensibilidade e condição de subjetivar, para procurar respostas, uma vez que penso, com condição de conduzir-me a um caminho que possa suavizar minhas angústias.
Entretanto, sei que o cientista Sir Fred Hoyle, antes de mim (risos) , já concluiu que a vida não poderia ter sido (acontecido) conseqüência de uma atividade aleatória, ainda que todo o Universo tivesse sua composição de massa pré-biótica (não pude entender muito isso aí), mas cheguei à mesma conclusão por outros caminhos. Portanto, ao que pude entender, aquela hipótese matemática de 1 em10(50) é considerada por eles mesmos como impossível, uma vez que em termos de tempo, do Big Bang, se considerarmos sua ocorrência como tendo sido a mais de 15 milhões de anos, passaram-se, 10(18) no tempo total, e o úmero total de átomos do Universo ser de, apenas, 10(10) .
Outra improbabilidade, pelo que pude entender, refere-se àquela teoria da possibilidade de vida pela formação de uma “sopa pré-biótica” composta pelos aminoácidos, porque não existem evidências disto nas referências geológicas já pesquisadas. E mais, seria improvável que nessa sopa se formasse um conjunto de proteínas, quanto mais o que seria preciso delas para suprir toda a vida, entre outras necessidades. E mais ainda, se, como refere Hubert Yockey, o menor organismo vivo contém muito mais informações genéticas do que o conteúdo descoberto nas leis da Física, qual a origem do fantástico conteúdo de informação contido na vida? Como a teoria da "auto-organização" resolveria este impasse, uma vez que defende as leis da Física como formadoras da matéria viva?
Quanto ao processo aleatório ou acidental de formação da vida, seria preciso mais alguns milhões de anos para que ocorresse e sabe-se que a terra tem, só, 4,6 milhões de anos, e a vida, menos tempo. Alem disso, a criação espontânea é muito caótica para criar algo tão perfeito como a VIDA.
A essas teorias, as quais pude entender, juntam-se outras ainda mais complicadas, como uma baseada na Lei da Termodinâmica, etc., etc.
A minha compreensão disso tudo, que alguns até poderão considerar simplista, é que, mentalmente, somos criaturas e criadores, à imagem semelhança de Deus, porque Ele nos legou como herança a condição de ser também um criador. No entanto, não saímos do estágio de amadores; não entendemos isso ainda; não sabemos usar esse potencial para criar, porque não conseguimos ultrapassar nossos próprios limites; talvez por medo, não sabemos soltar nossas amarras, que são verdadeiros grilhões; âncoras que nos imobilizam. Até agora, a única possibilidade de criar, de se soltar, que o homem já utiliza com alguma familiaridade, inclusive na tentativa de criar uma realidade própria, ainda que partindo da subjetividade, é a que realiza através da arte. Mas isso não é pouco se considerarmos o número reduzido de pessoas que o fazem, dentro de um universo tão grande, que considerados privilegiados ou loucos.
Posso entender que só aos poucos, gradativamente, à medida que avançamos nossas buscas, vamos também entrando em contato com esse potencial de dimensões inimagináveis que é a nossa mente; creio que o caminho deva ser esse. Até porque ainda não temos o acesso liberado, talvez por ser entendido que não suportaríamos ter nas mãos essa formidável máquina de uma só vez. Não saberíamos o que fazer com ela, ou faríamos muito mais besteiras, sei lá... Somos frágeis e houve necessidade que tudo ocorresse dessa forma, para que esse conhecimento fosse absorvido e processado, como uma digestão.Na verdade, somos a representação ou a síntese de cada processo interno, nosso mesmo.
Mas, ainda assim, me parece, temos medo de nós, algo parecido com aquela situação em que sabemos da existência, mais adiante, de algo desconhecido, com que não saberíamosmos lidar, e fechamos os olhos, qual crianças, como se não vendo anulássemos um perigo iminente.
Encontro-me num momento de profunda perplexidade com o que estou conhecendo, e isso não é nada; eu não sei nada! Antes tinha nas mãos um saco de interrogações e na outra um mundo de respostas, o que poderia trazer conforto; hoje, tenho uma galáxia de interrogações e nas duas mãos nenhuma resposta.

QUEM SOMOS NÓS? Tá todo mundo procurando esse sujeito!

segunda-feira, outubro 23, 2006

Os outros...para não cansá-los. (guacira)

Os poetas...
Este é um pais de gente criativa, eu sei. Entretanto, hoje gostaria de falar de um poeta português chamado José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis. Ele também foi romancista, ensaísta e crítico, mas como poeta foi arrebatador: por vezes extremamente amargo, angustiado, em consequência de sua visão de mundo, outras ácido, sarcástico, contraditório, mas também doce, suave e até ingênuo, como uma criança...
O meu olhar aqui, é um olhar que extrapola fronteiras... transcendendo todas as questões comezinhas, históricas, as violências cometidas e, embora entenda que não podemos retirar capítulos sofridos da nossa vida, também entendo que a Arte não pode ser preconceituosa, não pode estar a serviço dos rancores, dos revides, ou mesmo das reparações que, eventualmente, devam ser feitas (o que não será tratado aqui).
O poema desse grande autor que, indiscutivelmente, é um dos maiores representantes da poesia portuguesa a ser aqui comentado é "Cântico Negro" , meu predileto, por considerá-lo uma viagem à alma humana, com todas as suas contradições, necessidades, dores e propostas; uma espécie de confronto entre o ser individual e o coletivo, numa tentativa de afirmação, pela recusa em seguir a "manada" que desumaniza e despersonaliza o ser humano, na dimensão da sua individualidade, sua identidade mais intima; sua essência.
Repito que terei o cuidado de ser isenta de paixões menores, mas terei que ser justa e verdadeira, ao colocar as questões pretendidas.
Já no título do poema começam as referidas contradições...vejamos:
A palavra cântico ( do latim canticu) pressupõe uma homenagem; canto em honra da divindade; hino; ode; poema.
Negro ( do latim nigru) de cor preta; indivíduo de raça negra, preto; sujo; encardido; (algo) muito triste; lúgubre; maldito; sinistro.
No poema em questão, está implícita uma idéia de maldição, condenação, submissão, escravidão...então, logo a partir daí, percebe-se uma intensa contradição, pensamento e sentimento que permeia toda esta obra (especificamente). A idéia foi a de um grito de dor, assim representado: canto, ode = grito... e negro = dor, negação, onde reencontro certa consciência da analogia ente a cor negra e o sofrimento...
Há um antagonismo implícito, uma vez que cântico e negro não se combinam, por sua natureza diversa. Seria essa a representação do olhar do poeta José Régio sobre a vida: contradição, desencontro, negação, mas também esperança e sensação de incompreensão.
Outra evidência de negação do sujeito, de insegurança é demonstrada por sua indeterminação: "dizem"; "alguns", como se aí não fosse assumida a identidade do ser, a sua opção por uma individualidade...e sim , o sujeito indeterminado, ou todos as dimensões desse mesmo sujeito.
Mais uma forte contradição relaciona-se à resistência em obedecer regras (coletivo), demonstrando a vontade de seguir os próprios instintos (individual)...ou uma espécie de submissão do "eu", pelo qual optara, a estes, à impulsividade: "prefiro escorregar nos becos lamacentos"...como farrapos arrastar os pés sangrentos"...
Todo o tempo demonstra a guerra íntima dessa opção do "eu" (do que sente ser naquele momento) , com o mundo em que tem que viver, na perspectiva de propostas novas, de romper paradigmas para construir ou, antes, instalar o seu olhar sobre a vida.
Em meio a todas essas inconformidades, contradições e segurança do que não quer, volta e, ingenuamente, como uma última esperança, diz: "se ao que busco saber nenhum de vós reponde"... como se naquela condicional "se" esperasse, ainda, uma resposta às incompreensões: "porque me repetis vem por aqui?"
Aí, perante todas as impossibiliddes de respostas em si mesmo e no outro, entrega-se ao acaso, às forças da natureza, como uma saída para a opção primordial (ou uma quase morte...?), transcendendo o humano.
Mais adiante volta às forças opostas e incompatíveis ao evocar Deus e o Diabo, em que continua a busca das identidades antagônicas do 'eu' individual pelo qual optara e o 'eu' coletivo; o bem (Deus - eu, opção por si mesmo) e o mal (Diabo - humanidade, sujeito indeterminado). Tendo, mesmo percebendo outras possibilidades, que fazer opção por um , apenas...
Ao final, fica evidente a reafirmação deste; a opção pelo sujeito individual: "ninguém me peça definições (...) sei que não vou por ai". Uma proposta nova de vida , uma vontade de escrever a própria história, evidenciando a incompatibilidade entre forças poderosas, entre valores, que , mesmo na convivência, não se integram, ao contrário se distanciam...porque machucam...

domingo, setembro 24, 2006

Descartes; nem tanto ao mar, nem tanto à terra.(guacira)

"Não condenemos ao naufrágio o vivido..."

É isso! como consequência do exercício da dúvida, surgem os questionamentos sobre o estabelecido. Felizmente, há um constante movimento nesse sentido em todas as épocas e, quero crer, em todas as sociedades.
A velha edificação da fragmentação da ciência não teve uma trajetória diferente na historia da humanidade, embora as mudanças se dêem não sem muitas resistências por parte da academia, para ser desconstruída, ou , pelo menos, revista.
Todos nós estamos tendo o privilégio de viver novos tempos, mas precisamos reconhecer e agradecer aos homens que fizeram ciência em tempos idos, lançando as bases para o olhar que temos hoje(ou deveríamos ter) sobre ela e suas possibilidades.
Aqui, refiro-me em especial a esse homem de vanguarda, assim o compreendo, a quem muito devemos por ter sido quem lançou os alicerces da subjetividade do EU, tão fundamental ao mundo contemporâneo, não apenas falando de Arte, incluindo-se a Literatura, que é o meu lugar, mas a Psicologia e a Psicanálise, tão importantes ao homem para a compreensão de si e de suas relações com o mundo e também a todas as ciências, se falamos de conhecimentos específicos a cada uma e ao todo que representam.
Entretanto, em sua época, o filósofo foi considerado um "ideólogo do individualismo", uma vez que questionou modelos fortemente estabelecidos pela orientação religiosa, em que o eu não era o sujeito da própria vida, e a superstição, que direcionavam a vida e o pensamento, abalando os alicerces de antigas construções, ao propor o lançamento de uma nova pedra filosofal.
Paradoxalmente, Descartes e Chandux não se entenderam, quando este último, um céptico, disse, já naquela época (1628), "não haver certezas em se tratando da ciência (aceitando-se apenas possibilidades)", o que também traz no seu bojo um pensamento bastante contemporâneo (falando-se de hoje), se sabemos que ele, Descartes, introduziu a dúvida na investigação e na pesquisa científica e filosófica como seu principal elemento, desencadeando um movimento libertário e oxigenador para essas questões. Àquela época vivia-se um momento de incertezas e de anarquia metodológica em consequência do fim do tomismo, necessitando-se novos caminhos para a "verdade" a partir do espírito. E urgia uma outra base para a organização e a legitimização científica, através de um novo método de busca.
O que creio muito positivo no pensamento de Descartes é que ele introduziu a dúvida contra o embotamento do pensamento feito pela via da superstição e limitação imposta pela fé. Não se trata aqui de referendar o rigor da exatidão na ciência como resultado último (na pesquisa, sim.) mas, ao contrário, estabelecer a condição, a consideração, o reconhecimento da existência das infinitas outras possibilidades; dos novos e múltiplos olhares.
Observando-se a sua "àrvore do saber", embora fragmentada, encontro um ponto de convergência com o pensamento contemporâneo, que são o que considero relações entre as ciências (fragmentada no pensamento da época); seria já o caso de se pensar , ainda que de forma incipiente, no estabelecimento de uma base para as redes, as relações sistêmicas existentes entre elas? Ele entendeu que a Física em síntese com a Metafísica era a ciência-fundamento do saber (ainda que considerado o pai da filosofia mecanicista), e não foi ela que nos abriu o caminho para a relativização do olhar? as muitas possibilidades, já que ciência é para a vida? não foram os efeitos quânticos, fundamentais para descrever a "emergência ou geração do EU consciente"?
Outro ponto positivo e contemporâneo em Descartes é que ele entendia que a ciência e o conhecimento precisavam ser democratizados e não, ser privilégio de poucos, de uma elite, a dos já iniciados; pensamento que era manifesado a partir de Pitágoras e Copérnico.
Na verdade, observo que de tempos em tempos o mundo passa por um período, uma fase de exaustão, tratando-se do estabelecido, precisando (ainda bem) de novas análises, de avaliações e novos olhares sobre as construções humanas; e o mais interessante, é que isso chega naturalmente; de repente aparece um "louco" que percebe e lança novas propostas, novas idéias sobre essas construções . Estamos vivenciando mais um deles; pelo menos assim o percebo. Existem muitos questionamentos na minha e, creio, na cabeça de meio mundo neste início de um novo século. Estou querendo, com o olhar da poética, posicionar o pensamento de Descartes, não em relação ao racionalismo, mas à instauração, àquela época, da subjetividade; à inauguração de propostas sobre o EU ainda hoje referendadas, pois acho que sobre elas se passou um rolo compressor, sem relativisar o olhar; até buscando amparo na própria filosofia.
Embora aparentemente o nosso momento esteja mais para Chandoux, que compreendia a ciência como sendo um mundo de possibilidades, também entendo que Descartes sempre foi avaliado, analisado com certa crueza, com um olhar muito restritivo, considerando o que sobre seu pensamento sempre se disse e ainda que no seu "Discurso do Método" , considerado um "manifesto do racionalismo", ali iniciado, tenha dito: "não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres"; nestas palavras observo um manifesto de sensibilidade. E mais, entendia que a filosofia precisava deixar de ser uma ciência de contemplação para tornar-se um pensar dinâmico que pudesse ser utilizado como insrumento de progresso, ainda que tenha exagerado quando acreditou que o homem pudesse ser senhor e dono da natureza.
Nosso problema é a insuportável tendência aos recortes, o que nos tira a condição de perceber o sentido do todo. Ao meu olhar, o ponto fundamental no pensamento de Descartes é a ruptura com a imposição religiosa sobre as questões humanas e o pensar, comum em sua época, e a consequente "descoberta" do EU, no sentido de mostrá-lo, e às suas questões. Entretanto, as "Quatro Regras do Método", que ele próprio utilizava como fio condutor de sua forma de analisar, eram a meu ver, extremamente restritivas e incoerentes com a essência da sua proposta. Por exemplo, ali ele diz que se fossem "rigorosamente observadas", como ele próprio fazia, chegar-se-ia ao conhecimento; vejamos:
Jamais aceitar como exata coisa alguma que não se conheça à evidência como tal, evitando a precipitação e a precaução, só fazendo o espírito aceitar aquilo, claro e distinto, sobre o que não pairam dúvidas.
Dividir cada dificuldade a ser examinada em quantas partes for possível e necessário para resolvê-la.
Por em ordem os pensamentos, começando pelos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para atingir, aos poucos, os mais complexos.
Fazer para cada caso, uma enumeração tão exata e uma revisão tão ampla e geral para ter-se a certeza de não ter esquecido ou omitido algo.
Segundo ele, com esse método não existirá nada tão difícil " que não seja alcançado, nem tão escondido que não seja descoberto".É nesse momento que divirjo fundamentalmente do seu radicalismo e instauro na minha cabeça uma rejeição ao cartesianismo como o entendo , vivendo no mundo contemporâneo, embora não de forma tão abrangente, como já mencionei. Trocando em miúdos, o pensamento cartesino, de forma ampla, preconizava que se lançasse dúvidas em tudo que não pudesse ser racionalizado, só permitindo ao espírito aceitar algo sobre o que não pairassem dúvidas! Proposta que dá uma bela trombada no pensamento contemporâneo: o das não-certezas, mas das amplas possibilidades! Para comprovar, aí estão as propostas da Física Quântica nos sinalizando que o mundo exterior só existiria a partir do mundo interior, logo, aquele não seria mais real que este, como fomos condicionados a pensar, o que talvez seja uma as razões do empobrecimento e da ausência de novas e ricas experiências de vida; nessa perspectiva, não seria esta a razão por que repetimos sempre as mesmas experiências? Inclusive, até pelo medo de lançar mão desse potencial interior?
Assim, se o observador interfere nos resultados da experiência observada, também tem pertinência a participação fundamental da realidade psíquica, que já não nos limitaria a simples respostas a partir do que é captado pela autonomia ou linearidade do cérebro. Dessa forma, retornamos ao princípio dessa discussão, quando nos referimos ao EU instalado por Descartes, cuja importância para fundamentar um novo olhar sobre a ciência, imagino, nem ele mesmo avaliou.
Aqui poderia fazer um paralelo com a Arte, em que a subjetividade, uma condição de percepção transcendente, em cujo íntimo estão, além da realidade psíquica, as emoções, aliadas à concepção de beleza estética, histórias de vida, dores, ausências, trazendo à tona uma realidade modificada, recriada pelo olhar do artista, uma vez que é seu mundo íntimo que faz a mágica da realidade exterior existir.
Como seu próprio método ensina, será preciso separar em partes para que se faça uma análise justa. Entretanto, por em ordem os pensamentos começando pelos mais simples até os mais complexos, seria contraditório na ótica atual , se entendemos que o conhecimento ocorre em rede, desconstruindo a idéia de linearidade, uma vez que o pensar não acontece numa ordem que se possa classificar como lógica igual para todos. Assim podemos entender, também, quanto à certeza e exatidão que acreditava ser possível alcançar em cada caso.
Com o pensamento de que suspeitássemos das "verdades aceitas", sob o ponto de vista do direcionamento através de restrições impostas por crenças, ele lançou bases para o pensamento contemporâneo sobre nossas relações com a natureza; o materialismo e a própria consciência, no sentido de percepção do SER.
É com esse olhar mais abrangente que considero o "Penso, logo existo", que tanto se critica, mas que, distorcido, tanto pelas questões aqui analisadas, como pela tradução, foi tão mal compreendido.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Física Quântica e Poética (guacira maciel)

Há poucos dias ouvi de um amigo que a psicanálise estaria buscando novos caminhos em vista dos grandes, profundos e rápidos avanços no contexto de vida da ciência e do mundo contemporâneo. Depois recebi uma mensagem contendo uma síntese do filme "Quem somos nós", em que se discutem formas de encarar o mundo e sua relação com a física quântica, enquanto uma ciência de possibilidades. Fiquei duas noites quase insone pensando sobre o assunto. Tenho formação artística e sou poetisa, portanto tenho uma forma muito peculiar de sentir o mundo, mas raciocinei: se a física quântica é uma física de possibilidades, tem tudo a ver com a arte, com a poesia, que também nos oferecem inúmeras possibilidades para "explicar" o mundo e nossa relação com ele.
Peço perdão à ciência e aos cientistas, mas pesquisei sobre o assunto e algumas dessas leituas deixaram-me mais confusa. Entretanto, continuei com a certeza de que eu e a física quântica tínhamos algo em comum, porque Haisenberg (1955) disse que a busca da física contemporânea não é mais oferecer uma "imagem da natureza" e sim das nossas relações com ela. Outra coisa que achei interessante é que, como não tem caráter determinístico, ela sofre muito a interferênia do observador, que é quem define o que estará sendo medido e saberá o resultado que se obtém com determinada medida. E mais, E.P. Wigner disse que "foi necessário a consciência para completar a mecânica quântica", já que certos efeitos podem fazer parte do funcionamento do cérebro e, portanto, se envolverem na manifestação da consciência, uma vez que efeitos quânticos são fundamentais para descrever a "emergência ou geração do eu consciente".
O observador como elemento integrante, integrado e integrador relativisa o racionalismo desenvolvendo com a ciência uma relação de dualidade que a manterá em constante busca de sua unificação e da construção de uma teoria que dê uma resposta definitiva sobre a origem de tudo.Entretanto, embora entendendo que buscar pressupõe abrir novos caminhos, também entendo que essa resposta definitiva jamais será encontrada, se sabemos que as partes lidam com possibilidades.
Diante de todas as considerações anteriores, penso que a psicanálise não terá outro caminho para explicar as questões referentes aos seres humanos em suas relações, senão pela poética; dessa forma proporia que psicólogos e psicanalistas pudessem realizar uma parceria eficaz com poetas, e que os currículos dos cursos de graduação e pós-graduação da área em questão, incluissem a poética como disciplina obrigatória.Tudo isso, simplesmente, porque os poetas têm uma visão de mundo que atende a pressupostos dessa ciência contemporânea: a visão quântica, isto é, eles têm como campo de ação o mundo das possibilidades.
O poeta não se refere ao olho ou ao cérebro quando percebe; refere-se ao olhar; à percepção na dimensão do querer e do poder( na perspectiva do realizável). Então, se cria a realidade, o poeta pode entender uma cadeira como não sendo, necessariamente, uma cadeira como a maioria a entende e sim um leito ou braços ou seios que acolhem corpos cansados; uma mão poderia ser uma concha..ou asas...
O olhar tem a ver com o sentir, que parte da sensibilidade, transformando a realidade pela minha interferência, o que traz uma espéciede virtualidade, como um sonho, uma mágica! Aliás, tudo isso é uma fantástica mágica a ser PERCEBIDA!
Cada vez mais me apaixono pelo Criador por inumeras razões.Cristo conhecia a física quântica e cansou de nos dizer isso no Evangelho. Além de flutuar sobre as águas, Ele induziu o incrédulo Pedro a fazê-lo (Mateus,14;26-31). Dentro do princípio da física quântica é preciso crer para afetar profundamente a realidade e fazê-la ser; acreditar ser possível é determinante, mas se entendermos ser a realiade algo acabado, concreto, realizado, não podemos interferir. A realidade é minha possibilidade de fazer acontecer, a condição de perceber, mas não o que vejo com os olhos ou o cérebro em tempo real; trata-se da condição de subjetividade do tempo, já conhecida por Santo Agostinho.
É sabido que só conhecemos uma terça parte do potencial do nosso cérebro; já pensaram qual o receio do Criador quando só aos poucos nos permitiu o acesso a essa fantástica máquina? Eu já. Na verdade, se já tivéssemos conhecido todo o seu potencial, tudo do que ela é capaz, do jeito que somos perversos enquanto humanidade(sujeito coletivo), o que já não teríamos feito uns contra os outros? Já pensaram do que seremos capazes quando deixarmos de ter medo de pensar, quando alcançarmos a leveza interior necessária? Ah! o Criador é, indiscutivelmente, Onisciente ( e quem não crer pela simples fé, o fará pela comprovação, como S. Tomé - voltando ao Evangeho) e está esperando que os sofrimentos nos tornem mais sensíveis, menos prepotentes e mais crédulos, para só então nos permitir conhecer um mundo em que absolutamente tudo já é possível !

terça-feira, setembro 12, 2006

Exatas? (guacira maciel)

Através da poética, que é o meu caminho de busca, cheguei à Física e descobri que esta, ao contrário do que se fala, não é uma ciência "dura" ou da área de exatas, como vem sendo injustamente classificada. Na verdade ,devemos-lhe o indiscutível e merecido lugar entre as humanidades! Aliás, antes, tanto ela, quanto a Química, eram chamadas de Filosofia Natural (Ciência grega, séc. VII a.C. até final do séc. XVI). Existe um conceito mais apropriado para a ciência que se aplica às questões do homem e ao seu estar no mundo?
A ciência moderna sentiu necessidade de comprovar suas teses, seus conceitos,e a consequente experimentação tornou-se fundamental, o que viria a mudar os conceitos no seu próprio âmbito (séc. XVI até meados do séc. XX), tornando-a uma experiência engessada no pragmatismo e enquadrada em caixinhas, como se dessa forma o homem pudesse dar conta do espaço das subjetividades e possibilidades em que a vida acontece.O que, afinal, representam as infindáveis especializações, que nada mais são que a fragmentação do conhecimento? Entendo que essa forma "nova" fragilizou a vida ao separá-la por pequenas partes, pequenas porções, tirando o todo do seu eixo, e colocando o homem em posição de perplexidade diante de partes de si mesmo, analisadas e dissecadas, tão alheias a sua integridade, que ele acabou perdendo-se nas próprias dimensões, sem a condição de nelas transitar como um todo; uno.
Temos a tendência de submeter pela autoridade aquilo que não podemos controlar, por que não entendemos.Tomemos como referência a clássica atitude do professor rígido e "dono da verdade" que, não sabendo como encaminhar pedagogicamente mentes inquietas, sedentas e cheias de vida e, não tendo sensibiliade para usar outras propostas de atendimento, o que faz? castiga, submete, ameaça...
O caminho trilhado nessa marcha nos colocou diante de questões inexplicáveis a uma ótica unilateral, porque as mudanças são tantas, coloridas com tantas nuances, e tão velozes, que essa colcha de retalhos tornou-se quase impossível de ser unida, costurada, tantos e tão pequenos esses retalhos se tornaram. Observemos que Platão em "A República", já nos fala da necessidade de "cardar e fiar" porque a missão de um político(no caso específico) seria misturar o tecido maior e o menor para adequar a vestimenta, que é o todo de que vimos falando que somos.
Precisamos, outra vez, nos colocar humildemente na condição de aprendizes; aqui, volto a lançar mão de uma forte referência, o próprio Einstein, para quem o ser humano só constrói até os 18 anos; a partir daí tudo se resume a especulações e experimentações...E o que somos senão aprendizes, mesmo? É preciso que ampliemos o olhar para procurar entender e absorver esse imenso universo de possibilidades do qual nos fala a Física Quântica e que nos coloca diante da fundamental questão:quem somos, de verdade?
É importante entender que não vamos perder o controle, porque não o temos! O novo amedronta, o desconhecido gera receios, mas a própria ciência, generosa e sem rancores nos ensinará a lidar com eles. A Física é uma ciência que nos coloca perante nossas humanidades, é ela que nos ensina suavemente ser preciso olhar o mundo com um olhar novo, porque sob pontos de vista diferentes; o olhar que nos traz o entendimento de que pelo fato de nada ser terminado, tudo é possibilidade. E será através da necessária sensibilidade que precisaremos reinterpretar nossos conceitos de ciência; reconhecer humildemente a necessidade de uma forma nova de relação com a natureza, não o nosso domínio sobre ela, e com o outro, o que estabelecerá uma teia que se entrelaça e se complementa.
Estou tentando mostrar a mim mesma que o olhar sobre a ciência precisará ser o mesmo que temos sobre a arte, em que uma das funções é estabelecer o espírito de comunhão e não de comprovar verdades finais, porque, como a ciência, ela e sua condição não se esgotam. Essa olhar será resultante dos diferentes ângulos; um olhar amplo; o das possibilidades, ou seja o de que nada está terminado. As diferenças restringem-se aos saberes específicos de cada uma, até para que busquem caminhos mais largos, mas que não servirão para outra coisa senão para explicar seu próprio âmbito e o elo/gênese que as liga, num encontro inevitável para um novo recomeço.
Será através da sensibiliade que precisaremos reinterpretar a ciência, enfatizo.Nos dispor a rever velhos conceitos enraizados numa exatidão que eu diria temporária, uma vez que nada no homem é terminado; e a ciência só terá sentido se em sua trajetória aceitar a mobilidade, porque vida significa mudança, movimento; nada que tem vida é estático ou finalizado. Dessa forma, se a vida não tem limites ou fronteiras, a ciência também não os terá já que trata das suas questões.
Filosofia é uma espécie de amor, portanto faz sentido que a Física já tenha sido denominada Filosofia Natural, porque lida e busca caminhos para a vida, como todos os saberes. Não faz sentido?
Quanto mais reflito, quanto mais busco um olhar novo sobre essas questões, mais laços e coerência encontro entre essa ciência e a sensibilidade, a arte, a vida. Então, o que são as "linhas de força", afinal, senão LAÇOS?Para que haja interação entre as partículas (nós não somos partículas nesse universo infinito?)são neessárias as tais "linhas de força"! É só questão de ampliar o olhar, porque sob ângulos diferentes, para que se estabeleçam as relações; uma questão de sair do meu casulo, me espreguiçar com os braços bem abertos e acolher...

segunda-feira, agosto 28, 2006

Sonho da Chapada (guacira maciel)

Julho - 2005
Um dos meus mais acalentados sonhos era conhecer a Chapada Diamantina, porque desde muito pequena ouvia histórias fantásticas sobre a região, contadas por meu pai, que era de lá, e tinha um excepcional talento como narrador. Já havia quase desistido, quando meu psicanalista predileto fez O Convite...quase não acreditei! Daí em diante foram só planos; faltavam ainda 15 dias para a tão esperada caminhada - a proposta era essa: caminhar na Chapada - e eu já não conseguia dormir...Comecei a preparar roupas apropriadas, porque nesta época do ano aquela região, como de resto todo o interior da Bahia, é muito frio; era julho. Claro que nada disse ao realizador do meu sonho, porque ele poderia me achar muito ansiosa e estressada, coisas assim...sabe como são os psicanalistas, não? começam logo a enxergar um monte de paranóia na gente!
O grupo era composto de pessoas que eu não conhecia e isso foi surpreendentemente rico e prazeroso; houve uma sintonia absoluta, imagino até, que muito favorecida pelo próprio astral do lugar, em que o homem se integra ao seu habitat /gênese; a natureza. Engraçado observar o quanto somos afetados por essas coisas; o quanto mudamos nosso comportamento e nos tornamos mais humanos em ambientes mais ligados à natureza e desligados do nosso cotidiano desesperador vivido na urbanidade... Sem dúvida, por ser essa a nossa essência, a nossa natureza verdadeira.
Jamais vou poder esquecer esses dias, ainda que lá volte muitas vezes. Na verdade, existem momentos únicos na vida da gente; momentos irrepetíveis (podem acontecer outros até melhores); como se um portal se abrisse no Universo para nos dar de presente a magia que só pode ser percebida se estivermos muito atentos para pegá-la no ar, naquele exato momento!
Nunca pensei em praticar uma caminhada tão radical; escalei pedras que tinham três vezes a minha altura; pulei sobre formações rochosas, sob cachoeiras, que tinham verdadeiros abismos líquidos entre si; levei uma queda caindo dentro de um buraco arenoso, que me deixou as costas feridas e doloridas por dias após retornar. Porém nada disso foi mais importante do que viver aquela experiência.
Trouxe de lá guardados importantes, que, passados mais de quatro anos, ainda me alimentam; me levam a reavaliar algumas coisas...uma consequência deles é este poema que aqui vai, como resultado das minhas observações, da paisagem e sua velhíssima história, contada pelo nosso interessante e sádico guia, a quem apelidei de Fred Krueger (deu pra entender? rsrs), um verdadeiro compêndio da história, da geografia e da biologia da região, além das relações com alguém muito especial:

PEDRA DE FOZ

És como o grande abraço antisséptico
das imponentes pedras de foz
presença forte de eternas guardiãs
que são começo
mas também limites
tens imutável e frio o olhar
embora invejoso
sobre os seixos que rolam sensuais uns sobre os outros
ao sabor do vai e vem das correntes
as pequenas pedras que se deixam envolver
nesse aconchego
nem por isso brilham menos
mas não te sinto a grande rocha fria
tens o não assumido íntimo
louco pelo abraço
pelo perder-se do sujeito
e misturar-se na inconsistente massa
se deixar lamber
e se deixar levar pelo canto úmido das águas
e conhecer seu leito.

domingo, agosto 27, 2006

A urdidura do texto: cultura africana (guacira)

Falando-se de histórias de amor, não poderia deixar de registrar aqui uma homenagem à Cultura Africana, que se constituiu, ainda que de forma compulsória, o fio perfeito para que pudéssemos tecer a urdidura sobre a qual este país escreveu seu texto, mesmo que ainda precise de alguns nós que dêm a necessária firmeza à sua estrutura.
Cabe aqui uma referência importante ao período colonial brasileiro, em que havia toda a influência de outras culturas interagindo para configurar uma base tremendamente forte para o texto que se estava formando sobre ela: a nação brasileira. Esse período ao qual me referi enquanto cenário da mestiçagem - entrelaçamento semelhante ao da urdidura , com fios que se cruzam em todas as direções - evidencia uma forte relação entre tecido e texto.
A fazenda - lugar onde se faz; o fazer - em que o escravo se constituiu a sustentação da economia naquele período, portanto sua urdidura, é a base sobre a qual tudo foi construído. Foi sua força de trabalho que determinou a configuração e a continuidade daquela sociedade, com todos os seus defeitos, fundamental para a que temos hoje; seu elemento básico, o fio estrutural cultural, porque foi com ele que se teceu a fibra do homem brasileiro, o povo forte e mestiço que somos.
A influência das mulheres naqueles espaços domésticos, principalmente as mulheres portuguesas e negras, cujos fios trazidos da Europa e de África, ajudou a tecer a urdidura, o suporte sobre o qual construímos nosso tecido sócio/econômico/cultural, enquanto brasileiros . A matriz, no sentido de fundamento, em que se converteu essa mulher - também como fecundo útero - determinou as características desse texto enquanto cultura brasileira; na verdade seus fios construíram vários outros textos. Nos momentos em que teciam ou costuravam naqueles ambientes eminentemente femininos dos salões de costura e das camarinhas, as escravas e suas donas contaram e ouviram histórias, estreitaram relações, compartilharam dores, falaram de suas vidas, ou seja, elaboraram urdiduras com fios tecidos nessa relação, lançando os fundamentos de uma identidade criada nesse novo espaço, o da intersessão; outras tramas básicas foram urdidas com outros fios que estruturaram também a gramática dos nossos falares e a geografia dos nossos corpos. E esta nação é o texto final.

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